domingo, 29 de novembro de 2015

Queridinha do público e autêntica, a previsão é de sol para Maju Coutinho

Maju Coutinho - sem tempo ruim - símbolo da nova informalidade do telejornalismo na tv aberta, a ex-professora Maju Coutinho conquistou espaço exercendo o que não parecia permitido a uma estrela televisiva: ser ela mesma#serafina92
Foto: Cassia Tabatini

Saudar o sol faz parte da rotina de Maria Júlia Coutinho, 37, e não é hábito adquirido depois que ela passou a entrar na casa de milhões de brasileiros informando a previsão do tempo. 

Há dez anos a jornalista não passa um dia sem exercitar a série de posturas da ioga, prática que adotou quando ainda era estudante de pedagogia na USP.
Sim, a moça do tempo do "Jornal Nacional" (Globo), o telejornal de maior audiência do país, já quis ser professora. E chegou a lecionar por dois anos, para crianças, em uma escola municipal de São Bernardo do Campo.

"Cursei magistério e me decidi pela pedagogia. Mas, antes do vestibular, fiz um teste vocacional e deu jornalismo. Prestei as duas opções e passei", lembra Maria Júlia. O resultado do teste não foi uma surpresa para quem, na infância, brincava de apresentadora do "JN".

De família de classe média baixa paulistana, sua escolha se deu primeiro pelo bolso: trancou a faculdade privada de jornalismo (Cásper Líbero) e optou pela gratuita, de pedagogia, e a carreira recém-iniciada no magistério. "Só pensei em garantir o salário."

No ano seguinte, conciliou as duas graduações e se "descobriu" no jornalismo. Pediu exoneração do trabalho e largou a pedagogia. "Não tinha traquejo, jogo de cintura em sala de aula. Mas a experiência me ensinou a ser didática."

Maria Júlia viveu com os pais até o último ano da faculdade em uma casa que eles construíram na Vila Matilde, zona leste paulistana. Hoje, mora com o marido, o publicitário Agostinho Moura, no Campo Belo, zona sul da cidade.

Professores da rede pública, seus pais se sacrificaram, nas suas palavras, para que ela e o irmão mais velho tivessem um aprendizado de qualidade em escolas pagas. "Meus pais sempre falaram: 'Podem te tirar todos seus bens, mas o conhecimento não se tira'."

Sua avó materna, empregada doméstica, também se dedicou muito para que a mãe de Maju estudasse. "Ela viu que o caminho para a filha avançar era a educação", diz, com a voz embargada. "Me ensinou a lutar por meus direitos."
Embora de família católica praticante, Maju estudou o antigo primeiro grau na Escola Brasileira Islâmica, na Vila Carrão. "Minha mãe sempre passava por lá. Um dia entrou, conheceu e sentiu que seríamos felizes ali. E ela tinha razão."

No colégio, conviveu com o diferente, sendo ela mesma uma criança que destoava das demais. "Havia mais um ou outro negro lá", recorda. "Tinha amiga prometida para casar, menina de véu. E no Ramadã a gente folgava."

MARIA E MAJU

Maria Júlia foi batizada assim em homenagem a uma tataravó materna, que todos diziam ser doce e determinada.

Foi no magistério no Anglo Latino, onde ganhou bolsa de estudo, que Maria, como até hoje seus pais a chamam, virou Maju. Na TV, Chico Pinheiro foi quem primeiro a tratou pela alcunha, no "Bom Dia Brasil". "Reclamaram que era muito informal, e ele falou: se ela não pode ser Maju, tenho que ser Francisco", lembra a jornalista.

Quando Maria Júlia estreou no "Jornal Nacional", em abril, houve muitos pedidos, via redes sociais, para o âncora e editor William Bonner —que ela ainda não conhece pessoalmente— a usar o apelido. Concessão feita, Maju se tornava nome conhecido pelo país, e o "JN" passava a ficar menos carrancudo.

