terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A história de Kafka e a menininha da boneca perdida em Berlim: para onde vai o amor que se perde?

Por Nando Pereira
Há uma história do escritor Franz Kafka(1883-1924), famoso por “A Metamorfose“, “O Processo” e “Carta ao Pai“, que mostra um singelo e doce lado do autor que já foi descrito como esquizóide, depressivo e anoréxico nervoso: uma história de amor em que ele ajuda uma menina desolada pela perda de uma boneca em uma praça de Berlim. A história tem algumas versões e abaixo seguem duas delas (traduzidas para o português): a primeira da terapeuta americana May Benatar, que ouviu da psicóloga e instrutora de meditação budista Tara Brach, publicada no site The Huffington Post, e a segunda do renomado tradutor de Kafka, Mark Harman, como foi publicado no site The Kafka Project. “Para mim essa história traz duas sábias lições: a primeira que tristeza e a perda são presentes mesmo para uma pequena criança, e a outra que o caminho para a cura é ver como o amor volta em outra forma”, diz May Benatar, cuja narrativa segue abaixo.
A história de Kafka e a menina que perdeu sua boneca em Berlim, segundo May Benatar:
kafka-boneca-52618_186x186“Franz Kafka, conta a história, certa vez encontrou uma menininha no parque onde ele caminhava diariamente. Ela estava chorando. Tinha perdido sua boneca e estava desolada. Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não se lamente por mim, parti numa viagem para ver o mundo. Escreveu para você das minhas aventuras”. Esse foi o início de muitas cartas. Quando ele e a garotinha se encontravam ele lia essas cartas compostas cuidadosamente com as aventuras imaginadas da amada boneca. A garotinha se confortava. Quando os encontros chegaram ao fim, Kafka presenteou a menina com uma boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original. Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. Muitos anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta. Em resumo, dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.
~ May Benatar, no artigo “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)
E a versão da história de Kafka e a menina que perdeu sua boneca em Berlim, segundo Mark Harman, que acrescenta detalhes como o tempo que durou a troca de cartas e os detalhes do desfecho:
65.2A estada de Kafka na cidade (Berlin) não foi totalmente sombria; daí o primeiro dos meus dois pequenos enigmas – uma história sobre Kafka e uma menina em Steglitz. Dora Diamant conta-a ao crítico francês e tradutor Marthe Robert, e, em uma versão um pouco diferente, a Max Brod. Enquanto caminhava certo dia em Steglitz, Kafka e Dora conheceram uma menina em um parque que chorava porque havia perdido sua boneca. Kafka disse a ela para não se preocupar porque a boneca tinha partido em uma viagem e lhe enviara uma carta. Quando a menina perguntou desconfiada pela carta, ele disse que não estava com ele, mas que se ela voltasse no dia seguinte ele iria trazê-la. Fiel à sua palavra, todos os dias durante as próximas três semanas, ele foi ao parque com uma nova carta da boneca. Dora Diamant enfatiza o cuidado que ele dedicou a esta tarefa auto-imposta, que era do mesmo grau que o que ele dedicava à sua outra obra literária. Ela também comenta a dificuldade de Kafka em chegar a um final que iria deixá-lo livre e ao mesmo tempo com uma conclusão razoavelmente satisfatória, para a menina. Na versão que Dora contou a Marthe Robert, Kafka conseguiu isso fazendo a boneca ficar noiva: “Ele (Kafka) pesquisou por um longo tempo e, finalmente, decidiu que a boneca ia se casar. Primeiro ele descreveu o jovem, o noivado.. .., os preparativos para o casamento, em seguida, em grande detalhe, a casa dos recém-casados”. Por causa desses “preparativos do casamento” em andamento, uma palavra que lembra o título de uma de suas primeiras histórias e sugere o grau de autobiografia fictícia que se engendrou neste envolvente conto – a boneca não poderia mais, compreensivelmente, visitar sua ex-dona. Max Brod não menciona esse final, mas escreve que antes de sair de Berlim para Praga, Kafka se certificou que a menina recebera o presente de uma nova boneca. Esta é, naturalmente, apenas uma discrepância menor e não diminui a credibilidade desta história, que revela um Kifka gentil, atencioso e compreensivo, que não é tão amplamente conhecido como o introvertido e auto-atormentando de “A Metamorfose” e “Um Artista da Fome”.
~ Mark Harman, em “Missing Persons: Two Little Riddles About Kafka and Berlin” (publicado no The Kafka Project)
PS: Essa história da boneca certamente deve ter servido de inspiração para a sequência do filme “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” (Jean-Pierre Jeunet, 2001), em que a protagonista Amélie Poulain (Audrey Tatou) pega uma estátua de anão de seu pai e faz ela viajar o mundo e enviar cartões postais para o pai, que não sai de casa e se sente atraído pelas aventuras da estátua.
Fonte:  http://www.contioutra.com/

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Fonte: https://quilombacao.wordpress.com/2015/02/10/curso-gratuito-a-distancia-trajetorias-das-mulheres-negras-no-brasil-inscreva-se/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Entenda diferenças entre Pós, MBA, Mestrado, Mestrado Profissional e Doutorado

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Qual a diferença entre Pós e MBA? Onde buscar os melhores cursos de especialização? Posso fazer doutorado sem ter feito mestrado? O que é mestrado profissional? Tire suas dúvidas!

