sexta-feira, 18 de agosto de 2017

"Ser escritora nunca foi uma ambição", diz poeta Bruna Beber

Os escritores Bruna Beber & milton hatoum posam para ensaio da Serafina de julho de 2017 ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Foto: Bob Wolfenson
Os escritores Bruna Beber e Milton Hatoum posam para ensaio da Serafina de julho de 2017.

Quando Bruna Beber, 33, era adolescente e fazia testes vocacionais, artista constava entre as profissões que poderiam sair como resultado.
Mas a caxiense escrevia porque gostava de escrever. E, aos 22 anos, lançou seu primeiro livro. Passada uma década, é considerada uma das autoras em maior ascensão na literatura brasileira. Lançou há semanas "Ladainha", que recebeu cinco estrelas da crítica da Folha.
A pedido da Serafina, Beber se encontrou com Milton Hatoum, um dos maiores escritores vivos, e respondeu a perguntas sobre seu ofício.
Leia abaixo a entrevista com a poeta.
Em que você está trabalhando neste exato momento?
Estou finalizando um processo de tradução de livros clássicos norte-americanos infantis de poesia que comecei há oito meses. Foram sete livros ao todo, que começarão a ser publicados ao longo desse ano. Ao mesmo tempo, traduzi também um longo poema clássico europeu do século 19 que deve sair em breve.
Teve algum romance, conto ou poema que te levou a querer escrever? Qual, quando e, se já conseguiu diagnosticar, por quê?
Isso acontece com frequência, pois me sinto sempre recomeçando, tomando novo fôlego para escrever. Não para criar, porque não gosto da palavra criar, prefiro a palavra fazer. Uma vez li uma entrevista da Miranda July em que ela dizia que quando a gente encontra uma grande arte, se sente compelido a fazer (ou tentar fazer) algo em resposta. Lembro de quase todos os meus grandes encontros com livros, poemas e músicas, mas vou me concentrar nos decisivos de formação, dos 15 aos 20 anos:
1)"Angústia", do Graciliano Ramos. Ali eu senti a mordida, a mais fatal e intratável, dói até hoje;
2) "As Impurezas do Branco", do Drummond;
3) A imbatível dupla "Memórias sentimentais de João Miramar" & "Serafim Ponte Grande", do Oswald;
4) "Agora é que são elas", do Leminski;
5) "Tanto faz", do Reinaldo Moraes; e o poema "As árvores", do Arnaldo Antunes, que virou música com o Jorge Ben Jor.
Qual foi o momento em que você olhou no espelho e pensou: sou artista?
Comecei a escrever muito cedo, assim que aprendi a ler e a escrever, mas só fui tomar consciência de que escrevia e de que escrever era algo diferente do que os meus amigos faziam, quando comecei a mostrar a eles as coisas que havia escrito, na adolescência. No contexto em que cresci, ser artista nunca foi uma possibilidade, não existia esse tipo de questionamento. Na escola, na hora do teste vocacional, ninguém recebe o resultado "artista". Então, eu sempre escrevi, mas ser escritora nunca foi uma ambição. Até publicar o meu primeiro livro, aos 22 anos, eu nunca havia pensado que um dia publicaria um livro. Eu não conhecia pessoas da minha idade que publicavam livros, eu não sabia nem o que precisava ser feito para publicar um livro. Até que descobri e aconteceu, e então eu não tinha a menor noção do que viria depois, eu não esperava por nada, eu só queria publicar um livro e não sabia nem qual era o significado disso. Cinco livros depois, eu entendo um pouco mais, mas sei que nunca vou compreender de todo, não é a minha busca. A minha busca é fazer. Enfim, eu acho que isso tudo aconteceu porque antes mesmo de existir um planejamento, um cálculo, um contexto propício, um momento preciso, existia desde sempre, desde que me peguei ainda criança completamente encantada pelas palavras, existia um imenso e secreto desejo de fazer, de dizer, então eu sempre fui fiel a essa convocação que logo cedo senti, que me moveu e que eu nunca abandonei. Hoje a poesia é o meu principal ofício, que eu assumi não faz muito tempo, e que só virou ofício porque sempre foi e será um caminho.
Tem algum momento em que olhe no espelho e pense: não sou artista? Quando?
Repondo concluindo o textão acima: finalmente eu não me questiono mais sobre isso. Mas, até aceitar que "sim, eu faço um trabalho artístico". E depois "sim, eu faço um trabalho artístico mas como vou viver disso?". Passando por "sim, essa é a coisa que mais gosto de fazer, então eu tenho que dar um jeito dessa coisa ser o meu principal ofício". Culminou em "sim, eu faço um trabalho artístico, escrever é o que eu mais gosto de fazer, eu vou tentar fazer isso a maior parte do meu tempo, mas tem vezes que não vai dar e tudo bem, paciência". Hoje, que me entreguei totalmente a esse caminho, me sinto sempre em risco, uma formiga em risco. E gosto disso. Não reclamo de ser meu próprio patrão e também minha própria contadora, meu próprio office boy, minha própria produtora, até porque controlo o meu tempo. Então estou sempre trabalhando e resolvendo burocracias, cansada e sempre descansando, para nunca ter vontade de parar, porque essa inquietação às vezes é tão intensa que chega a ser paralisante.
Qual é seu conselho para alguém que quer ser escritor?
O óbvio: ler, ler, ler. Ir atrás das grandes e pequenas obras, ir atrás do risco, de todo tipo de arte. Escrever muito e reescrever muito mais. Sentar e fazer, como qualquer atividade, toda dedicação é recomendável. Já o resultado disso tudo é imprevisível, afinal nunca houve nem haverá garantias para ninguém. No mais, pessoalmente, aceitar a solidão e amá-la, cantar, caminhar, conversar e viajar sempre que possível.
Qual foi o melhor conselho que recebeu quanto ao ofício?
Quem não arrisca não petisca!
Que palavra define sua relação com a arte hoje?
Fazer.
Qual definia quando começou?
Solidão.
Se não fosse artista, seria o quê?
Dona de bar.
Há algo que todos deveriam ler?
Um livro chamado "Seis Mil Anos de Pão - A Civilização Humana Através de seu Principal Alimento", do historiador alemão Heinrich E. Jacob. Mudou a minha percepção, é uma espécie de livro sagrado, mas no lugar de Deus (ou como prefira chamar) está o pão. 