Sua chegada ao jornal foi parte essencial desse processo de informalidade, com a meteorologia ganhando linguagem mais coloquial.

A previsão do tempo entrou na vida profissional de Maju em 2013, quando ela voltava das férias e recebeu o convite para ir para o estúdio dos telejornais da Globo em SP. Nos seis anos anteriores, havia trabalhado como repórter.

A vaga no maior canal do país foi conquistada com o clássico e-mail "segue meu currículo", recebido por uma editora indicada por um amigo.

Na época, Maju trabalhava havia quatro anos na TV Cultura, onde foi repórter e chegou a apresentar algumas vezes o "Jornal da Cultura".

Há dois anos como "garota do tempo", com reuniões diárias com meteorologistas, Maria Júlia acha que conseguiu diminuir o preconceito em relação à sua função. "Nos EUA e em outros países é uma editoria valorizada, você aborda turismo, agricultura etc. Aqui, acham que é só se maquiar e falar a temperatura. É um trabalho de reportagem", diz.

Por ora, ela não pretende trocar o jornalismo pelo entretenimento. Neste ano, especulou-se que Maju poderia apresentar um telejornal ou entrar para o "Fantástico". "Nunca recebi nenhuma proposta, mas estou aberta a novos desafios."
Nesta semana, ela participa da Conferência do Clima de Paris (COP-21), a convite da ONU e da Organização Mundial de Meteorologia. A jornalista acompanhará alguns debates.

SEM CHAPA

"Nossa, é outra pessoa. Não sou eu", ria Maria Júlia, ao ver no computador as imagens feitas para Serafina, na manhã de um sábado de novembro.

Em seu primeiro ensaio de moda, causou-lhe estranhamento, além das roupas estampadas e de grifes estrangeiras, o cabelo, naturalmente encaracolado e sempre solto, preso em um coque.

Orgulhosa das madeixas crespas, Maju confessa ter caído na tentação da chapinha na adolescência por dificuldade de aceitar o cabelo, alvo de piadas na escola. "Meus pais trabalharam muito essa questão, diziam que não tinha nada de errado comigo."

Os fios deixaram ser retos quando ela se deparou com uma modelo cheia de trancinhas na capa da revista "Raça" e resolveu adotar o visual.

Em julho, Maju voltou a ouvir que seu cabelo servia "para limpar panela" numa série de ataques racistas postados no Facebook do "Jornal Nacional". A ação ganhou investigação do Ministério Público de SP, que segue no trabalho de identificação dos autores das injúrias.

Se pudesse escolher a punição para essas pessoas, Maju as faria trabalhar por um dia em instituições de combate ao racismo. "Para elas ouvirem relatos de quem sofre preconceito. A coisa mais educativa é conviver com o diferente." As agressões virtuais não a incomodaram tanto quanto a repercussão do ocorrido. "Enche o saco falar sempre desse assunto."

O mesmo desconforto foi relatado a ela pela atriz Taís Araújo, outra vítima recente de ataques racistas na internet. As duas saíram para jantar no dia do ensaio para a Serafina, após Maju assistir à performance de Taís e Lázaro Ramos na peça "O Topo da Montanha".

"A Taís disse que teve o mesmo sentimento que eu. Aquilo lá, sinceramente, não foi algo que me tocou, porque desde que você se entende por negro aqui, sabe que tem preconceito, ouve na escola", afirma. "Apesar de achar um absurdo, não pega mais na alma de quem já leva há tanto tempo essas porradas."

As ofensas proferidas contra a jornalista geraram uma forte campanha de apoio nas redes sociais, com o nome e a hashtag #SomosTodosMaju.

Houve quem criticasse a mobilização, caso do rapper Parteum, que fez um texto lembrando outros casos de racismo, ocorridos com pessoas pobres e não famosas, que não ganharam repercussão. Ele terminava dizendo "Vocês não são todos Maju".