Por Davi Lira  Do Ultimo Segundo
Com o crescimento no número de concluintes em cursos de graduação no país – o quantitativo ultrapassa mais de 1 milhão de formados em um ano, de acordo com o Censo Escolar -, um dos caminhos naturais da carreira é a realização de uma pós-graduação. E opções de cursos é o que não faltam. Só de mestrados e doutorados, por exemplo, existem mais de 5 mil cursos.
Dentro desse leque, questionamentos é o que não falta. Por exemplo, os MBA´s (da sigla em inglês, Master Business Administration) são cursos de mestrado? Ou ainda: Existem cursos gratuitos de pós-graduação? E onde buscar as melhores opções de especialização?
Para tirar essas e outras dúvidas sobre o tema, além de descobrir que é possível, por exemplo, tentar um doutorado mesmo sem ter feito o mestrado, o iG Educaçãopreparou um guia amplo sobre as principais diferenças e as informações mais fundamentais sobre todos os tipos de pós-graduações existentes no país.
Pós-graduação no Brasil
No País, existem dois tipos de cursos de pós-graduação. São os cursos “lato sensu”, como as especializações e os MBA´s, e os “stricto sensu”, que são os mestrados e os doutorados. Existe uma série de diferenças entre eles. As pós-graduações “lato sensu”, geralmente, têm uma menor duração e tendem a ser menos exigentes que os mestrados e doutorado. Além disso, elas não precisam ter uma autorização prévia do MEC. A instituição que já oferece cursos de graduação, e é autorizada pelo ministério a funcionar, não precisa pedir permissão ao MEC para criar novos cursos. Sendo assim, eles tendem a ser mais flexíveis, conseguindo atender necessidades mais específicas do mercado de trabalho, por exemplo.
Já os cursos “stricto sensu” precisam de autorização do governo para funcionar. Cabe à Capes realizar a recomendação do curso para que ele possa funcionar. É durante a avaliação realizada por essa agência que são atribuídas as notas para cada um dos programas de pós-graduação (“stricto sensu”) existentes no país. Essa pontuação, que se torna pública e pode ser consultada na internet, atesta o nível de qualidade do curso, tornando-se mais fácil a escolha do candidato.
Confira, a seguir, características mais específicas sobre cada modalidade:
1. ESPECIALIZAÇÃO:
De forma mais ampla, todo curso que é realizado após o ensino superior é chamado de curso de pós-graduação. Contudo, no país, o termo abreviado “pós” foi comumente associado a cursos de especialização. Essa modalidade de pós-graduação é vista por muitos candidatos como uma oportunidade de mudar de área. É comum os cursos de especialização estarem abertos a graduados de qualquer área de conhecimento. De acordo com o MEC, normalmente, a “pós” é um curso que tem o objetivo técnico ou profissional mais específico, sem abranger totalmente uma área de conhecimento. No entanto, ele precisa seguir algumas regras mínimas. Caso contrário, ele será considerado um simples curso livre. Conheça as principais exigências da especialização:
#Perfil do candidato: requisito mínimo exigido é que o candidato tenha diploma de curso superior
#Como escolher os cursos? Pela falta de fiscalização e controle na criação dos cursos de especialização pelo MEC, não existe um sistema oficial disponibilizando uma relação completa desses cursos. Assim, a melhor forma de escolher a pós é analisando algumas informações que podem melhor indicar o nível de qualidade da instituição.
Por meio do sistema eletrônico E-mec é possível fazer uma busca em todas as faculdades, centros universitários e universidades brasileiras. Lá, é possível conferir o endereço da instituição, telefones e sites. Também é possível conferir as áreas de conhecimento dos cursos de graduação que a instituição oferece, além de dados sobre fundação e se ela tem ficha suja no MEC (opção “ocorrências”). Adicionalmente, recomenda-se fazer visitas prévias à coordenação do curso, avaliar o programa de aulas da pós e verificar se ela é bem reconhecida no mercado.
#Fique atento! Dos professores que farão parte do corpo docente do curso, pelo menos metade deles devem ser mestres ou doutores. E os demais, devem ter, pelo menos, a formação de especialista.
#Duração: os curso têm duração mínima de 360 horas. Nesse tempo, no entanto, não estão computados as horas de estudo individual, sem assistência do professor, e nem do tempo reservado, obrigatoriamente, à elaboração do trabalho final.
#Processo seletivo: cabe à própria instituição definir seus critérios de seleção. Se o candidato se sentir injustiçado durante o processo, ele pode até levar sua queixa à Secretaria de Educação Superior (SESu), responsável pelos cursos “lato sensu”.
#Custo: geralmente os cursos de especialização são pagos, tanto em instituições privadas quanto nas públicas. A cobrança pelo pagamento em universidades estaduais e federais, por exemplo, ocorre porque esses cursos não são considerados “atividades de ensino regulares, como os mestrados e o doutorado”.
#Trabalho final de conclusão: é comum que os cursos exijam a elaboração de uma monografia. No entanto, é possível outras modalidades de trabalho final, como a elaboração de artigos, por exemplo.