CHICO FELITTI
Fonte: Folhauol

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Manifestações Culturais Negras

Afoxé



Foto:  Filhos de Gandhy (SalvadorBA)
Afoxé é uma expressão artístico-religiosa, geralmente conduzido por um Babalorixá ou Ialorixá, e funcionam no interior dos terreiros de Candomblé. A ligação dos grupos com a tradição africana também se traduz nas cores que levam às ruas, fazendo referência aos Orixás.
Fonte: Catálogo de Agremiações Carnavalescas de Recife e Região Metropolitana, 2009.

Bloco Afro

Foto: Bloco Afro – Foto Carla Ornelas (Governo da Bahia)
Os Blocos Afro possuem forte viés político, levantando a bandeira da luta contra o racismo e pela afirmação da identidade negra. Parte dessas agremiações ampliam suas atividades para além do Carnaval, promovem ações educativas e de formação profissional. A percussão é a base musical dessa manifestação.

Bumba-meu-boi

Foto:  Geraldo Furtado (Secretaria de Estado da Igualdade Racial MA)
A auto do Bumba-meu-boi é apresentado como a morte e a ressurreição de um boi especial. Pai Francisco, o escravo de confiança do patrão, mata e arranca a língua do boi para satisfazer os desejos de grávida de sua esposa, Mãe Catirina. Após ser perseguido, preso e castigado, Pai Francisco se vê forçado a ressuscitar o animal. Todos, então, cantam e dançam em comemoração. O boi é uma das principais referências da cultura negra maranhense, presente em vários estados brasileiros. 
Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – MinC

Cacuriá

Foto: Paulinha Viana – São Luís/MA

A dança acontece após a derrubada do mastro que marca o fim da Festa do Divino, no estado do Maranhão. É o momento em que caixeiras e festeiros se unem para dançar. Com mais de duas décadas de existência tem seu arranjo musical marcado por caixas, flautas, clarinetes, violões e banjos, flautas, clarinetes, violões e banjos.

Capoeira

Foto: Acervo (FCP – MinC)
Capoeira é uma manifestação cultural presente hoje em todo o território brasileiro e em mais de 150 países, com variações regionais e locais criadas a partir de suas “modalidades” mais conhecidas: as chamadas “capoeira angola” e “capoeira regional”. Os principais aspectos da capoeira, como prática cultural desenvolvida no Brasil, são o saber transmitido pelos mestres, como reconhecidos por seus pares, e a roda, onde a capoeira reúne todos os seus elementos e se realiza de modo pleno.
Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – MinC

Carreiros

Foto: Rogério Corrêa (www.carrosdeboi.com.br)
No período colonial os carros-de-boi eram guiados com cargas agrícolas e de minérios, ou como transportes de pessoas. Com a abolição da escravatura as procissões de trabalho deixaram de ser vistas como obrigações e passaram a compor as festas religiosas. Nelas representam reverência aos ancestrais, além de agradecimentos pelas colheitas e pelas graças alcançadas. Na atualidade, acontecem em diversos pontos do país, sendo a mais famosa a Romaria de Carreiros de Trindade, no estado de Goiás, onde é dedicada ao Divino Pai Eterno.