Ela não concorda com essa percepção. "É claro que sei que eu e a menina da periferia devemos ter o mesmo tratamento. Mas quando uma pessoa pública é alvo de ataques, isso serve de mobilização. A família de uma vítima de preconceito pode falar: 'Não é só com você'. A menina da periferia vai ver que tem direito tanto quanto eu, a Taís..."

Para a jornalista, os negros no Brasil precisam cada vez mais tornarem-se visíveis para combater o racismo. "À medida que a gente não é mais invisível, que não faça só papéis de empregada [na dramaturgia], que faça a diferença em diversas áreas, as pessoas vão se acostumando", afirma.

Nessa lógica da visibilidade, a televisão, diz, precisa ter maior presença negra. "Ainda há muitos como câmeras, faxineiras. Precisamos ampliar essa participação", diz a jornalista, que não é integrante de movimentos raciais.

"Ser ativista é algo sério, exige dedicação", fala. "Acho que já levanto bandeira porque estou no ar no 'JN'. Estou lá numa posição que não é servindo cafezinho, de igual para igual."
LÍGIA MESQUITA
Fonte: Serafina/folhauol

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Criança aprende com os pais a ter atitudes racistas, diz escritora

Entre as árvores e bichos africanos, vivem seres fantásticos: um crocodilo terrível e violento que assusta bichos e homens, uma deusa das águas que é pescada por um ribeirinho, um macaco que vai à Lua e encontra um tambor por lá...
Histórias e mitos da África foram reunidos no novo livro da escritora Silvana Salerno, 63, "África - Contos do Rio, da Selva e da Savana". Tudo começou em 1975, quando a autora se formou em jornalismo e partiu para uma jornada por diversos países do continente, onde teve contato com a rica cultura oral.
Na obra, a literatura divide espaço com o jornalismo, principalmente na forma de um glossário no final, que explica paisagens, povos e animais que aparecem nas histórias –todas de regiões de onde vieram os africanos enviados ao Brasil como escravos.
Leia entrevista com a autora abaixo.

Fernando Nuno/Divulgação
Retrato da escritora Silvana Salerno, que lança livro com contos africanos
Retrato da escritora Silvana Salerno, que lança livro com contos africanos