#Titulação: ao concluir, o aluno ganha o título de especialista. A titulação ocorre por meio da emissão de um certificado pela instituição que ofertou o curso. Com o documento em mãos, o candidato pode, por exemplo, ser professor universitário em instituições privadas.
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2. MBA:
O MBA (da sigla em inglês, Master Business Administration) não é um curso de mestrado, como o nome sugere. Junto com a especialização, ele é um curso “lato sensu”. Sendo assim, muitas de suas características são comuns com a “pós”. De acordo com o próprio MEC, os MBA´s “nada mais são do que cursos de especialização em nível de pós-graduação na área de Administração”.
Muitos dos cursos oferecidos são voltados para o campo dos negócios e da gestão. No entanto, é possível encontrar MBA´s de outras áreas, como comunicação e saúde.
#Perfil do candidato: independente do segmento do MBA, o curso em si é visto como uma oportunidade de realização e troca de contatos profissionais. Para fomentar essenetworking é comum algumas instituições exigirem que o candidato tenha tido experiências de trabalho já consolidadas. O diploma da graduação também é obrigatório.
#Como escolher os cursos? O candidato pode, como nos cursos de especialização, consultar o portal E-mec para obter mais informações sobre se a instituição pretendida oferece algum tipo de MBA.
#Fique atento! De Forma complementar, o candidato também pode consultar se o curso faz parte da Associação Nacional de MBA (Anamba) – uma organização que monitora os parâmetros de qualidade. Mas vale lembrar que a não presença de cursos na Anamba não significa que ele não é de qualidade.
#Duração: os cursos têm duração mínima de 360 horas. Nesse tempo, no entanto, não estão computados as horas de estudo individual, sem assistência do professor, e nem do tempo reservado à elaboração do trabalho final.
#Processo seletivo: cabe à própria instituição definir seus critérios de seleção. Se o candidato se sentir injustiçado durante o processo, ele também pode levar sua queixa à Secretaria de Educação Superior (SESu), responsável pelos cursos lato sensu.
#Custo: geralmente os cursos de MBA são pagos. Tanto em instituições privadas quanto públicas. A cobrança pelo pagamento em universidades estaduais e federais, por exemplo, ocorre porque esses cursos não são considerados “atividades de ensino regulares”, como os mestrados e o doutorado.
#Trabalho final de conclusão: elaboração de uma monografia ou outras modalidades de trabalho final
#Titulação: ao fim do curso, o candidato tem o título de pós-graduação em nível “lato sensu”.
3. MESTRADO:
Para funcionar, os cursos “stricto sensu” como os mestrados precisam ser recomendados pela Capes e reconhecidos pelo MEC. É essa agência do Ministério da Educação que avalia o curso e atesta sua qualidade. As notas vão de 1 a 7 (nota máxima). Os cursos precisam ter, ao menos, a nota 3. Aqueles que possuem nota 5 já são considerados com “elevado padrão de qualidade”. Mas, para ter essa nota, é preciso que tenham cursos de doutorado, além do mestrado. O máximo possível é a nota 7, que significa que o curso tem um “desempenho claramente destacado”, afirma a Capes.
#Perfil do candidato: é importante que o candidato tenha interesse na realização de pesquisas científicas. Muitos dos mestrandos pretendem seguir a carreira acadêmica, ou seja, querem ser professores universitários.
#Como escolher os cursos? Os cursos recomendados pela Capes podem serconsultados pela internet. No portal da agência é possível conferir as notas dos programas e também relatórios detalhados sobre a qualidade do corpo docente, das instalações e da proposta curricular do mestrado.
#Fique atento! Ao contrário dos cursos de especialização e MBA, em cursos “stricto sensu” como o mestrado, é desejável que o postulante se dedique integralmente aos estudos, deixando de lado o trabalho e outras atividades.
#Duração: geralmente têm duração de dois anos. Mas é comum ser estendido até dois anos e meio. No primeiro ano os estudantes têm aulas, no segundo, se dedicam à confecção do trabalho final de conclusão.
#Processo seletivo: cabem às instituições de ensino ditarem as regras de seleção dos alunos. De acordo com a Capes, “eventuais abusos de poder podem ser corrigidos através de recurso na própria instituição ou dos órgãos de defesa do consumidor “.
#Custo: como são considerados cursos regulares pelo MEC, nenhuma instituição de ensino pública pode cobrar pelo mestrado. Dessa forma, o candidato selecionado não precisa pagar mensalidades para a realização do mestrado. Além disso, é comum parte dos estudantes ganharem bolsa mensal de auxílio durante o curso. Além da Capes, que oferece uma bolsa no valor médio de R$ 1.500, outras agências de fomento como o CNPq, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e as fundações de pesquisa como a Fapesp também oferecem esse tipo de auxílio. Já nas privadas que têm mestrado, praticamente todos os cursos são cobrados. Contudo, os alunos matriculados em instituições particulares também podem postular a essas bolsas de auxílio.
#Trabalho final de conclusão: é necessário que o estudante elabore uma dissertação ao final do curso. E a pesquisa deve ser apresentada e defendida diante de um grupo de pesquisadores e especialistas para ser aprovado.
#Titulação: ao final do curso, o aluno adquire um diploma de mestre.