Carimbó

Foto: Everaldo Nascimento (Agência Pará Governo do Pará)
Carimbó é um encontro do pé batido indígena com a dança de origem africana, preservado pela oralidade dos mestres populares. O nome Carimbó deriva do instrumento de percussão indígena curimbó, que na língua tupi quer dizer pau oco. Em setembro de 2014, foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural para se tornar Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
Fonte: Revista Raiz e site Amazônia Real

Ciranda

Foto: Ministério da Cultura


Surgida nas regiões litorâneas do Nordeste brasileiro, e tendo como referência Pernambuco, nasceu de mulheres de pescadores que cantavam e dançavam esperando que esses retornassem do mar. É uma dança comunitária que se constitui de um círculo que aumenta na medida em que as pessoas chegam para a coreografia. De mãos dadas, a cada giro os integrantes imitam o vai e vem das marés. O mestre cirandeiro é o integrante mais importante da roda, cabendo a ele “tirar as cantigas”, improvisar versos e tocar o ganzá enquanto preside a brincadeira coordenando a percussão.

Congada

Foto: Fábio Durso
Congado, também chamado de Congo ou Congada mescla cultos católicos com africanos num movimento sincrético. É uma dança que representa a coroação do rei do Congo, acompanhado de um cortejo compassado, cavalgadas, levantamento de mastros e música. Os instrumentos musicais utilizados são a cuíca, a caixa, o pandeiro, o reco-reco. O ponto alto da festa é a coroação do rei do Congo.
Fonte: Portal Geledés

Escola de Samba

Foto: AF Rodrigues (RioturPrefeitura da Cidade do Rio de Janeiro)
Manifestação cultural popular, o samba acontece em quase todos os estados brasileiros desde os tempos coloniais. Um misto de festa e espetáculo, o desfile de uma Escola de Samba é um verdadeiro ritual de canto, visual, música e dança. O enredo transforma-se numa linguagem plástica traduzido nas fantasias, adereços e alegorias. A presença do casal de Mestre-sala e Porta-bandeira no desfile é um dos elementos mais representativos.
Fonte: Catálogo de Agremiações Carnavalescas de Recife e Região Metropolitana,2009.

Folia de Reis

Foto: JC Curtis

Comum nas regiões Centro-Oeste e Sul do país, a festa religiosa celebra os Três Reis Magos em visita ao menino Jesus. Os foliões que participam do cortejo, organizados em grupo, visitam as casas no período entre o Natal e o dia seis de janeiro. Além dos músicos, o grupo também se compõe de dançarinos, palhaços e outras figuras folclóricas, caracterizadas segundo as lendas e tradições de cada localidade. Todos se organizam sob a liderança do Mestre da Folia e seguem em reverência aos passos da bandeira, cumprindo rituais tradicionais repletos de beleza e riqueza cultural.

Frevo

Foto: Antônio Tenório (Prefeitura do RecifePE)
Frevo é uma forma de expressão musical, coreográfica e poética. O gênero musical urbano surge no final do século 19, no Carnaval, em um momento de transição e efervescência social como forma de expressão das classes populares nos espaços públicos e nas relações sociais. Sua dança origina-se na capoeira.
Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – MinC

Jongo

Foto:  Acervo – (FCPMinC)
Jongo é uma forma de expressão negra brasileira praticada no meio urbano e em comunidades rurais do Sudeste brasileiro. Acontece nas festas de santos católicos e divindades afro-brasileiras. É uma forma de reverência aos antepassados e afirmação das identidades negras.
Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – MinC

Maculelê

Foto: Acervo Ascom (FCP – MinC)

Foi inspirado em uma arte marcial armada de escravizados malês. Conta a lenda de um jovem guerreiro que sozinho defendeu sua tribo de um grupo rival usando apenas dois pedaços de pau. Na dança, com dois bastões, os participantes desferem e aparam golpes no ritmo da música. Outros grupos pelo país utilizam facões no lugar dos bastões, o que proporciona um bonito efeito visual pelas faíscas que saem após cada golpe.