Como foi sua viagem à África?
Silvana Salerno - A primeira foi em 1975. Tinha acabado de me formar em jornalismo na USP e fui só com uma passagem de ida para Dacar [capital do Senegal]. De lá, fomos para a Gâmbia e para o Marrocos, sempre participando da vida das pessoas, indo à casa delas, comendo junto.
Todos adoravam saber que éramos brasileiros. Eram os anos 1970, a seleção brasileira estava no auge. Todo mundo conhecia o Pelé.
O que foi mais marcante?
A comida. Lembro que na casa dos mais pobre, na dos mais ricos ou mesmo nos restaurantes, todos comiam com as mãos. Era muito interessante. As refeições vinham em grandes bacias coletivas, como se fossem grandes travessas. Depois, no Senegal, me impressionei com a semelhança com as comunidades indígenas do Brasil. As mulheres trabalhando no campo, os homens caçando e pescando.
Foi quando teve contato com as histórias do livro?
Com algumas, como a do tambor africano. Depois voltei mais quatro vezes. Quando decidi fazer o livro e reunir as histórias, fui a Paris. Lá visitei bibliotecas e livrarias especializadas em obras africanas, onde coletei muitos contos. Voltei ao Brasil com 35 livros na bagagem. Meu luxo sempre foi viajar. Em vez de reformar a casa ou comprar coisas, ia conhecer novos lugares.
O que as histórias do livro têm em comum?
São textos que trazem uma mensagem, mas sem serem didáticos. Eles não têm adjetivos, não são como muitos contos da literatura infantil inglesa, por exemplo, cuja principal função é fazer a criança escovar os dentes ou não ter medo do escuro. Sou totalmente contra isso.
Não é papel da literatura ensinar?
Literatura é ficção. Ela ensina sem dizer que ensina. Literatura não é livro didático. Ela sempre deixa uma mensagem, mas sem dizer. É assim com Tolstói, Machado de Assis e os grandes escritores. É assim com esses contos africanos também. Eles não são didáticos, não trazem um fundo de moral.
A África que você imaginava antes de conhecer o continente era muito diferente da que encontrou ao desembarcar no Senegal?
Foi meu aniversário de 23 anos em Dacar. Não foi um choque, até porque eu não imaginava nada. Fomos com uma mochila só, com roupas, um casaco de lã, um chinelo. A vontade era mais a de sair do Brasil por um período, porque a gente vivia em uma ditadura.
O maior choque foi ver que os povos da África negra, que vieram para o Brasil na época da escravidão, tinham quase todos se transformado em muçulmanos. Aquela cultura dos iorubás, por exemplo, era raro de encontrar. A população tinha trocado as tradições para rezar para Meca. Mas era uma época em que todas essas questões relacionadas ao terrorismo ainda não existiam.
Conhecer a cultura africana era exceção nos anos 1970? Hoje as pessoas conhecem mais sobre o continente?
Quando fizemos a primeira viagem, lemos muito sobre a África e estudamos suas culturas. Tínhamos ido para a Bahia para ver de perto algumas coisas. Hoje o conhecimento aumentou muito, está mais acessível. Mas a mesma internet que possibilitou isso entrega um conteúdo ainda muito básico. É tudo muito raso.
Mas há mais livros disponíveis sobre a África, não?
Certamente, há muito mais filmes e livros. Nos anos 1970, ainda convivíamos com a censura, com a guerra de Angola. Era difícil conhecer autores e receber notícias de lá. Hoje escritores africanos vêm a todo momento ao Brasil, há um intercâmbio maior. É só ver o Mia Couto, por exemplo, que sempre participa de eventos no país.
O mesmo raciocínio se aplica à produção de livros para crianças? A lei 10.639, que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira, impulsionou a publicação de livros infantis sobre esses temas?
É difícil que as escolas abram espaço para a África. O MEC [Ministério da Educação] quer que as escolas estudem o tema, mas muitas têm a grade horária cheia e não conseguem ter espaço para isso.
O que não pode acontecer é substituir o ensino da história ocidental pelo ensino da história africana, por exemplo. Uma cultura não invalida a outra. O pensamento ocidental europeu é a base do nosso pensamento. Se você subtrai isso, você entende menos sobre o mundo. A ideia é sempre somar, nunca subtrair.
Existe racismo no Brasil?
Existe, mas a gente não dá conta. Até a década de 1960, havia muitos professores e profissionais de classe média negros ou mulatos. A integração social era maior. Só que alguma coisa aconteceu, e os negros foram excluídos economica e socialmente. Eles saíram dos empregos que ocupavam, saíram até das escolas. Isso fez com que o racismo aumentasse. O negro tem raiva por ser excluído; o branco não convive com o diferente. Isso gera uma situação de conflito.
Isso é replicado na infância?
A criança é como um mata-borrão. Ela é moldada de acordo com o comportamento da casa, dos pais. A criança aprende vendo. Não adianta pedir que ela coma alimentos saudáveis, mas só comer porcaria em casa. Não adianta pedir para ela ser respeitosa, mas ter atitudes discriminatórias.
E qual é o papel da literatura nisso?
É trazer conhecimento e arte. Com mais conhecimento, você se torna mais aberto, fica mais tolerante, aceita melhor as diferenças. Mas não precisa ser didático para fazer isso.
*
Divulgação
"ÁFRICA - CONTOS DO RIO, DA SELVA E DA SAVANA"
AUTORA Silvana Salerno
EDITORA Girassol
PREÇO R$ 59,90
INDICAÇÃO a partir de 8 anos
LANÇAMENTO neste sábado (28), a partir das 15h, na Livraria da Vila (r. Fradique Coutinho, 915, São Paulo) 
Fonte: Folhauol

