quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Mia Couto - O menino que escrevia versos


Mia Couto

De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)




— Ele escreve versos!

Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.

— Há antecedentes na família?

— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:

— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas  confissões de amor.


Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.

— São meus versos, sim.

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.

— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe  espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:

— Dói-te alguma coisa?

—Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:

— E o que fazes quando te assaltam essas dores?

— O que melhor sei fazer, excelência.

— E o que é?

— É sonhar.

Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:

— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.

— Não continuas a escrever?

— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.

— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.

— Não importa — respondeu o doutor.

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:

— Não pare, meu filho. Continue lendo...



Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955. Foi jornalista e atualmente é professor e biólogo. É sócio correspondente, eleito em 1998, da Academia Brasileira de Letras, sendo sexto ocupante da cadeira 5, que tem por patrono Dom Francisco de Sousa. Como biólogo, dirige a Avaliações de Impacto Ambiental, IMPACTO Lda., empresa que faz estudos de impacto ambiental, em Moçambique. Mia Couto tem realizado pesquisas em diversas áreas, concentrando-se na gestão de zonas costeiras. Além disso, é professor da cadeira de ecologia em diversos cursos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).


OBRAS PUBLICADAS:


Contos

- Vozes Anoitecidas (1986) - Grande Prêmio da Ficção Narrativa em 1990

- Cada Homem é uma Raça (1990)

- Estórias Abensonhadas (1994)

- Contos do Nascer da Terra (1997)

- Na Berma de Nenhuma Estrada (1999)

- O Fio das Missangas (2003)


Crônicas

- Cronicando (1988) - Prêmio Nacional de Jornalismo Areosa Pena (1989)

- O País do Queixa Andar (2003)

- Pensatempos. Textos de Opinião (2005)

- E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções (2009)


Romances

- Terra Sonâmbula (1992) - Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995. O júri da Feira Internacional do Zimbabwe o considera um dos doze melhores livros africanos do século XX.

 - A Varanda do Frangipani (1996)

- Mar Me Quer (1998)

- Vinte e Zinco (1999)

- O Último Voo do Flamingo (2000) - Prêmio Mário António de Ficção em 2001.

- O Gato e o Escuro, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (2001)

- Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002) - Rodado em filme pelo português José Carlos Oliveira.

- A Chuva Pasmada, com ilustrações de Danuta Wojciechowska (2004)

- O Outro Pé da Sereia (2006)

- O beijo da palavrinha, com ilustrações de Malangatana ( 2006)

- Venenos de Deus, Remédios do Diabo (2008)

- Jesusalém [no Brasil, Antes de nascer o mundo] (2009)


Prêmios

1995 - Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos

1999 - Prêmio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra

2001 - Prêmio Mário António, pelo livro O último voo do flamingo

2007 - Prêmio União Latina de Literaturas Românicas

2007 - Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura

2011 - Prêmio Eduardo Lourenço 2011


O texto acima foi extraído do livro “O fio das missangas”, Cia. das Letras, 2004, pág. 131. A editora optou por manter a grafia do português de Moçambique.