4. MESTRADO PROFISSIONAL:
É uma modalidade mais recente de cursos “stricto sensu”. O mestrado profissional foi regulamentado em 2009. Sua principal diferença em relação ao mestrado (acadêmico) é o seu enfoque voltado à qualificação profissional do candidato. Além disso, o candidato tem mais opções de realização do trabalho final de conclusão.
#Perfil do candidato: geralmente o postulante não tem pretensão de abandonar o mercado de trabalho após a conclusão do curso para seguir a carreira acadêmica.
#Como escolher os cursos? Segue a mesma sistemática do conjunto de cursos “stricto sensu”. Assim, para consultar os cursos de mestrados acadêmicos recomendados pela Capes basta o candidato acessar o portal da agência.
#Fique atento! Como a modalidade é recente, a oferta é restrita.
#Duração: geralmente têm duração de dois anos, mas pode se estendido por mais meses.
#Processo seletivo: cabe à instituição ofertante definir e anunciar publicamente as regras do certame.
#Custo: mesma sistemática dos mestrados acadêmicos, ou seja, cabem às instituições de ensino ditarem as regras de seleção dos alunos.
#Trabalho final de conclusão: pode ser apresentado em vários formatos além da dissertação, como por exemplo por meio da elaboração de um artigo, desenvolvimento de aplicativo, elaboração de estudo de caso ou produção artística.
#Titulação: De acordo com o Conselho Nacional de Educação (CNE) – orgão consultor do MEC -, como todo curso “stricto sensu”, o diploma do mestrado profissional tem validade nacional e grau “idêntico” ao mestrado acadêmico. Sendo assim, quem finaliza o mestrado profissional também fica habilitado a ser um professor universitário, por exemplo.
5. DOUTORADO:
Além dos mestrados, o doutorado é outra modalidade de cursos “stricto sensu”. Sendo assim, os normativos são semelhantes. No país, são quase 2 mil cursos voltados para a formação de doutor. Uma quantidade bem mais baixa que a de mestrados acadêmicos, mas superior a de mestrados profissionais. Saiba mais sobre os números:
Uma das principais diferenças entre o mestrado e o doutorado está no nível de exigência que é solicitado aos candidatos selecionados no doutorado. Para ser professor de uma universidade pública, por exemplo, é preciso ter o doutorado.
Já depois dessa titulação, o candidato que finaliza o curso de doutorado ainda pode prosseguir nos estudos, realizando aprofundamentos de pesquisas. Tais atividades já são consideradas como de ” pós-doc”, ou seja, de pós-doutorado. No Brasil, ainda não existe a modalidade de doutorado profissional.
#Perfil do candidato: é recomendável que o postulante tenha forte interesse analítico no desenvolvimento de pesquisas científicas. É preferível que o candidato se dedique inteiramente ao doutorado em regime de dedicação exclusiva.
#Como escolher os cursos? Segue a mesma sistemática do conjunto de cursos “stricto sensu”. Assim, para consultar os cursos de doutorado recomendados pela Capes basta o candidato acessar o portal da Capes. Lá, é possível conferir as notas dos programas e também relatórios detalhados sobre a qualidade do corpo docente, das instalações e da proposta curricular do doutorado.
#Fique atento! Mesmo exigindo um nível alto do candidato, é possível que pessoas que tenham apenas o título de graduação tentem uma vaga em doutorados. O candidato deve ficar atento aos editais de seleção.
#Duração: geralmente quatro anos.
#Processo seletivo: Mesma sistemática dos mestrados , ou seja, cabem às instituições de ensino ditarem as regras de seleção dos alunos. De acordo com a Capes, “eventuais abusos de poder podem ser corrigidos através de recurso na própria instituição ou via órgãos de defesa do consumidor”.
#Custo: Como são considerados cursos regulares pelo MEC, nenhuma instituição de ensino pública pode cobrar pelo doutorado. Dessa forma, o candidato selecionado não precisa pagar mensalidades para a realização do doutorado. Além disso, é comum parte dos estudantes ganharem uma bolsa mensal de auxílio financeiro durante o curso. Além da Capes, que oferece uma bolsa no valor médio de R$ 2.200, outras agências de fomento como o CNPq, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e as fundações de pesquisa como a Fapesp também oferecem esse tipo de auxílio. Já nas privadas que têm doutorado, praticamente todos os cursos são cobrados. Os alunos de instituições particulares, contudo, também podem postular a essas bolsas de auxílio.
#Trabalho final de conclusão: o candidato precisa defender uma tese “que represente trabalho de pesquisa importando em real contribuição para o conhecimento do tema”, atesta a Capes. É também fundamental que o objeto de estudo tenha um enfoque inovador.
#Titulação: oferece o título de doutorado, ou seja, os concluintes podem, sim, ser chamados de doutores.
Fontes
Para a elaboração dessas orientações e construção desse mapeamento consolidado, a reportagem contou com a colaboração de especialistas na área, como o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), José Fernandes de Lima, Gustavo Balduíno, secretário executivo da Andifes (a associação dos reitores das universidades federais), e o especialista em educação Claudio de Moura Castro, ex-diretor da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão federal responsável pela avaliação dos cursos de mestrado e doutorado no país.
Adicionalmente, ainda foi consultada uma série de normativas presentes nos bancos de dados do Ministério da Educação (MEC), do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Capes. O objetivo era ficar por dentro de todos os detalhes e meandros e simplificar, ao máximo, a legislação. Tudo isso para esclarecer as principais dúvidas dos futuros candidatos da forma mais prática possível.
Os dados sobre o número de pós-graduados formados no país e a relação de doutores por milhão de habitantes no Brasil e em Portugal foram coletados de publicação do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização social ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
9/2/2015Geledés Instituto da Mulher Negra
Fonte: Leia a matéria completa em: Entenda diferenças entre Pós, MBA, Mestrado, Mestrado Profissional e Doutorado - Geledés 
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Morre autor sul-africano antiapartheid Andre Brink, aos 79 anos

