segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Governo paulista reconhece quatro comunidades quilombolas

AgênciaBrasil/DA

Mais quatro comunidades quilombolas foram 
reconhecidas,
 oficialmente, hoje (16), pelo governo estadual, em ato
 ocorrido na Feira Paulista de Assentamentos e 
Quilombos (Fepaq), no Parque da Água Branca, 
em São Paulo. A medida marca o Dia Nacional 
da Consciência Negra, a ser comemorado
 no próximo dia 20.

Com essa ação, sobe para 32 o total de comunidades 

do gênero já reconhecidas no estado, a maioria 
delas (25) localizadas no Vale do Ribeira. 
Na prática, significa que 1.395 famílias estarão 
recebendo assistência técnica profissional 
de agrônomos , veterinários, biólogos, 
técnicos agrícolas, economistas, assistentes sociais,
 entre outros, além de insumos e materiais
 para instalação de infraestrutura para produção
 e comercialização agrícola.

Nas quatro comunidades reconhecidas hoje vivem

86 famílias. A que reúne o maior número (38)
 é a Abobral Margem Esquerda, nome dado pelo 
fato de estar localizada à esquerda do Rio Ribeira
 de Iguape, no município de Eldorado. Este quilombo, 
com área de 3,4 mil hectares, existe desde o século 17, 
e chegou a ser um polo de produção de arroz, 
no século 19, cultivado por homens e mulheres negros,
 descendentes de escravos ou fugitivos do trabalho escravo.

Apesar de ocupar a segunda posição em número 

de integrantes (17 famílias), a Aldeia, em Iguape, 
é a que detém o maior lote territorial (7.350 hectares).
 À beira do Rio Una, na divisa com a Estação 
Ecológica da Jureia, surgiu com o casal João 
Miguel Dias e Leudobina Miguel, cujo pai teria 
sido fazendeiro português.

Os descendentes do casal formam o povoado 

que ainda mantém o manejo antigo, com o 
trato de animais de pequeno porte, lavoura 
de subsistência, além de pesca e atividades
 extrativistas. A ideia é abrir novos nichos de
 oportunidades de retorno às famílias com a 
criação do turismo cultural e ecológico.

Outras 16 famílias, que tiveram o reconhecimento 

de quilombolas, é a da comunidade Bombas, 
em Iporanga, em uma área de 2,512 mil hectares,
 próximo a Itaóca. O caminho até o local é feito 
por trilhas entre nascentes, florestas, córregos e
 cavernas. Para o transporte de pessoas e de carga,
 os moradores ainda seguem a rotina antiga de usar
 burros ou cavalos.

As 15 famílias restantes são da comunidade Engenho,

 localizada na margem direita do Rio Ribeira de Iguape,
 em Eldorado. Elas são formadas por descendentes de
 escravos fugitivos da Fazenda Caiacanga e 
estão espalhadas
 por 487 hectares, onde há cultivo de roças, 
principalmente, bananais.
"Agora, a nossa expectativa é conseguir o título de 

propriedade e a ajuda que o governo dá a quem tem 
o reconhecimento”, disse Leonila Priscila da Costa Pontes,
 de 65 anos, da comunidade Abrobal. Segundo ela, 
o reconhecimento
 ocorre após 35 anos de luta.

A secretária de Justiça e Defesa da Cidadania, 

Eloísa de Souza Arruda, informou que o processo
 é demorado por ser um trabalho muito complexo,
 no sentido de se apurar a veracidade da origem. 
Ela admite que apesar dos efeitos benéficos do 
reconhecimento, “ainda há muito o que fazer para 
superação do racismo. Infelizmente, ainda temos 
manifestações racistas como os episódios lamentáveis envolvendo os jogadores de futebol”.
De acordo com a secretária, parte dos produtos

dessas comunidades poderá ser adquirida pelo 
próprio governo, e destinada aos restaurantes populares 
do programa Bom Prato ou para alimentação de presos,
 entre outros.