Recluso há anos, Raduan Nassar ganha traduções para o inglês em aniversário

Não vai ter bolo nem vela. Quem ligar para Raduan Nassar nesta sexta (27), dia em que completa 80 anos, também não vai conseguir falar com ele, porque o telefone do escritor está desligado. No seu aniversário, Raduan vai fazer o mesmo que tem feito há mais de 30 anos: ficar em silêncio.

"Eu tenho muitos defeitos de personalidade, menos um, pelo menos eu acho: não sou cabotino", ri o escritor ao telefone, para justificar seu desejo de não dar entrevistas. "Costumo desligar o telefone nesse dia."

Raduan afirma se sentir "constrangido" com esse negócio de homenagem. Por isso, o autor de "Lavoura Arcaica" (1975) e "Um Copo de Cólera" (1978) tampouco apareceu no colóquio que a USP promoveu na segunda (23) e na terça (24) para celebrar a data –apesar da insistência dos organizadores.

Jorge Araújo/Folhapress
ORG XMIT: 431601_0.tif SÃO PAULO, SP, BRASIL, 17-03-1989: Literatura: o escritor Raduan Nassar, autor do livro "Lavoura Arcaica", posa para foto. (Foto: Jorge Araújo/Folhapress - Negativo: SP 01919-1989)
O escritor em foto de 1989


Não houvesse Raduan abandonado a literatura nos anos 1980 e virado fazendeiro –e em seguida doado sua fazenda à Universidade Federal de São Carlos–, ele teria motivos de sobra para comemorar: em 7 de janeiro de 2016, sua obra chega pela primeira vez ao público de língua inglesa.

É quando a Penguin do Reino Unido lança, ao mesmo tempo, as traduções de "Lavoura...", por Karen Sotelino, e "Um copo...", por Stefan Tobler –ambos pela prestigiosa coleção Penguin Contemporary Classics.

"Ele tentou boicotar de toda forma as edições. Reclamava da capa, do contrato...", ri Luiz Schwarcz, diretor do grupo Companhia das Letras. "Ainda dizia: 'Quando sair eu não vou estar mais nem aqui.' E eu respondia: 'Então por que você está se preocupando?"

Também em janeiro, sai a primeira tradução em espanhol de "Um Copo de Cólera", feita por Juan Pablo Villalobos para a mexicana Sexto Piso. Villalobos trabalha ainda numa nova tradução de "Lavoura" para o idioma, a sair em 2017. 
A última é de 1982.

As traduções são a novidade. Mas a notícia que os leitores queriam ouvir –que Raduan tem inéditos na gaveta–não pode ser confirmada.

"Eu alimentei essa fantasia por anos. Hoje acho que, se o Raduan escreveu, ele destruiu [os textos]", diz Schwarcz.

Ao leitor, o recado de Raduan é o mesmo do narrador do conto "O Ventre Seco" (1970): "Já cheguei a um acordo perfeito com o mundo: em troca de seu barulho, dou-lhe meu silêncio".

SEM ESTUDO CRÍTICO

Mesmo conhecido como um clássico contemporâneo do Brasil, Raduan Nassar chega aos 80 anos sem que nenhum dos grandes nomes da crítica literária brasileira –Antônio Cândido, Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Davi Arrigucci Jr., entre outros – tenha escrito algo de fôlego sobre sua obra.

Alfredo Bosi, outro dos grandes, cita o autor de passagem em "História Concisa da Literatura Brasileira". O principal texto de referência sobre Raduan é "Da Cólera ao Silêncio", publicado por Leyla Perrone-Moisés na edição em homenagem ao escritor dos "Cadernos de Literatura Brasileira" (Instituto Moreira Salles).