Andre Brink
JOHANESBURGO (Reuters) – O escritor sul-africano antiapartheid Andre Brink morreu na sexta-feira, aos 79 anos, vítima de um coágulo sanguíneo, durante um voo para a Cidade do Cabo de uma universidade belga onde recebeu um doutorado honorário, informou a imprensa local.
Por Joe Brock, do DCI 
Brink, que escreveu em inglês e africânder, era um líder dos Sestigers, grupo de escritores influentes dos anos 1960 que eram contra o regime do apartheid.
O romance de 1973 de Brink “Kennis van die aand” foi o primeiro livro escrito em africânder a ser banido pela minoria branca que governava a África do Sul. Foi posteriormente publicado em inglês ao redor do mundo com o título “Lookin on Darkness” (Olhando a escuridão).
“A Dry White Season” (Uma temporada seca e branca, 1979), talvez o romance mais famoso de Brink, era focado na morte de um ativista negro na prisão e foi posteriormente adaptado em um filme de Hollywood no qual estrelaram Marlon Brando e Donald Sutherland.
“É com grande tristeza que perdemos uma das nossas mais brilhantes estrelas literárias”, disse Etienne Bloemhof, um dos editores de Brink, à rádio 702 Talk Radio.
A coleção de 1998 de Brink sobre a política da África do Sul, “Reinventing a Continent”, tinha um prefácio do herói antiapartheid Nelson Mandela, que se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul depois do fim do regime da minoria branca em 1994.
Seu último romance “Philida”, uma história sobre a escravidão na África do Sul em 1830, foi listado para o prêmio Man Booker.
Brink, que também era um dramaturgo e acadêmico, era professor de inglês na Universidade da Cidade do Cabo.
9/2/2015Geledés Instituto da Mulher Negra
Fonte:

Leia a matéria completa em: Morre autor sul-africano antiapartheid Andre Brink, aos 79 anos - Geledés 
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Subestimado pelo Oscar, filme sobre Luther King acirra debate racial

1965 ou 2015?

O filme "Selma", que retrata as marchas comandadas por Martin Luther King (1929-1968), no Alabama, para assegurar o direito de voto dos negros, ganhou uma incômoda atualidade.

Ao chegar aos cinemas dos EUA, em novembro passado, as ruas ainda ferviam por conta dos protestos motivados pela série recente de assassinatos de cidadãos negros desarmados por parte da polícia.

As críticas, a maioria positivas, pegaram carona no grito das ruas e ressaltaram o quanto o país ainda tem de avançar para cumprir o "sonho" de King, e para afastar-se do nefasto bordão do então governador do Alabama, George Wallace, interpretado no filme por Tim Roth: "Segregação hoje! Segregação amanhã! Segregação para sempre!".

A bronca sobe de tom agora, quando as indicações para o Oscar menosprezaram a obra. O filme, que estreou nesta quinta-feira (5) no Brasil, concorre no próximo dia 22 em apenas duas categorias –melhor filme e melhor canção original.

O escritor e colunista do jornal "The New York Times" David Carr foi um dos que atacaram duramente a Academia "composta por 93% de brancos, 76% de homens e com uma média de idade de 63 anos".

Para Carr, a diretora negra Ava DuVernay deveria figurar entre os indicados. "Não há um negro entre os 20 indicados a melhor ator e coadjuvante. Indicações importam, e significariam muito no momento que estamos vivendo."

Mas barulho mesmo estão fazendo apoiadores de Lyndon B. Johnson (1908-1973). Segundo eles, o então presidente está representado de forma equivocada, e muito negativa, na obra.

Interpretado por Tom Wilkinson, o personagem surge como principal obstáculo na campanha levada adiante por Luther King.

"O filme, de fato, não é muito justo com relação a ele. Johnson amenizou as posições mais extremas e segregacionistas que existiam na política", diz o professor de cinema e história da Universidade de Michigan, Fernando Arenas.

AULA DE HISTÓRIA

Mark Updegrove, diretor da biblioteca de Johnson, e Joseph Califano, assistente do presidente, saíram a defender o ex-chefe e acusaram DuVernay de faltar com a verdade histórica.

Numa carta ao jornal "The New York Times", o jornalista Gay Talese, que cobriu os protestos em 1965 e é retratado no filme, respondeu a Updegrove e Califano, defendendo a leitura da diretora.

DuVernay admite que tomou liberdades, mas que seu filme não se propôs a ser um documentário ou uma aula de história.

"Entendo a defesa de uma liberdade poética no cinema. Porém, num filme como esse, que vai virar referência para explicar o movimento negro nos anos 1960, a cineasta deveria levar em conta que tem, sim, um compromisso com a história", diz Arenas.

Fonte: Folhauol

CULTURA NA MESA: 10 GRANDES PRATOS DA GASTRONOMIA AFRICANA

por Kauê Vieira

Arroz jollof é o prato mais popular no Oeste africano


A gastronomia não se limita somente ao objetivo primário de matar a fome, com todas as suas variações ela se apresenta como instrumento de propagação da cultura e representa como ninguém os mais diversos povos e tradições. Se tratando de um continente tão complexo como a África fica ainda mais difícil resumir a preferência gastronômica de sua gente. O modo de fazer, os ingredientes selecionados, a criação de animais e os pratos refletem o ambiente em que cada pessoa vive e toda a tradição e história que envolvem o lugar.


A alta incidência de estrangeiros que desembarcaram na África ao longo dos séculos também deve ser levada em consideração na análise. Pensando nisso, o site Mail & Guardian Africa topou o desafio e selecionou os 20 pratos mais populares na cozinha africana e nós resolvemos destacar alguns deles, além de contar um pouco da história gastronômica de cada região.


A chermoula é uma mistura de ervas consumida basicamente no Norte da África.


Vamos começar no século 7, quando os árabes chegam com suas famosas especiarias – açafrão, canela, gengibre e cravo – revolucionando a gastronomia no Oriente africano. A presença árabe na cozinha do leste do continente é fato bastante conhecido, a relação começou a mil anos atrás quando eles navegavam com arroz e especiarias, estes que hoje marcam presença na comida Suaíli das regiões costeiras. A partir do Novo Mundo eles descobriram o pimentão, tomates e batatas. Limões e porcos domésticos vindos da China e Índia completam a lista.


Ao se deslocar mais para o interior, é notável a presença do gado, ovelhas e cabras, todos considerados moeda de troca pelos pastores. Os animais também servem para a alimentação, contudo apenas para a confecção de produtos oriundos do leite, geralmente sua carne não é consumida. Os habitantes da região preferem a pesca – que fornece a proteína – e também o consumo de grãos, feijão e legumes.