Durante a assinatura dos termos de reconhecimento,

 os integrantes de comunidades quilombolas expuseram 
seus produtos na Fepaq, que passou a fazer parte do 
Calendário Turístico do Estado pela Lei nº 15.511. 
Em sua nona edição, o evento reuniu 90 produtores
 rurais e 54 barracas com produtos in natura (bananas),
 artesanato de fibras de bananeiras, palmito pupunha
 e alimentos processados.

“A produção que a gente vendia para atravessador,

 hoje vai direto para a Central de Abastecimento (Ceasa) 
de Campinas e para a prefeitura de Embu.
Hoje temos a certificação da produção e acesso à 
licença ambiental para as roças, à internet, 
a médicos e estradas ”, citou Benedito Alves da Silva,
 59 anos, líder comunitário quilombola.
Fonte: Midiamax

Biografia investiga princesa Isabel pelo aspecto feminino

Após quase 50 horas de sofrimento, finalmente os médicos conseguiram arrancar do ventre da princesa Isabel um bebê morto, uma menininha, que poderia ter sido herdeira da Coroa brasileira.

Naquela madrugada de 28 de julho de 1874, em meio a familiares desesperados, o próprio d. Pedro 2º empunhou um fórceps e debruçou-se sobre a filha, em tentativa desastrada de salvar sua sucessão. O esforço foi em vão.

"A História da Princesa Isabel", da jornalista Regina Echeverria, 63, que tem lançamento nesta segunda (17) em São Paulo, ilumina a trajetória da responsável pela abolição da escravatura no país por meio de um olhar feminino.

Reprodução
A biografada, por volta de 1871, em imagem do livro 'A História da Princesa Isabel
A biografada, por volta de 1871, em imagem do livro 'A História da Princesa Isabel'
"Isabel sofreu preconceito por ser mulher, casada com um estrangeiro e muito religiosa, uma carola'", diz a autora, em entrevista. "No fim, não creio que esta tenha sido uma característica negativa. Foi o que fez com que tivesse sensibilidade para entender o sentimento dos negros."

Casada com Gastão de Orleans, o conde d'Eu, neto de Luís Filipe 1º, último rei da França, Isabel demorou muito tempo para engravidar e sofreu com a dificuldade de inserção do marido na sociedade e na política brasileiras.

"Era mandona, brava, mas generosa. Não concordo com a ideia de que não soube mostrar o que queria. Isabel sofreu imensa resistência de intelectuais, políticos, de gente influente na sociedade."

O livro traz os bastidores da obstinada disputa do conde com o imperador para poder lutar na Guerra do Paraguai (1864-1870), algo que lhe daria prestígio. De fato, Gastão foi enviado ao final do conflito, após a saída de Duque de Caxias, em 1869. Echeverria relata, por meio de cartas, o sofrimento de Isabel com a distância do marido.

"Há muito a contar sobre o envolvimento da família real com a guerra. A possibilidade de que Solano López [presidente paraguaio que incitou o conflito] tivesse a intenção de casar com a princesa é um dos temas que merecem estudo", diz a jornalista.

Trabalhando com pesquisadores contratados, Echeverria consultou em especial as obras dos historiadores brasileiros Lourenço Luiz Lacombe, Heitor Lyra, Mary del Priore e do americano Roderick Barman. Também conferiu parte da vasta correspondência de Isabel, hoje no Museu Imperial de Petrópolis.

Um de seus projetos é editar as cartas da princesa em livro, para o qual busca patrocínio. Echeverria já biografou Elis Regina, Sócrates, Mãe Menininha e José Sarney.

Forçada ao exílio com a família real, após a proclamação da República, em 1889, Isabel viveria na França até sua morte, em 1921. Echeverria vê esse período, no qual morrem dois de seus filhos, como de grande tristeza para a princesa.

Por meio de memórias de membros da família real e de pessoas que conheceram a princesa na velhice, como o empresário Assis Chateaubriand, a jornalista reconstrói seus últimos momentos. Isabel morre sem nunca poder ter voltado a ver o Brasil.