Marabaixo

Foto: Jorge Junior (Secretaria de Estado de Comunicação do Amapá)

De origem africana, a festividade é realizada pelas comunidades negras do estado do Amapá. Trata-se de uma homenagem ao Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade que tem início na Páscoa e segue até o Domingo do Senhor. O festejo que representa a história e a cultura afro-amapaense, é caracterizado por missas, novenas e ladainhas.É marcado pelas batidas de tambores e “caixas de marabaixo”, além de danças de roda. O nome da festa se deve ao fato de que os negros foram trazidos mar abaixo, da África para ao Brasil.

Maracatu de Baque Virado

Foto: Nando Magalhães (RR AL FCP – MinC)
Os grupos de Maracatu de Baque Virado tiveram origem nas coroações de rainhas e reis negros denominados Reis do Congo. Na atualidade integram os festejos carnavalescos com um cortejo real negro ricamente trajado com sedas, veludos, bordados e pedrarias, em referência à corte europeia. A música é composta por batuques da tradição africana fundamentados no Candomblé.

Maracatu de Baque Solto

Foto: Costa Neto (Secretaria de Cultura de Pernambuco)

Também conhecido como Maracatu Rural é uma referência da cultura pernambucana, no qual figuram os caboclos de lança. A maioria de seus integrantes é de trabalhadores rurais, que também produzem as próprias fantasias, guiadas, relhos e chapéus. Diferencia-se dos outros maracatus por seu estilo de vestimentas e pela musicalidade própria. Enquanto no maracatu de Baque Virado os tambores marcam a harmonia, os instrumentos de sopro dão a essência do Maracatu de Baque Solto, conhecido ainda como Maracatu de Orquestra.

Marujada

Foto : Chegança Fragata Brasileira (SaubaraBA)
Também conhecida como Barquinha, Nau Catarineta e Chegança, a Marujada marca os festejos dos santos padroeiros locais com desfiles do porto até a igreja, entoados pela bandinha, cujos componentes estão devidamente fardados de marujos.
Fonte: Bahia.com.br

Matriz do Samba

 Foto: Centro Cultual Cartola/RJ



No começo do século 20 se consolidaram, no Rio de Janeiro, três formas de samba: o partido alto, o samba-enredo e o samba de terreiro. Matrizes referenciais do gênero, guardam relação direta com os padrões sociais de onde surgem. Nele, existe a autoria individual, porém a performance é coletiva. O improviso é outro aspecto importante e se mantém enraizado na prática amadora ou comunitária dessas formas de expressão. As matrizes do Samba no RJ foram tombadas como Patrimônio Imaterial em 2007.

Negro fugido

Foto: Acervo Ascom/FCP – MinC


Mantido há mais de um século pelos pescadores da região do Recôncavo Baiano, o Nego Fugido é um teatro popular de rua que mistura também elementos da dança, música e declamação. Conta uma versão peculiar da história do Brasil que compreende a abolição da escravatura a partir de um processo de revolta, luta e resistência do povo negro. A narrativa entrelaça o legado coletivo do Recôncavo, à prática da pesca artesanal e às práticas religiosas e culturais afro-brasileiras locais, cuja memória do passado escravizado se articula no enfrentamento dos atuais problemas enfrentados pelas comunidades.

Reisado de Congo

Foto: Felipe Abud (Secretaria de Estado de Cultura de Amapá)

Festa popular da região do Cariri, no estado do Ceará, tem como característica o teatro urbano e as danças de cortejo, legados marcantes das festas religiosas de matriz africana. A manifestação carrega também traços do catolicismo, recordando o trajeto dos Três Reis Magos para visitar o menino Jesus. É realizada na rua sob a forma de procissão, onde reúne cantadores e dançadores acompanhados por uma orquestra e apresenta dramatizações. Se compõe de várias partes e tem como personagens, os Três Reis Magos, o rei e a rainha de congo, o mestre, o contramestre, figuras e moleques.

Samba de Coco

Foto: Fabiana Costa (Secretaria de Estado de Cultura de Sergipe)
A apresentação está ligada à constituição das comunidades negras em Pernambuco e Alagoas, com forte influência indígena. Os quilombolas cantam enquanto praticam o ritual da quebra do coco para a retirada da “coconha” (amêndoa), essencial no preparo de alguns alimentos. No Samba, o tirador do coco, também chamado de coqueiro ou conquista, é quem puxa os versos que podem ser tradicionais ou improvisados, que são sempre respondidos pelo coro de participantes. A tradição possui inúmeras variantes: coco de umbigada, coco-de-embolada, coco-de-praia, coco de roda, entre outras.