Biltong é uma carne curada consumida em todo o continente


Já a comida do Norte se destaca pelo cheiro. Egito, Marrocos, Líbia, Tunísia e Argélia, todos banhados pelo Mar Mediterrâneo, se caracterizam pelo consumo de erva-doce, alecrim, louro, cravo, canela e pimentas. A cultura do lugar foi fortemente influenciada pelos fenícios do primeiro século, que trouxeram a salsicha, seguidos pelos cartagineses, que introduziram o trigo, evidenciando a preferência da população por pratos feitos à base de trigo e de carne de cordeiro. Em tempo, muitos temperos migraram dali para países da Europa, como Espanha, França e Itália.

No chamado chifre africano, que engloba Etiópia, Somália, Djibouti e a Eritreia, a religião, especialmente as crenças islâmicas e cristãs, impactaram significativamente na mesa de jantar. Diferente de outros locais, aqui não há carne de porco, substituída pelas leguminosas, lentilha e grão de bico. Os pratos tradicionais da cozinha etíope e eritreia são semelhantes e ambos dominados por tsebhis (ensopados), que são servidos com injera – um crocante feito com teff, trigo ou sorgo -, também encontrado na Somália.


Chermoula, mistura de ervas, leva óleo, suco de limão, alho, cominho e sal


Com toda a diversidade citada ao longo do texto, pode-se dizer que a África Austral é dona de umas das maiores variedades culinárias de todas as regiões do continente. Isso se deve a mistura entre as culturas das sociedades tradicionais africanas com os índios, europeus e populações asiáticas. A África do Sul, por exemplo, fazia parte da rota marítima que ligava o Oriente ao Ocidente e com isso sua cozinha se diversificou bastante. Em geral os sul-africanos consomem carne vermelha e um dos pratos favoritos da população é o bobotie, um cozido de carne moída, pão, leite, cebola, castanhas, passas, damascos e  curry. A comida era uma das preferidas de Nelson Mandela.

Por fim falamos da África Ocidental e Central, que teve sua culinária muito menos influenciada pelos europeus do que os outros. Com o mínimo contato com o exterior, a cozinha destas duas regiões continuam próximas dos ingredientes e técnicas tradicionais. A única adição foi a mandioca, amendoim e plantas de pimenta, que chegaram junto com o comércio de escravos em meados do século 16.


As injera são úmidas e fofas e consumidas principalmente na Somália e Etiópia


Depois da introdução, com vocês alguns dos destaques da lista:


Biltong  Original da África do Sul, é uma carne curada consumida em todo o continente. Geralmente o prato é preparado com pimenta preta, salta, açúcar, vinagre e molho barbecue.


O Fufu (em amarelo) é feito com mandioca e inhame. O prato é bastante popular em Gana. (Foto – Blog Mundi)


Fufu – Popular no Oeste, é feito a partir da fervura da mandioca e do inhame (pode ser substituído pela banana) e em seguida é batido até ficar com a consistência de massa.


Parecido com o bolinho de chuva, o mandazi é um dos principais da culinária Suaíli


Mandazi – Com forma que lembra o nosso bolinho de chuva, o prato é um dos principais na culinária Suaíli e acompanha qualquer prato ou pode servir de aperitivo. Os ingredientes básicos são amendoim, leite de coco e amêndoas.


Injera – Crepe com farinha fermentada na água por dois ou três dias. Depois eles são assados numa chapa de ferro ou blaca de barro, colocadas sobre um fogão. As injera são úmidas e fofas e consumidas principalmente na Somália e Etiópia.


Arroz Jollof – O prato mais popular no Oeste africano, o alimento tem como ingredientes básicos arroz, tomate, molho de tomate, cebola, sal e pimenta vermelha. Ele é consumido principalmente na Nigéria, Togo, Gana, Serra Leoa e Libéria.


Chermoula – Uma mistura de ervas, leva óleo, suco de limão, alho, cominho e sal. Ele é consumido basicamente no Norte e os ingredientes variam de acordo com o país.


O Nyama Choma é uma carne assada servida em restaurantes chiques ou no comércio de rua. Popular no Quênia


Nyama Choma / Braaivleis / Mechoui – Com nomes e técnicas de cozinhar diferentes, é apreciado quase que em todo o continente. É um tipo de carne assada servido em restaurantes chiques ou no comércio de rua de Nairóbi, no Quênia. Também vai bem com cerveja.


O cuscuz, que também está presente na mesa dos brasileiros, é apreciado na Argélia e Marrocos


Couscous – Alternativa interessante para o arroz e massas no Norte da África, o cuscuz é feito no vapor e com trigo. O prato também está presente na mesa dos brasileiros.