A HISTÓRIA DA PRINCESA ISABEL
AUTORA Regina Echeverria
EDITORA Versal
PREÇO R$ 49 (359 págs.)
LANÇAMENTO nesta seg. (17), às 19h30, na Livraria da Vila, r. Fradique Coutinho, 915, Pinheiros
Fonte: Folhauol

sábado, 15 de novembro de 2014

“Os racistas não entram no Reino dos Céus”, diz pastor

“Os racistas não entram no Reino dos Céus”, diz pastor
Por Douglas Belchior
Há alguns anos eu participava de uma das inúmeras e intermináveis reuniões de preparação da Marcha da Consciência Negra de 20 de Novembro, quando um homem negro, alto, barbudo e com um vozeirão potente pede a palavra para falar sobre a importância de, em um espaço amplamente dominado por representações das religiões de matriz africana, haver também espaço para os evangélicos. Foi incrível! Evangélicos pentecostais em meio ao movimento negro brasileiro? Mas os pentecostais não são reacionários e alguns até mesmo racistas em suas práticas religiosas? Não! Aliás, aprendi isso com ele, neopentecostais reprodutores de valores reacionários, machistas, homofóbicos e racistas são minorias barulhentas.
Esse homem era o Pastor Marco David, autor do livro “A religião mais negra do Brasil“, onde expõe os motivos que levaram 8 milhões de negros a preferirem as religiões pentecostais no Brasil. Essa semana ele organiza a Conferência Nacional Negritude e Evangélicos: Reflexão, Resistência e Engajamento, no Rio de Janeiro, com participação especial do Reverendo John Perkins. Abaixo um registro do portal Ultimato, que entrevistou o religoso.
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De Ultimat0
As palavras são duras, nascidas de um pastor batista negro que enfrenta as barreiras do preconceito no Brasil. Marco Davi é pastor da Igreja Batista em Parque Dorotéia, São Paulo, mestre em Ciências da Religião e coordenador-fundador da ANNEB (Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil). Na entrevista a seguir, Davi fala sobre a luta por uma “reconciliação racial” e sobre a Conferência Nacional Negritude & Evangélicos que começa nesta quinta-feira, dia 13, e termina no sábado, dia 15, no Rio de Janeiro (RJ).
Portal Ultimato – Qual o objetivo da Conferência Nacional Negritude e & Evangélicos
Marco Davi – Temos como objetivo consolidar o Movimento Negro Evangélico enquanto organismo agregador de todos os movimentos e iniciativas evangélicas de negritude. Para isto, precisamos tornar realidade o objetivo do Movimento Negro Evangélico: engajar, agregar, motivar e potencializar todos os organismos e grupos evangélicos que trabalham, discutem e mobilizam em torno da questão racial no Brasil, a partir da Igreja Evangélica e nos movimentos sociais.
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A Conferência Nacional Negritude & Evangélicos não é um evento único, mas o início de um processo que culminará na formação de uma rede de organizações, pessoas e igrejas que trabalham a temática da população negra no Brasil e fora dele. Queremos realizar em 2015 o Congresso Nacional Negritude & Evangélicos e, se Deus permitir, em 2016, o Congresso Latino Americano Negritude & Evangélicos.
Portal Ultimato – Um dos preletores será John Perkins, uma das grandes vozes na defesa da reconciliação racial. O que Perkins poderá acrescentar à Igreja Evangélica Brasileira?
Marco Davi - A presença do Rev. John Perkins por si só já é um presente para nós como negros e como igreja. A sua história de luta pelos Direitos Humanos, na organização da população negra do Mississipi e nos Estados Unidos já o qualifica para estar entre nós. Suas propostas de reconciliação que não deixam de lado a necessidade de igualdade farão com que tenhamos novas perspectivas. Até, quem sabe, novos discursos sobre a questão negra entre nós.
Portal Ultimato – Quando falamos de “reconciliação racial” do que estamos falando?
Marco Davi – Creio que, no Brasil, precisamos elaborar mais o assunto. Precisamos lutar pela reconciliação. Mas para que isto aconteça duas coisas são necessárias e importantes. Primeiro, os negros devem gostar de serem negros. Há uma autoestima baixa entre os negros do Brasil em geral. Muitos têm dificuldades até de discutir o assunto sobre raça. Outros procuram se juntar mais e mais com brancos, não porque acham natural, mas porque têm dificuldades com a sua cor da pele, sua raça. Não é porque eles sejam racistas, , como afirmam alguns preconceituosos (até porque os racistas sempre são aqueles que fazem parte do grupo de maior poder econômico, politico e sistêmico). Portanto, é impossível, de forma radical, que os negros sejam racistas. Mas quando alguns têm sentimentos racistas, como sabemos de alguns que nutrem esse sentimentos pecaminosos, o fazem talvez porque não se aceitam como são: imagem e semelhança de Deus.