Samba de Roda

Foto: Manu Dias (Secretaria de Cultura do Estado da Bahia)

Considerado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Imaterial brasileiro, o Samba de Roda do Recôncavo Baiano é uma das mais importantes expressões musical, coreográfica, poética e festiva do país. Reúne as tradições culturais que incluem o culto aos orixás e caboclos, o jogo da capoeira e a chamada comida de azeite. Variante musical mais tradicional do samba, surgiu, provavelmente, no século XIX e é considerada por historiadores como uma das fontes do samba carioca, também tombado como Patrimônio Cultural do Brasil.

Tambor de Crioula

Foto: Acervo Ascom – (FCP- MinC)
O Tambor de Crioula é uma forma de expressão negra brasileira que envolve dança circular de mulheres e ocorre na maioria dos municípios do Maranhão. Os tocadores e cantadores, também denominados coreiros, são conduzidos pelo ritmo incessante dos tambores e a força das toadas evocadas, culminando na punga (ou umbigada).
Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – MinC

Teatro Experimental do Negro (TEN)


Foto: José Medeiros
Teatro Experimental do Negro (TEN) surgiu em 1944, no Rio de Janeiro, como um projeto idealizado por Abdias Nascimento (1914-2011), com a proposta de valorização social do negro e da cultura afro-brasileira por meio da educação e arte, bem como com a ambição de delinear um novo estilo dramatúrgico, com uma estética própria, não uma mera recriação do que se produzia em outros países.
Fonte: Fundação Cultural Palmares

Oscar indica número recorde de artistas negros

Se em 2016 o Oscar foi marcado pela falta de indicações a profissionais negros —fato que popularizou a hashtag crítica #OscarsSoWhite—, em 2017, a Academia parece ter prestado atenção à diversidade do cinema.

Entre os finalistas, divulgados nesta terça (24), há ao menos uma atriz ou ator que não branco nas categorias de atuação. Nos últimos dois anos, eram todos brancos. Desta vez, foram seis artistas negros indicados.

Denzel Washington disputará a estatueta por "Fences", mesmo filme que rendeu a Viola Davis uma indicação de atriz coadjuvante. Ambos se tornam, assim, os artistas negros com mais indicações na história da premiação.
foto divulgação.
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Octavia Spencer está na briga com Davis por "Estrelas Além do Tempo" e Naomie Harris, por "Moonlight". Ruth Negga, por sua vez, concorre a melhor atriz por "Loving".

Mahershala Ali está na disputa por ator coadjuvante por "Moonlight", mesma categoria de Dev Patel —britânico com ascendência indiana que se destacou em "Lion".

Por trás das câmeras, Kimberly Steward se tornou a segunda mulher negra indicada pela produção de "Manchester à Beira Mar", concorrente a melhor filme. A primeira foi Oprah Winfrey, por "Selma."

Diretor e roteirista de "Moonlight", Barry Jenkins é agora o quarto diretor negro a ser reconhecido pelo Oscar —os outros indicados foram John Singleton, Lee Daniels e Steve McQueen.

A categoria de documentários é quase inteiramente dominada por realizadores não brancos: Ava DuVernay ("A 13ª Emenda"), Raoul Peck ("I Am Not Your Negro"), Ezra Edelman ("O.J.: Made in America") e Roger Ross Williams ("Life, Animated").

Os resultados foram celebrados pela Associação Afro-Americana de Críticos de Cinema, que afirmou estar "entusiasmada com os recordes superados com as indicações neste ano". "Esperamos que o progresso da Academia continue para refletir a rica diversidade da América", afirmou a instituição. 
Fonte: Folhauol

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Quando a censura cortou as luzes de um filme em Gramado

Páginas da "Folha da Tarde" (SP) e da "Folha da Manhã" (RS) sobre a sessão em Gramadoacervo pessoal
Páginas da "Folha da Tarde" (SP) e da "Folha da Manhã" (RS) sobre a sessão em Gramado

Quase 40 anos depois da primeira exibição do filme "25 - A Revolução de Moçambique" na Mostra de Cinema de São Paulo inaugural, em 1977, vêm-me à cabeça cenas da famosa sessão de estreia do filme no Brasil. Era plena ditadura, eu e Zé Celso Martinez Corrêa, os diretores do filme, estávamos exilados havia vários anos terminando o filme e não podíamos retornar. A nossa cópia 16 mm foi enviada clandestinamente da França para participar da Mostra a convite de seu diretor, Leon Cakoff.

A inesquecível e histórica projeção no Masp transcorreu sem o certificado de censura, mas com várias intervenções da plateia, que tomava totalmente os assentos e escadas. Durante a sessão, no escuro do cinema, houve amostras de tudo o que era proibido então: palavras de ordem contra a "dura", furores revolucionários –ritmados pelo receio de uma invasão ou de repressão oficial na sala do Masp.