Fonte: http://releituras.com/miacouto_menino.asp

PRORROGADAS ATÉ O DIA 10 DE AGOSTO AS INSCRIÇÕES DE PROPOSTAS DE COMUNICAÇÃO PARA O COPENE-CO

Realizado pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab/UnB) e pelo Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas Públicas, História, Educação das Relações Raciais e de Gênero (Geppherg) da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), em parceria com o Instituto Federal de Brasília (IFB), e com o apoio da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN) o II Congresso de Pesquisadores/as Negros/as da Região Centro-Oeste (II COPENE-CO) que ocorrerá em Brasília, no período de 04 a 08 de novembro de 2015, prorrogou suas inscrições para propostas de comunicação até 10 de agosto de 2015.
São 12 Grupos de trabalho divididos nas mais diversas áreas e temáticas de interesse da população negra.
O evento tem como tema “Diálogos e perspectivas sobre a questão racial no Brasil”, cujo objetivo é promover discussões sobre os processos de produção e difusão de conhecimentos ligados às lutas históricas empreendidas pelas populações negras nas mais diversas esferas institucionais e áreas do conhecimento.
acesse aqui   http://sernegraifb.wix.com/sernegra#!grupos-de-trabalho/ckqq a chamada  para apresentação de trabalhos e confira as normas e prazos para inscrição no IV SERNEGRA e II COPENE-CO.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Há 114 anos, nascia Louis Armstrong, dono da voz que transformou o jazz


youtube

Por Pedro Antunes

Ele sonhou com um mundo melhor. E o fez, com aquele gogó dourado, capaz de trazer aspereza ao jazz, gênero que só existe da forma que o conhecemos hoje porque, no primeiro ano do século 20, em um 4 de agosto, nascia Louis Armstrong.
A data de nascimento de Armstrong, aliás, só foi confirmada pelo historiador musical Tad Jones já nos anos 1980. Neto de escravos negros, o futuro músico nasceu em um berço pobre de Nova Orleans, no estado norte-americano da Louisiana.
A vida nunca lhe foi gentil - tratava-se de um rapaz afrodescendente em uma sociedade sulista e preconceituosa, que só aboliu a escravidão quatro décadas antes. Foi abandonado pelos pais e criado pela avó e pelo tio. Armstrong, contudo, lutou como nunca.
Cantou nas ruas e só foi capaz de comprar o primeiro trompete ainda jovem, antes dos 15 anos. Apoiado por uma família judia e caucasiana, os Karnofskys, Armstrong cresceu. Entendeu, inclusive, a discriminação em duas frentes diferentes - como descendente de escravos e presenciou o preconceito contra os judeus.
Armstrong brigou, lutou contra a discriminação da forma que sabia. Não era tão dado a explicitar opiniões políticas, embora tenha se pronunciado, por exemplo, contra o caso de segregação racial na escola Little Rock Central High School, em 1957.
O músico, que morreu em 1971, aos 69 anos, deixou sua marca ao romper a barreira racial em um período conturbado da história recente norte-americana. E o fez com um talento incomum. Incomparável, até. Situa-se hoje no olimpo do jazz, ao lado do contemporâneo Duke Ellington e de nomes que vieram depois, como Miles Davies e Charlie Parker.
Na voz, com uma técnica incomparável de scat (técnica de improvisação com o uso da voz) e no trompete, Armstrong fez história. Gravou "What a Wonderful World", canção criada por Bob Thiele e George David Weiss, de forma magistral.
A música havia sido oferecida a Tony Bennett, que rejeitou a oferta. Melhor para Armstrong - e para o mundo, já que sua versão é definitiva. Cantou como poucos por esse "mundo maravilhoso", como se as palavras fossem suas. Era a sua mensagem, por mais que não tivesse cunhado aqueles versos.
114 anos depois do nascimento do músico, a visão soa utópica. Ainda. Se, neste 4 de agosto, contudo, cada um de nós fizer um mínimo, dizer um "eu te amo", como Armstrong cantava, o mundo definitivamente seria melhor - quer homenagem melhor do que essa?

fonte: br.noticias.yahoo.com

Poesia cabo-verdiana - Corsino Fortes


CORSINO FORTES


 Corsino António Fortes (São Vicente, 1933-2015) é um escritor e político 

cabo-verdiano. É licenciado em Direito, pela Universidade de Lisboa (1966). Integrou vários governos na república de Cabo Verde, país de que foi Embaixador em Portugal. Presidiu à Associação dos Escritores de Cabo Verde (2003/06). Autor de obras como Pão e Fonema (1974) ouÁrvore e Tambor (1986), a sua obra expressa uma nova consciência da realidade cabo-verdiana e uma nova leitura da tradição cultural daquele arquipélago.