Outra realidade importante para que haja reconciliação entre negros e brancos no Brasil são os brancos compreenderem que eles têm vantagens no Brasil. Os brancos pobres ou ricos já nascem com vantagens nesta nação. A raça dos brancos não foi escravizada por mais de 350 anos. Os brancos têm vantagens emocionais, psicológicas, econômicas, sociais, geográficas, etc. Os brancos não são o objeto principal da violência policial, mas sim os negros. São os negros que precisam conversar com os filhos que sofrem angústias por serem discriminados no país. E muitas outras coisas.
Não estou legitimando a postura de “coitados” para os negros, mas sim mostrando que se os brancos não reconhecerem isso, que o Estado brasileiro deve à população negra, não conseguiremos muitas avanços. A reconciliação sem direitos é imposição da Injustiça.
Portal Ultimato – Quando defendemos os negros, desvalorizamos os brancos?
Marco Davi - De maneira nenhuma. Os brancos e os negros são imagem e semelhança do Pai. O que queremos falar com a defesa dos negros – e que causa sim muitas dificuldades para brancos e negros pelos motivos ressaltados acima – é a busca dos direitos diante desta sociedade que evidencia o racismo e a sua exclusão. O Estado do Brasil deve muito aos negros que trabalharam muito sem nada receberem, somente alimentação horrível, violência, estupros, segregação, imposições de leis que favoreciam aos brancos da época, principalmente, aos ricos e fazendeiros, etc. Quando os negros estavam prontos e preparados para o trabalho e próprio ganho pessoal e não para seus senhores, o Estado do Brasil criou outras formas de prejudicar os negros, como a lei do ventre livre, o branqueamento que posteriormente se tornou uma política a partir da qual muitos brancos de outros países vieram para cá subsidiados pelo governo. Foi muita covardia. Se o Brasil não reparar isto continuará sob o juízo de Deus.
Portal Ultimato – Um assunto urgente é a violência que tem os jovens negros como as maiores vítimas. Para este assunto, haverá uma mesa de debate. Qual a gravidade do tema?
Marco Davi - Agora mesmo saiu uma pesquisa que mostra que os negros jovens são as maiores vítimas da violência. O Mapa da Violência no Brasil 2014 revela isto. Em todo o país, sete jovens são mortos a cada duas horas. São 82 jovens mortos por dia, 30 mil por ano, todos com idades de 15 a 29 anos. E, entre os jovens assassinados, 77% são negros (somando aqui os pretos e pardos, pelos critérios do IBGE).
Isso é muito grave, porque basta ser negro. Ninguém está preocupado se ele é evangélico, do candomblé, ou católico. É negro e ponto. O que é muito triste é ler alguns comentários nas redes sociais de gente que é racista, mas nunca tem coragem de avisar ao outro. Nesta hora, esta gente se sente livre e detona o seu azedume racista. Gente de igreja também que diz não ser bem assim, que isso é notícia plantada. Ora, quem vai plantar uma desgraça dessa? Qual objetivo? Isso é uma realidade, e a violência pode atingir também aos cristãos, como já tem acontecido.
Confesso que tenho medo, pois tenho um filho de 18 anos e uma filha de 16. Negros lindos por sinal, estudiosos, dedicados. Quando eles saem, eu fico com muito medo do que pode acontecer. Como cristão e pastor, coloco, é claro, nas mãos do Senhor. Mas digo a Ele que o medo existe, porque moro no Brasil onde os negros – como em outros lugares – são preteridos em muitas coisas. O negro é objeto de violência em primeiro lugar.
A igreja brasileira denominou alguns problemas no Brasil como coisas do diabo, tais como: homossexualismo, casamento gay, aborto, etc. Mas tantos jovens negros são assassinados no Brasil e isso nunca foi motivo para levante midiático, campanhas no Youtube, Facebook, televisão , etc. Ou seja, o genocídio aos negros pode continuar, desde que não atinja os dogmas religiosos das igrejas. Mas o que será o que o Senhor Jesus dirá à nossa igreja do Brasil? Racismo é pecado. E quando você que é racista e acha que os negros devem morrer mesmo, não devem nem falar sobre direitos, e devem continuar no seu lugar, estiver lendo este texto, peça perdão ao Senhor e peça a ele que tenha misericórdia de sua vida. Porque talvez você, no juízo final diante do Senhor, o encontre negro. E isso acontecendo, ele dirá “apartai de mim maldito para o fogo eterno”, pois racistas não entram no reino dos céus.
Serviço:
Conferência Nacional Negritude & Evangélicos
Tema: Reflexão, Resistência e Engajamento
Data: 13, 14 e 15 de novembro
Local: Seminário Teológico Batista do Sul (RJ)
Informações: AQUI
Fonte: Negro Belchior
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