"No meu caso foi um desencontro ocasional, eu estava metido em outras coisas. Ainda vou escrever", promete Davi Arrigucci Jr, amigo de Raduan. "Não foi falta de interesse. Muitas vezes cobrei dele livros novos. Mas hoje lhe dou razão [em ter se recolhido]."

Já Silviano Santiago diz que sempre escreveu a pedido. "Isso é uma coisa delicada na minha carreira, sempre tratei a crítica como encomenda e nunca me pediram uma análise sobre ele", diz o crítico.

"É uma obra de inegável qualidade. Mas tem essa coisa delicada. O recolhimento [do autor] meio cedo talvez seja embaraçoso para a crítica."

Na academia, a impressão de quem trabalha a obra nassariana é a mesma: os livros do escritor são pouco estudados. Ainda assim, o colóquio da USP no começo da semana aponta o surgimento de novos estudos críticos.

Moacyr Lopes Jr./Folhapress
SÃO PAULO, SP, BRASIL, 17-05-2015: O escritor Raduan Nassar, autor de "Um Copo de Cólera", que será transformado em filme, durante entrevista em sua casa, no bairro de Perdizes, em São Paulo (SP). (Foto: Moacyr Lopes Jr./Folhapress. Negativo: SP 080875-1995)
Raduan Nassar em sua casa em São Paulo, em foto de 1985

Afinal, a obra de Raduan é breve, resumida em "Lavoura...", "Um Copo...", "Menina a Caminho e Outros Textos" –e o ensaio "A Corrente do Esforço Humano", publicado na Alemanha em 1987 e inédito em português.

De todo modo, nada disso parece interessar a Raduan Nassar –que continua alheio aos livros. Embora raro, às vezes até recebe leitores que batem à sua porta querendo conversar. A eles, o escritor repete o de sempre: não quer mais contato com a literatura.

"Entre os admiradores, todo mundo sabe o endereço dele", diz o advogado Daniel Granato, 27, que esteve por 15 minutos com Raduan, em junho. "Ele me disse que recebe muitos livros pelo correio, mas não lê nada."

As aparições, porém, seguem raras. As últimas de que se tem notícia foram ano passado: uma na Balada Literária, na qual era autor homenageado, e outra em um vídeo no Youtube de apoio à reeleição de Dilma Rousseff.

Mesmo recolhido da vida literária, Raduan é pai de outros escritores. O mais evidente é Milton Hatoum, que também tematiza não só imigração libanesa no Brasil, só que em Manaus, mas a família.

Raduan, aliás, leu os originais de "Relato de Um Certo oriente" e "Dois Irmãos", dois romances famosos de seu herdeiro manauara.

Hoje, nem o fato de ter reconhecimento tira Raduan do casulo. Seus dois romances foram adaptados para o cinema: "Um Copo..." em 1999, por Aluizio Abranches; e "Lavoura..." em 2001, por Luiz Fernanda Carvalho. Só continua o mistério de por que o autor não escreve mais.

"Todos os atos dele são de profundo amor à literatura. Até a raiva que ele sente vem dos momentos em que ele julga não ter sido correspondido nesse amor", diz Luiz Schwarcz. 
MAURÍCIO MEIRELES
Fonte: Folhauol

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Personalidades Negras – Dragão do Mar