Era a primeira vez na ditadura que se via e se ouvia uma revolução em língua portuguesa. A mensagem era clara: descolonização, libertação! Portugal, África, Brasil.

"25" foi a luz no fim do túnel. Como uma chave mágica, encetou a era da abertura política.

Sua chegada fez soprar um "vento" vindo das terras africanas, um respiro no sufoco dos anos de chumbo. Prenunciou a saída de cena dos militares, a volta dos exilados, o fim da censura e a democratização. No Rio, houve sessões também no MAM, com direito a várias intervenções da plateia.

O voto do público quase consagrou o filme como o melhor da primeira Mostra de São Paulo. O júri elegeu, praticamente empatado com "25", "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia", de Hector Babenco.

A recepção calorosa ao filme na Mostra forneceu a deixa para eu retornar da Europa e mostrar o trabalho Brasil afora.

No início de 1979, a convite do Festival de Gramado, o filme (ainda não liberado pela censura) foi mostrado numa sessão supertumultuada. O público e praticamente todos os cineastas brasileiros então presentes já estavam acomodados na sala quando apareceu um sujeito sombrio na cabine de projeção. O censor estava decidido a impedir a exibição.

Rapidamente desci da cabine e expliquei à plateia o que estava acontecendo. Indignado, o público decidiu pela exibição, mesmo sem autorização. O censor foi cercado pelos cineastas e, diante da confusão armada no saguão do festival, fugiu. A projeção teve então início.

Decorridos 20 minutos, a censura, com apoio de funcionários do hotel, fez nova investida. Conseguiu armar um blecaute no quadro elétrico geral, interrompendo a sessão. Seguiram-se brigas, tapas e bate-boca entre favoráveis e contrários ao prosseguimento. A direção do festival, temerosa de uma interdição, mas pressionada pelo público, decidiu restabelecer a energia, e a apresentação chegou a bom termo.

Na prática, tivemos que forçar a "abertura" em todas as cidades em que mostramos "25" e "O Parto", numa viagem que duraria dois anos e usaria toda e qualquer tela disponível, fosse em praças, ruas, teatros, auditórios, igrejas, ambulatórios ou até mesmo em boates.

Esse cinema mambembe e sempre improvisado partiu do Rio Grande do Sul, passou pelo Sudeste, espichou-se até o Nordeste e adentrou a Amazônia, percorrendo ao todo mais de 40 municípios que muitas vezes recebiam projeções de filmes pela primeira vez.

As peripécias da viagem estão reunidas no livro "Cinema Ambulante", que eu e Béatrice de Chavagnac publicamos pela editora Global em 1982.

Nota: "25" será exibido em SP, no Caixa Belas Artes, na mostra "África(s). Cinema e Revolução", que ocorre de 10 a 23/11.

CELSO LUCCAS, 64, diretor, fotógrafo e montador, conclui "O Condor e o Dragão", documentário sobre felicidade codirigido por Brasilia Mascarenhas e filmado no Butão e na Bolívia.
Fonte: Folhauol

No Dia da MPB, saiba mais sobre Chiquinha Gonzaga, pioneira da música nacional

Chiquinha Gonzaga – Acervo Edinha Diniz

Desde 2012, o Dia Nacional da Música Popular Brasileira tem dia fixo no calendário: 17 de outubro.

A data foi criada pela ex-presidente Dilma e foi escolhida por ser o aniversário de nascimento da primeira compositora popular brasileira: Chiquinha Gonzaga.
Chiquinha Gonzaga, a mulher ousada que sacudiu o Rio de Janeiro na segunda metade do século 19 com sua música, atendia pelo nome de Francisca Edwiges Neves Gonzaga. Nasceu em nasceu 1847 e é dela a música "Ó Abre Alas", que se tornou um hino do carnaval brasileiro. Era filha do rico militar José Basileu Neves Gonzaga e de Rosa Maria de Lima Gonzaga.

Suas músicas misturavam ritmos como o tango, o choro e a marcha e transitavam entre o erudito e o popular.

Sua passagem pela música nacional é também um marco na história das mulheres do país. Feminista, Chiquinha desafiou e transgrediu muitos costumes machistas na época em que viveu, e, ainda mais, é atualmente tida como uma das maiores compositoras e instrumentistas da música brasileira. Sua obra tem mais de 2000 composições.