HARRY BELAFONTE - DISCURSO TRADUZIDO

Harry Belafonte receives the Jean Hersholt Humanitarian Award at the 2014 Governors Awards

Traduzido por Marcos Manhães Marinho
"A América percorreu um longo caminho desde que Hollywood em 1915 deu ao mundo o filme "Nascimento de uma Nação". Por qualquer medida, esta obra cinematográfica foi considerada o maior filme já feito. O poder das imagens em movimento para produzir impacto sobre o comportamento humano nunca foi mais fortemente evidenciado do que quando, após o lançamento do filme, os cidadãos americanos entraram numa fúria assassina. Raças foram jogadas umas contra as outras. Fogo e violência eclodiram. Tacos de beisebol e cassetetes feriram cabeças. O sangue corria nas ruas de nossas cidades, e vidas foram perdidas.
O filme também ganhou a distinção de ser o primeiro filme que já foi exibido na Casa Branca. O então presidente Woodrow Wilson elogiou abertamente o filme, e o poder desta unção presidencial validou a brutalidade do filme e sua visão grosseiramente distorcida da história. Isso, também, inflamou ainda mais a divisão racial da nação.
Em 1935, com 8 anos de idade, sentado em um cinema do Harlem, eu assistia com admiração e maravilha às incríveis façanhas do super-herói branco: Tarzan dos Macacos. Tarzan era um espetáculo para se ver. Este Adonis de porcelana, este libertador branco, que não falava língua alguma, balançando de árvore em árvore, salvando a África da tragédia da destruição por uma população indígena preta de ineptos, ignorantes, uma população desprovida de qualquer habilidade, regida por antigas superstições, sem coração para a caridade cristã.
Através deste filme, o vírus da inferioridade racial, de nunca querer ser identificado com qualquer coisa Africana, foi varrido para dentro da psique de seus observadores juvenis. E pelos anos que se seguiram, Hollywood trouxe muitas oportunidades para as crianças negras em suas salas do Harlem para saudar Tarzan e vaiar africanos.
Os nativos americanos, nossos irmãos e irmãs indígenas, não se saíram melhor. E no momento, os árabes não são olhados tão bem.
Mas esses encontros colocaram outras coisas em movimento. Aquilo foi um estímulo precoce para o início da minha rebelião pessoal, uma revolta contra a injustiça e a distorção humana e o ódio. Que sorte para mim que as artes do espetáculo tornaram-se o catalisador que alimentou meu desejo de mudança social. Em sua busca, deparei-me com outros artistas, como o grande ator e meu herói, cantor e humanista Paul Robeson, o pintor Charles White, a dançarina Katherine Dunham, *A* mente superior acadêmica do historiador Dr. W.E.B. Du Bois, a estrategista social e educadora Eleanor Roosevelt, os escritores Langston Hughes e Maya Angelou e James Baldwin. Todos eles me inspiraram. Eles me animaram. Profundamente me influenciaram. E eles também foram minha bússola moral.
Foi Robeson quem disse, como você ouviu no filme anterior, "Os artistas são os guardiões da verdade. Eles são a voz radical da civilização." Este ambiente Robeson soou como um lugar desejado para estar. E dada a oportunidade de morar lá, nunca me decepcionou.