Francisco José do Nascimento também conhecido como Dragão do Mar, nasceu em 15 de abril de 1839 em Fortaleza. Líder jangadeiro, Prático Mor e abolicionista, participou ativamente do Movimento Abolicionista Cearense, organização do estado pioneiro na abolição da escravidão. Entre suas principais ações, esteve o impedimento do comércio de escravizados nas praias do Ceará e a recusa ao transporte de navios negreiros que conduziam escravizados do Nordeste ao Sul do país.
Foi Major Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará. Símbolo da resistência popular cearense contra a escravidão, foi homenageado pelo Governo do Ceará que deu seu nome ao Centro Dragão-do-mar de Arte e Cultura. Segundo o mesmo Governo, Francisco José do Nascimento e seus colegas foram ousados nas decisões que tomaram em nome da liberdade.
Francisco José do Nascimento faleceu em 5 de março de 1914 em Fortaleza. Além do Centro Cultural, o Dragão do Mar foi também homenageado com uma Escola Pública Estadual, localizada no bairro do Mucuripe, em Fortaleza e com uma Escola de Ensino Médio, fundada em 1955, com a missão de alfabetizar os filhos de pescadores que moravam na região naquela época. Em 2013, a Petrobras, por meio de sua subsidiária Transpetro, lançou ao mar um novo navio petroleiro construído em Pernambuco, em homenagem a Chico.
Fonte: FCP

Fórum Nacional das Culturas Populares e Povos Tradicionais

O Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC) realiza, de 24 a 29 de novembro, em Serra Talhada (PE), seu último Fórum Nacional Setorial. No âmbito do CNPC, será realizada a eleição dos Colegiados Setoriais de Cultura Popular, Afro-brasileira, Patrimônio Imaterial e Artesanato. Cada Colegiado é composto por 15 titulares e 15 suplentes, devendo indicar um representante para compor o CNPC, para um mandato de dois anos.
O evento servirá para a definição dos integrantes dos Colegiados Setoriais, além disso, será realizada reunião do Colegiado Indígena, eleito em processo separado em agosto passado.
Participam da abertura do Fórum Nacional das Culturas Populares e Povos Tradicionais, a Fundação Cultural Palmares, o Iphan, a Fundação Casa de Rui Barbosa e as secretarias da Cidadania e da Diversidade Cultural (SCDC), de Políticas Culturais (SPC) e de Articulação Institucional (SAI).
De acordo com Sandro Santos, Coordenador-Geral de Gestão Estratégica da Fundação Cultural Palmares, o CNPC tem como finalidade propor a formulação de políticas públicas, com vistas a promover a articulação e o debate dos diferentes níveis de governo e a sociedade civil organizada, para o desenvolvimento e o fomento das atividades culturais no território nacional.
Fonte: FCP

Moçambique: ONU Mulheres apoia 16 Dias de Ativismo pelo fim da violência

País atendeu 16 mil casos de vítimas de violência entre janeiro a setembro deste ano; campanha da ONU Mulheres com o governo moçambicano está orçada em  US$ 1,5 milhões.