Casou-se aos 13 anos com o oficial de marinha mercante Jacinto Ribeiro do Amaral, o qual nunca aceitou que sua esposa fosse a rodas boêmias, fato que tornou o casamento, imposto pelo pai de Chiquinha, rápido e cheio de brigas.
Aos 18 anos, Chiquinha deixou o marido e saiu de casa. Desfeito o casamento, ela se apaixonou por um engenheiro de estradas de ferro e os dois passaram a viver juntos, enquanto ele construía a estrada de ferro da Serra da Mantiqueira. 

Quando a construção acabou e eles voltaram ao Rio de Janeiro, o confronto com uma sociedade que os conhecia e os condenava fez a relação durar pouco tempo.
Sozinha, deu aulas de piano para sustentar os filhos. Conheceu então o flautista Antônio da Silva Calado, que a introduziu nas festas e rodas de chorões. Num desses encontros com os músicos boêmios do Rio, em 1877, ela compôs, de improviso, a polca "Atraente", seu primeiro grande sucesso.

Foi também nesse período que Chiquinha Gonzaga, desejando entrar no teatro, musicou o libreto de Artur Azevedo "Viagem ao Parnaso", o qual foi recusado por vários empresários de teatro por ter sido feito por uma autora, uma mulher. Mas isso não a fez desistir. Escreveu e musicou a peça em um ato "Festa de São João", em 1883.

Chiquinha participava ativamente do movimento pela libertação dos escravos. Vendia de porta em porta suas partituras a fim de angariar fundos para a Confederação Libertadora (organização antiescravista). Com o dinheiro que conseguiu ao vender a partitura de sua música "Caramuru", Chiquinha Gonzaga comprou, em 1888, a alforria do escravo e músico José Flauta, antecipando-se poucos meses à Lei Áurea. Foi também uma participante ativa da campanha pela proclamação da República.

Teve problemas com o governo, afrontou muitas "opiniões" maldosas que a sociedade tinha a seu respeito e foi considerada subversiva.

Tudo isso a custa de sua genialidade e de seu espírito libertário. Foi ela quem pela primeira vez promoveu concertos em teatros onde não era permitido a apresentação de instrumentos como o violão. Chiquinha foi uma das pessoas responsáveis pela nacionalização da música brasileira num tempo em que tudo vinha da Europa

Morreu aos 87 anos, numa quinta-feira véspera de Carnaval, em meio aos preparativos para o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Fonte: Folhauol

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

'Ifigênia' é obra emblemática do feminismo latino-americano

foto de Teresa de la Parra em 1920.( Foto: Biblioteca Nacional, Caracas-Venezuela) ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Foto: Biblioteca Nacional
 escritora Teresa de la Parra em 1920, quatro anos antes da publicação de 'Ifigênia'

"Ifigênia", de Teresa de la Parra –autora francesa, filha de venezuelanos– é um livro híbrido, composto de diferentes gêneros textuais, como a carta, o diário, o relato e a narrativa ficcional.

Publicado pela primeira vez em 1924, em Paris, recebeu o subtítulo "diário de uma jovem que escreveu porque estava entediada", numa nítida referência à condição da protagonista e narradora Maria Eugenia Alonso –venezuelana de família aristocrática, que, tendo vivido em Paris desde a infância, volta a Caracas doze anos depois.

Lá, confinada na grande e triste casa da avó, entre cheiros de jasmim e velas de cera, passa a lidar com uma realidade asfixiante, na qual o modelo de felicidade para as mulheres se resume ao matrimônio e à maternidade.

O romance, marcado pelo olhar irônico, e por vezes corrosivo, da narradora sobre o peso das convenções sociais e familiares do início do século 20, tornou-se não apenas um clássico da moderna literatura franco-venezuelana, como também uma obra emblemática do feminismo latino-americano.

E se, por suas ideias libertárias, causou controvérsias na Venezuela assim que foi publicado, não deixou também de ganhar uma surpreendente popularidade na França.

DIVISÕES

A primeira das quatro partes do livro apresenta-se na forma de uma longa carta escrita por Maria Eugenia a uma amiga, em que conta os detalhes de seu retorno a Caracas, desfia coisas vividas e lembradas, faz críticas incisivas à sociedade preconceituosa do tempo e revê acontecimentos históricos do país.

Já as partes que se seguem integram um diário peculiar que, para além do registro descritivo dos dias, salta para fora da moldura do cotidiano, de modo a extrair da experiência pessoal uma reflexão mais ampla sobre os embates de uma mulher com o seu próprio entorno.

Num jogo entre a primeira pessoa da narradora e os resumos em terceira pessoa que antecedem cada capítulo, o diário não se fecha conclusivamente na última parte, intitulada "Ifigênia"–nome mitológico associado à ideia de sacrifício e cujo significado é "poderosa desde o nascimento"–, mas deixa uma interrogação intrigante sobre os acontecimentos na vida da protagonista Maria Eugenia.