Não há fonte que não beba da fronte deste homem 
                       I 
Nas rugas deste homem
Circulam
estradas de todos os pés que emigram
Quebram-se
vivas! as ondas de todas pátrias
Anulam-se
de perfil! as chinas de todas muralhas

Na mão bíblica
No humor bíblico deste homem
crepitam de joelhos
Desertos & catedrais
Onde
deus & demónio
jogam
                   noite e dia
             a sua última cartada
E do pó da ilha à mó de pedra
Não há relâmpago
Que não morda a nudez deste homem
Nudez de liberta!
Que a dor germina
E o espaço exulta
E pela ogiva
ogiva do olho
Não há poente
Que não seja
Uma oração de sapiência

Sobre a face deste homem
o povo ergueu a praça pública
E os tambores transportam
o rosto deste homem
Até à boca das ribeiras
E ao redor
os vulcões respeitam
o silêncio deste homem

                       I I

Não há chuva
Que não lamba o osso de tal homem
À porta da ilha
Diz o sal de toda a saliva
O sol ondula oceanos no sangue deste homem

Oh cereal altivo! vertical & probo
Ainda ontem
antes do meio-dia
O vento punha velas na viola deste homem
Hoje!
A viola
De tal dor é sumarenta
E projecta
sobre as almas
a seiva
De uma árvore imensa
Oh oceanos! que ladram à boca das tabernas
Se o sangue deste homem
é tambor no coração da ilha
O coração deste homem
é corda no violão do mundo
E os joelhos
rodas que vão! hélices que sobem
com ilhas no interior

                       I I I

Sombras sobre a colina Rosto sobre o povoado
Quando
pastor & gado jogam à cabra-cega
E chifres de sol
       projectam
cidadelas no ocidente
O poente galopa a maré-alta
       E ergue
"À taça da noite
Sobre as têmporas deste homem"

Oh noite verde! oh noite violada
Que a noite não apague
A memória das cicatrizes
E cicatrizes de ontem
       Sejam
Sementes de hoje
Para sementeira E floresta de amanhã

Fonte: http://www.antoniomiranda.com.br/

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Escritora Noemi Jaffe mostra por que 'Macunaíma' é 'intraduzível'


Editoria de arte/Revista sãopaulo

POR NOEMI JAFFE

Há algumas semanas, como que do nada, recebi uma carta do Japão. O remetente, de quem nunca tinha ouvido falar, é um professor de japonês em uma universidade japonesa. Ele me conta que, nos anos 70, estudou língua portuguesa no Rio de Janeiro e que, na época, deparou com "Macunaíma", livro que "entendeu completamente" e pelo qual se apaixonou.

Traduziu três capítulos para o japonês, mas a editora de então não teria aprovado sua tradução. "Deixei", ele conta. Hoje, depois de quase 40 anos, ele está retomando a tradução, praticamente terminada, mas resta uma única dúvida e ele, depois de pesquisar meu email e não encontrar, resolve escrever para a PUC, onde já trabalhei. Sua dúvida se expressa assim: "O que é que é feixo?"

Depois de ler todo o "Macunaíma" e traduzi-lo inteiro para o japonês, o professor me pergunta -e juro que não estou inventando- "o que é que é feixo?"
Ele não sabe, mas raras vezes -depois de muitos anos ensinando e estudando literatura brasileira- li algo tão macunaímico, e Mário de Andrade, se tivesse lido esta pergunta, teria dado pulos de um entusiasmo profético e sairia para escrever mais um capítulo dessa rapsódia que não tem fim.