16 Dias de Ativismo pelo fim da violência contra mulheres e raparigas. Foto: ONU Mulheres Moçambique

Ouri Pota, da Rádio ONU em Maputo. 
Sob lema "Basta de violência! Cultive a paz em casa, comunidade e sociedade", a ONU Mulheres e o governo moçambicano iniciam, neste 25 de novembro, em Tete, os 16 Dias de Ativismo pelo fim da violência contra mulheres e raparigas.
O Ministério do Gênero, Criança e Ação Social está a cargo da campanha nacional que arranca oficialmente na província de Tete, no centro do país. Na região, 33% de mulheres sofreram algum tipo de violência.
Mobilização
Falando a jornalistas, a representante da ONU Mulheres, Florence Raes apelou ao esforço conjunto no combate à violência. A iniciativa visa reforçar a mobilização educativa sobre a erradicação de violência e garantia dos direitos das mulheres e raparigas.
"Se nós juntarmos esforços todos para combater, prevenir e dizer que na verdade não se tolera qualquer tipo de violência, não chegaremos lá. É um fenômeno global que para as Nações Unidas infelizmente trabalha-se em todos países, porque não é uma questão de país com crescimento maior ou menor, do Norte ou do Sul, infelizmente é fenómeno transversal que toca as estruturas sociais, as mentalidades e ao patriarcado".
Ativismo
Já o vice-ministro do Gênero, Criança e Ação Social, Lucas Mangrasse, considerou que o ativismo pelo fim da violência contra a mulher e rapariga deve ser contínuo.
"É necessário que este mal supere para que todos nós gozemos dos mesmos direitos. Estes 16 dias poderão não ser suficientes, mas eles terão um impacto importante já que eles envolvem vários debates com vários atores envolvidos, no combate, a este mal para que de fato os 16 Dias de Ativismo sejam úteis e possam produzir os efeitos que nós prevemos".
Num país onde foram reportados 16 mil casos de vítimas de violência entre janeiro a setembro deste ano, a falta de dados estatísticos é uma das preocupações da ONU Mulheres.
Florence Raes cita o tabu como um dos elementos que dificultam no registo de casos de abusos.
Atendimento
"Sem as denúncias não podemos juntos encaminhar as soluções. Então o primeiro elemento em termos de dados é que se estima globalmente que mesmo que possamos avançar dados, isso nem chega a metade das raparigas e mulheres que sofreriam algum tipo de violência, porque não se denuncia, porque tem um tabu… por mais que tenha gabinete de atendimento e serviços, mesmo insuficientes, a denúncia é muito importante".
Este ano, Moçambique registou uma redução de 2 mil casos de pessoas vítimas de violência. A informação foi data pelo vice-ministro do Gênero, Criança e Ação Social.
Campanha
"Neste ano, no período de janeiro a setembro foram atendidas cerca de 16 mil vitimas, contra os 18 mil casos do mesmo período em 2014. Isto pode parecer que há uma descida não significativa, mas também pode ser uma descida significativa tendo em conta os esforços que são realizados em diferentes setores da sociedade"
A campanha dos 16 Dias de Ativismo sobre a violência contra mulheres e raparigas foi instituída pelas Nações Unidas em 2001.
Com a iniciativa, orçada em  US$ 1,5 milhão,  pretende-se reforçar a mobilização educativa sobre a erradicação de violência e garantir os direitos humanos das mulheres e das raparigas.
Fonte: radioonu

Papa Francisco visita escritório da ONU em Nairobi

Pontífice deve plantar uma árvore ao lado do subsecretário-geral para o Meio Ambiente; também está agendado um encontro com refugiados a viver no Quênia.


Papa esteve na sede da ONU em Nova Iorque em setembro. Foto: ONU/Kim Haughton


Leda Letra, da Rádio ONU em Nova Iorque. 
O papa Francisco está em África e visita nesta quinta-feira o Escritório das Nações Unidas na capital do Quênia, Nairobi. O pontífice está a fazer sua primeira viagem oficial ao continente e além do Quênia, passará por Uganda e República Centro-Africana.
Ao chegar ao escritório da ONU em Nairobi, o papa terá um encontro com a diretora-geral Sahle-Work Zewde, com funcionários da organização e diplomatas. A cidade também é sede do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma.
Refugiados
O diretor da agência e subsecretário-geral da ONU para o Meio Ambiente irá mostrar ao papa o "prédio verde" das Nações Unidas e os dois devem conversar sobre os desafios impostos pela mudança climática.
Ao lado de Achim Steiner, o papa Francisco plantará uma árvore, antes de se encontrar com refugiados que estão a viver no Quénia, após fugirem de confrontos em países vizinhos.
Discursos
Será também revelado um quadro, uma prenda do pontífice para o prédio das Nações Unidas no Quénia. Agências de notícias acreditam que a paz entre cristãos e muçulmanos será um dos temas dos discursos do papa durante o périplo por África.
Em setembro, o papa Francisco foi recebido pela primeira vez na sede da ONU em Nova Iorque, pelo secretário-geral Ban Ki-moon. Na ocasião, o líder da Igreja Católica fez um discurso histórico na Assembleia Geral, de quase 50 minutos, onde falou sobre conflitos da atualidade e proteção ao meio ambiente.
Fonte: radioonu

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...