ENGENHOSA

O domínio da linguagem e dos artifícios narrativos é notável no livro, o que evidencia a engenhosidade de Teresa de la Parra, uma escritora que não tem medo de ousar.

Com destreza, ela maneja os limites entre verdade e mentira, realidade e ficção, presente e passado, sempre atenta aos detalhes e modulações do que é relatado ou descrito. Além disso, coloca-se na vanguarda política de seu tempo, ao condenar o que chama de "as nefastas influências" da colonização europeia, denunciar a dizimação dos índios e criticar os ranços do patriarcalismo latino-americano.

Em edição caprichada, "Ifigênia" conta com a tradução não menos primorosa de Tamara Sender, que também assina o posfácio. É um livro que vem preencher, em grande estilo, uma lacuna editorial no Brasil. E que, mesmo dos dias de hoje, permanece instigante e indispensável.

MARIA ESTHER MACIEL, professora de literatura comparada da UFMG, é autora de "Literatura e Animalidade" (Civilização Brasileira) 
Fonte: Folhauol

Queniano Ngugi wa Thiong'o lidera apostas para Nobel de Literatura

Divulgação/DivulgaçãoO escritor queninano Ngugi wa Thiong'o, que vem para a Flip 2015 Foto: Divulgacao ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
O escritor queninano Ngugi wa Thiong'o


É bom treinar esta pronúncia: gú-gue uá ti-uôn-go, com a língua entre os dentes no "ti". Aos 78 anos, o queniano Ngũgĩ wa Thiong'o pode ser o vencedor do Nobel de Literatura de 2016 —ao menos para os apostadores da Ladbrokes, a mais popular casa de apostas do Reino Unido.

Na terça (11), a menos de 48 horas do anúncio oficial da Academia Sueca, que ocorre na quinta (13), o autor do romance "Um Grão de Trigo" estava no topo das apostas, com 4/1 —o que significa que, caso ele ganhe o Nobel, quem apostou 1 libra em seu nome recebe 4 de lucro.

Com uma prosa pautada pelo embate entre a identidade de seu povo e a cultura imposta pela colonização britânica, o queniano é um dos nomes recorrentes nas listas de apostas —assim como o segundo mais bem cotado, o japonês Haruki Murakami, de 67 anos, autor de best-sellers como a trilogia "1Q84" e "Minha Querida Sputnik".

Conhecido pela agilidade na narrativa, Murakami liderava a especulação na Ladbrokes até uma semana atrás. Agora, seu nome paga 5/1.

O terceiro mais bem cotado é o sírio Adonis, um dos maiores nomes da poesia contemporânea. Seus escritos buscam um diálogo entre a tradição da literatura árabe e a modernidade da poética europeia. Apostas em seu nome pagam 6/1.

ROLAM OS DADOS

Apesar do frisson que a especulação causa no período anterior ao anúncio da Academia Sueca, Alex Donohue, porta-voz da Ladbrokes, afirma que, em comparação com outras áreas de aposta, é baixa a popularidade do Nobel.

"Recebemos cem vezes mais apostas só na partida entre Inglaterra e Malta do que no prêmio literário", disse na sexta (7), véspera do jogo entre as duas equipes pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia. Entretanto, ele não informa números exatos.

O valor médio das apostas, contudo, é maior no Nobel: 10 libras, contra 7 em futebol.

Brasileiros, porém, não podem fazer uma fezinha: jogos de azar são ilegais no país, e por isso sites como Ladbrokers não aceitam apostas daqui.

Além disso, o histórico de acertos em apostas é desfavorável. Donohue diz que os apostadores acertaram o vencedor quatro vezes em 11 anos —em 2008, com o francês J.M.G. Le Clézio; 2009, com a romena Herta Müller; 2011, com o sueco Tomas Tranströmer; e 2015, com a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch.

A bielorrussa, aliás, foi uma surpresa no ano passado. Até poucos dias antes do anúncio, ela não era cogitada na Ladbrokes —e nem em círculos de literatos. 

Parte da obra de Aleksiévitch foi editada no Brasil. "Negociamos poucos dias depois do anúncio", diz Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras.

Desde então, a escritora vendeu no país 11.000 exemplares de "Vozes de Tchernóbil" e outros 9.000 de "A Guerra Não Tem Rosto de Mulher".
RODOLFO VIANA
DE SÃO PAULO
Fonte: Folhauol

Mulheres Pretas

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