"Macunaíma" foi escrito em Araraquara, no sítio de um parente de Mário de Andrade, no ano de 1926. O nome do personagem é baseado em um livro escrito pelo antropólogo alemão Koch-Grünberg (1872-1924), que viajou por toda a Amazônia, onde deu com essa alcunha, que significaria "o grande mau".
Mário de Andrade, mesclando folclore, brasileiro e europeu, a vida pessoal, a antropologia, a história antiga e recente do país, a geografia nacional, as línguas popular e erudita, ditados, provérbios e suas leituras da sociologia brasileira da época criou não um grande, mas talvez um pequeno malvado brasileiro.

Macunaíma é, até hoje, um "sem caráter" que representa nossa forma de sermos um e sermos outro, de estarmos aqui e lá ao mesmo tempo, agora e então.Como muitos outros personagens da história da literatura que acabam por transcender seus criadores, penso que o mesmo se passa nesse caso particular.

Pois se Mário quis criar, com Macunaíma, uma crítica à mutabilidade interesseira do brasileiro, seu protagonista se transforma, à sua revelia, em algo diferente disso. Um negro, branco e índio, com cabeça de criança, ingênuo e esperto, solidário e egoísta, amoroso e mimado. Um Grande Otelo que, mais tarde, o próprio encarnou como ninguém.

A teoria literária, com Gilda de Mello e Souza e Haroldo de Campos e vários outros, também se perguntou "o que é que é Macunaíma?", com a primeira vendo nele a derrota do brasileiro do interior que migra para a cidade e o último reconhecendo, no personagem, a vitória da palavra narrada, numa disputa argumentativa em que ambos, feliz e infelizmente, têm razão.

E o professor japonês, com sua formulação charadística, não sabe, mas deve ter sido cutucado pelo próprio Macunaíma que, a essa hora, está lá no Japão, longe daqui e no futuro de Mário, rindo muito por ter impedido o professor de traduzir a rapsódia com perfeição.

A propósito: não sei o que é que é feixo. 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/

Quadro de Picasso avaliado em R$ 95 milhões é confiscado na França

O serviço de alfândega francês confiscou na sexta-feira (31), em um barco na ilha de Córsega, um quadro de Pablo Picasso declarado "inexportável" pelas autoridades espanholas. A tela pertence ao banqueiro Jaime Botín e é avaliada em mais de 25 milhões de euros (cerca de R$ 95 milhões).

Os funcionários franceses receberam na quinta-feira (30), no posto alfandegário de Bastia (norte da Córsega), um pedido de "exportação à Suíça" do quadro do Picasso, "Cabeça de Mulher Jovem", propriedade de Botín. No dia seguinte, os oficiais de Calvi (noroeste da ilha mediterrânea) "compareceram a bordo de um barco que transportava a obra, atracado em um porto de esportes" da cidade e cobraram "os documentos relativos à situação do quadro", segundo comunicou a alfândega francesa.

Imagem divulgada pela alfândega francesa do quadro 'Cabeça de Uma Mulher Jovem', de Pablo Picasso
Imagem divulgada pela alfândega francesa do quadro 'Cabeça de Uma Mulher Jovem', de Pablo Picasso

O capitão do barco só conseguiu apresentar um documento de avaliação da obra e um documento redigido em espanhol, de maio de 2015, da Justiça espanhola, que confirmava se tratar de um tesouro nacional que "em hipótese alguma" poderia sair da Espanha.

O dono do quadro, Jaime Botín, é irmão de Emilio Botín, que presidiu o banco Santander desde 1986 até a sua morte, em setembro de 2014.

Jaime, 79 anos, foi vice-presidente do Santander entre 1999 e 2015 e atualmente é o acionista majoritário do Bankinter. O banqueiro não estava a bordo do barco, de procedência britânica e propriedade de uma sociedade da qual Botín é acionista, informou à AFP um porta-voz da alfândega.

Essa mesma fonte indicou que o pedido de exportação registrado em Bastia não levava o nome de Jaime Botín.

Em dezembro de 2012, a filial espanhola da casa de leilões Christie's apresentou na Espanha um pedido para exportar o quadro a Londres e colocá-lo à venda, mas o Ministério da Cultura espanhol declarou a tela "inexportável, já que era uma das poucas obras de Picasso em uma etapa histórica", afirmou nesta terça (4) um porta-voz da pasta.