Para o meu gosto de ativismo e compromisso com a mudança social, a oposição tem sido ferozmente punitiva. Alguns que já controlaram instituições de cultura e comentários têm, por vezes, usado seu poder para não só distorcer a verdade, mas para punir os que buscam a verdade. Com intervenções como o Macartismo e a lista negra, Hollywood, também, infelizmente, tem desempenhado o seu papel nestes cenários trágicos. E de vez em quando, eu tenho sido um de seus alvos.
No entanto, a partir do ambiente cultural que nos deu todo esse drama social e todos os filmes - Nascimento de uma Nação, Tarzan dos Macacos, A Canção do Sul, para citar apenas alguns - a colheita cultural de hoje produz um fruto mais doce: Acorrentados, A Lista de Schindler, O Segredo de Brokeback Mountain, 12 Anos de Escravidão, e muitos mais. E tudo isso acontecendo no alvorecer de criações tecnológicas que nos dariam artistas, áreas ilimitadas de possibilidades para nos trazer uma percepção mais profunda da existência humana.
Que sorte a minha de ter vivido tempo suficiente para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas ter escolhido depositar esta honra sobre mim. Hoje à noite não é um encontro casual para mim. Junto com o troféu de honra, há uma outra camada que dá a esta viagem esta espécie de maravilhoso final hollywoodiano. Para ser recompensado pelos meus pares por meu trabalho a favor dos direitos humanos e pelos direitos civis e pela paz - bem, deixe-me colocar desta forma: Isto poderosamente silencia o trovão do inimigo.
Aproximando-me dos 88 anos de idade, quão verdadeiramente poético é eu alegremente brilhar com meus colegas homenageados, devemos ter em nosso meio como um dos nossos celebradores um homem que tanto fez em sua própria vida para redirecionar o navio de ódio racial e cultura americana. Seus esforços fizeram a viagem um pouco mais fácil. Senhoras e senhores, eu me refiro ao meu amigo - meu amigo idoso - Sidney Poitier.
Agradeço à Academia e seu Conselho de Governadores por esta honra, por este reconhecimento. Eu realmente desejo que eu pudesse estar por perto para o resto deste século para ver o que Hollywood fará com o resto do século. Talvez, apenas talvez, eu pudesse ser aquele que mudará o jogo da civilização. Afinal, Paul Robeson disse: "Os artistas são a voz radical da civilização." Todos e cada um de vocês nesta sala, com seus dons e seu poder e suas habilidades, talvez pudessem mudar a maneira com que nossa humanidade global desconfia de si própria. Talvez nós, como artistas e como visionários, para o que há de melhor no coração do homem e da alma humana, pudéssemos influenciar os cidadãos em todo o mundo para verem o melhor lado de quem e o que nós somos como uma só espécie.
Agradeço a todos e a cada um de vocês por esta honra, e aos meus colegas homenageados, eu não poderia ter tido melhor companhia do que ter compartilhado esta noite com cada um de vocês. Muito obrigado."