A obra pertence ao período do pintor malaguenho, quando ele tinha 24 anos e vivia no povoado de Gósol, no noroeste da Catalunha, onde pintou uma centena de quadros no verão de 1906. Foi uma época decisiva para o posterior desenvolvimento do cubismo.

"Não existe obra semelhante na Espanha, o que justifica que ela não possa ser exportada", afirmo ainda o ministério. Os advogados de Botín recorreram da decisão judicial, alegando que o quadro não era de sua propriedade, mas de uma empresa da qual ele era acionista. Além disso, afirmaram que a tela não estava em território espanhol, pois foi encontrada em um barco de origem britânica no porto de Valencia (leste da Espanha).

No entanto, em 2015 a Justiça confirmou  que a obra não poderia deixar o país por ser "um bem de interesse cultural" e que o fato de ela ser encontrada em um barco em um porto espanhol habilita as autoridades espanholas a decidir o melhor destino da tela.

"O grupo de patrimônio histórico da Guarda Civil está investigando o tema há algum tempo", disse uma fonte do órgão espanhol, sem dar, porém, maiores detalhes. Baseando-se na decisão judicial espanhola, a saída do quadro da Espanha poderia ser considerada um indício de tráfico ilícito de bens culturais. As autoridades francesas esperam agora uma eventual reclamação da Espanha para recuperar a obra.

Fonte: Folhauol

domingo, 2 de agosto de 2015

Corsino Fortes, morreu um dos maiores poetas de Cabo Verde

Corsino Fortes, poeta cabo-verdiano

Corsino Fortes, poeta cabo-verdiano
www.facebook.com/pages/ACL-Academia-Caboverdiana-Letras

"Corsino António Fortes deixa um silêncio, uma lacuna insanável no seio da nação", são as palavras que se podem ler no comunicado da Academia Cabo-verdiana de Letras, a propósito da morte do seu presidente.

O poeta cabo-verdiano Corsino Fortes faleceu,  sexta-feira 24 de julho, em São Vicente, vítima de doença prolongada. O Estado decretou dois dias de luto nacional. Corsino Fortes era considerado, em Cabo Verde, como um dos mais importantes nomes das letras e da política.

Foi poeta, diplomata, empresário, político, ministro, presidente da Assembleia Geral da Fundação Amílcar Cabral, criador da televisão experimental de Cabo Verde, presidente da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, entre outros.
Nasceu a 14 de Fevereiro de 1933, no Mindelo, na ilha de São Vicente. 

Licenciou-se em Direito pala Universidade de Lisboa, em 1966, e foi o primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal após a independência, 5 de Julho de 1975.

"Pão e Fonema", foi a sua primeira obra e foi com este livro que se estabeleceu uma das vozes mais válidas da poesia cabo-verdiana.
A Academia Cabo-Verdiana das Letras, qualifica-o de "maior poeta épico de Cabo Verde" pela sua obra do género, composta pela trilogia "Pão e Fonema", "Arvore e Tambor" e "Pedras de Sol e Substância", reunida em 2001 no volume "A cabeça calva de Deus".

O óbito de Corsino Fortes ocorre a menos de dois dias do lançamento do seu último livro : "Sinos de Silêncio - Canções e Haikais". Cerimónia onde já não marcou presença.

Corsino Fortes viu o seu estado de saúde agravar-se depois do início de Junho. Altura em que venceu o Grande Prêmio Literário Vida e Obra, atribuído pela Academia Cabo-Verdiana de Letras para assinalar o 40.º aniversário da independência de Cabo Verde.

Fonte: http://www.portugues.rfi.fr/cabo-verde/20150724-corsino-fortes-um-dos-maiores-poetas-cabo-verde

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...