Agências da ONU apoiam conferência com raparigas moçambicanas

Em Maputo, evento reuniu grupos de defesa dos direitos humanos e das mulheres; organização ressalta discussão dos problemas enfrentados pelo grupo em todo o país.
Crianças moçambicanas. Foto: Unicef
Ouri Pota da Rádio ONU em Maputo.*
Várias ONGs que operam em Moçambique juntaram-se ao Fundo da ONU para a Infância, Unicef, e ao Fundo das Nações Unidas para a População, Unfpa, no apoio a uma conferência sobre questões da rapariga.
O encontro reuniu 150 representantes das onze províncias moçambicanas, até esta quinta-feira. O lema foi "Empoderando as Raparigas e Inspirando Mudanças para Eliminar o Ciclo de Violência". As participantes eram de associações, organizações, instituições de defesa dos direitos humanos e das mulheres.
Problemas
A porta-voz da Conferência, Maria Domingos, considerou o evento positivo por ter abordado aspetos relacionados com os problemas do grupo.
"A questão do tráfico, da violência e abuso sexual, das uniões forçadas, da gravidez precoce, problemas consideráveis das raparigas em topo pais. As raparigas têm a oportunidade de falar na primeira pessoa, partilhar as suas experiências e denunciar estes casos que muitas vezes não têm acontecido. Esta é uma das razões da realização da conferência para as raparigas poderem falar abertamente".
Iniciativa
Já a jovem participante Eresilda Cumbe, da província de Gaza, no sul, prometeu partilhar  a experiência no ponto de origem após dar nota positiva à iniciativa.
"Nesta conferência aprendi muita coisa, eu gostei muito de aprender, vou levar a mensagem vou transmitira às minhas colegas em Gaza, porque em Gaza temos maior dificuldade de desenvolvimento na parte das raparigas, a questão do trafico e abuso sexual".
Formação
A conferência discutiu temas relacionados aos direitos sexuais e reprodutivos, à saúde e à violência baseada no género. Outros tópicos foram a educação básica, a formação profissional e a situação do grupo no país.
O evento teve a coordenação da Coligação para a Eliminação dos Casamentos Prematuros, Cecap. As ONGs envolvidas foram a Terre des Hommes Apoio aos Menores, a Fundação para Desenvolvimento da Comunidade, FDC,  e o Fórum Mulher.
Fonte: radioonu

Música Negra Brasileira: conheça os convidados do programa especial da TV Brasil

A música foi um importante veículo de valorização da herança afro-brasileira no Brasil. Nos anos 70, artistas como Jorge Ben, Tim Maia, Gilberto Gil e Wilson Simonal cantavam o orgulho de ser negro em canções célebres como "Zumbi", "Negro é Lindo", "Rodésia", "Que bloco é esse", "Tributo a Martin Luther King" e muitas outras. 
A temática e o estilo musical traziam elementos do movimento Black Power americano, assim como de gêneros musicais como o soul, o funk e o reggae.
O especial Música Negra Brasileira vai ao ar na TV Brasil em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, e resgata o universo dos bailes black dos anos 1970. Participam nomes da época como Sandra de Sá, Toni Tornado, Hyldon e de talentos da nova geração que atualizam este universo cultural, como B Negão e Ellen Oléria.

Sandra de Sá

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Sandra de Sá, anfitriã do especial Música Negra Brasileira,  fala sobre racismo e a mudança da sociedade brasileira em relação ao tema. Ela ainda reflete sobre a influência africana na cultura brasileira. Segundo ela, o povo brasileiro está mais consciente e questões relativas ao preconceito são mais criticadas.

Hyldon

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Em entrevista exclusiva, o cantor, guitarrista e compositor Hyldon exalta a importância de Tim Maia na música brasileira e seu grito de “muitas Áfricas”. O músico ainda narra um episódio vivido com Wilson Simonal, um dos compositores homenageados pelo especial Música Negra Brasileira, junto com Tim Maia, Jorge Ben Jor, Cassiano e Gilberto Gil.

Ellen Oléria

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A cantora e compositora Ellen Oléria fala da relação da sua geração com a luta pela transformação nos processos discriminatórios no Brasil e o papel do movimento negro nesta jornada. Ellen ainda explica como a música é um agente fundamental na exaltação da cultura afro-brasileira.

Toni Tornado

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O ator, cantor e compositor fala sobre como a  educação no Brasil aborda a cultura e história dos negros no país e a importância do tema para a conscientização social.  Tony ainda dá um recado para o jovem negro brasileiro. 

B Negão

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O cantor e compositor B Negão explica o conceito do “Afrofuturismo” e sua militância nesta área. Bernardo ainda fala de Jorge Ben e seu principal arranjador, J.T Meirelles.

Fonte: http://www.ebc.com.br/

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros - O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...