Original de Portugal, o piri-piri é um molho picante e adotado pela cozinha sul-africana


Piri Piri – Original de Portugal, é um molho picante e adotado pela cozinha sul-africana.

 Fonte: Afreaka

Para a lista completa acesse:

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Livro investiga trajetória de mulheres flagradas em foto símbolo da segregação racial nos EUA

elizabeth-eckford
Em “Elizabeth and Hazel – Two Women of Little Rock” (Elizabeth e Hazel – Duas Mulheres de Little Rock, inédito em português), David Margolick conta como imagem mudou para sempre a vida das duas ex-estudantes, que chegaram a ser amigas, mas se afastaram novamente. “Sei que a despeito de tudo, elas ainda se gostam e sentem falta uma da outra”, diz
Por Amauri Arrais, na Revista Marie Claire
Os nomes de Elizabeth Eckford e Hazel Bryan não são reconhecíveis para a maioria, mas uma imagem das duas no dia 4 de setembro de 1957 certamente é: a primeira, uma estudante negra, óculos escuros, caminha estoicamente em meio aos colegas brancos, enquanto a segunda, logo atrás, parece gritar impropérios racistas.
A imagem histórica, capturada pelo fotógrafo Will Counts, do Arkansas Democrat, foi feita quando nove estudantes negros – entre eles a tímida Elizabeth, de 15 anos -iriam ao primeiro dia de aula no principal colégio da cidade de Little Rock, o Central High School. Selecionados pela direção para cumprir a ordem judicial de integração racial no país, eles haviam se reunido na casa de lideranças negras para irem em grupo, temendo serem hostilizados. Menos Elizabeth, que não recebeu o aviso e seguiu sozinha.
Mais de 50 anos depois do episódio, ao visitar Little Rock para uma reportagem, o jornalista David Margolick, ex-editor da Vanity Fair e colaborador do New York Times, se deparou com a foto das duas ex-alunas, já duas adultas, sorrindo uma para a outra.  “Percebi que havia uma boa história ali. Pensei que era uma trajetória importante para ambas personagens”, diz o autor de “Elizabeth and Hazel – Two Women of Little Rock” (Yale Press, ainda inédito em português).
No livro, relançado recentemente, Margolick conta como a imagem, reproduzida em diversas capas de jornais e transformada em símbolo pela luta anti-segregação racial, mudou para sempre a vida das duas mulheres: traumatizada, Elizabeth sofreu com problemas emocionais por anos, enquanto Hazel passou outros tantos tentando expiar a culpa. Veja abaixo, um vídeo do autor falando sobre o livro, em inglês:
Após um pedido de desculpas de Hazel, as duas se aproximaram e chegaram a ser amigas -época da segunda foto-, mas logo voltaram a se afastar. “As diferenças entre elas –de formação, experiências de vida, atitudes e personalidades- se provaram muito grandes para serem superadas facilmente”, diz Margolick, que tentou uma reaproximação entre as duas ao concluir o livro, sem sucesso. Por email, ele respondeu a perguntas de Marie Claire.
Marie Claire – Que razões o levaram a querer contar a história por trás dessa foto icônica de 1957? O que o atraía na imagem?
David Margolick –
 Como qualquer estudante da história americana ou qualquer pessoa que tenha lido um livro sobre a história do país, eu convivi com essa imagem a vida inteira. Não poderia nem dizer a primeira vez que a vi; é como se sempre tivesse feito parte da minha consciência e sempre me senti atraído por ela. Quando estive em Little Rock para outra reportagem e vi uma imagem de Elizabeth e Hazel juntas, agora duas adultas, sorrindo uma para outra e aparentemente reconciliadas, percebi que havia uma boa história ali. Como foi o processo entre a primeira e a segunda foto? Pensei que era uma trajetória importante para ambas personagens.
MC – Algumas reportagens afirmam que Elizabeth Eckford não era exatamente uma estudante politizada ou engajada na causa racial à época. O que a levou a enfrentar os colegas brancos daquele jeito?
DM –
 É verdade que Elizabeth não era politizada ou uma ativista. Nenhum estudante negro em Little Rock ou qualquer outro lugar do sul naquela época poderia ter sido uma das duas coisas em correr grande risco e Elizabeth tinha menos ainda esse perfil porque era muito tímida. Ela era uma boa estudante e tinha muita vontade de aprender. Ela sabia que teria uma melhor educação, que pudesse oferecer mais disciplinas e abrir mais portas no futuro, numa escola para brancos.
MC – Quais foram as consequências desse ato na vida dela posteriormente?
DM – 
O trauma que ela viveu aquele dia em Little Rock e durante o ano naquela recém-reintegrada escola nunca a abandonaria de verdade. Ela já era uma mulher frágil e a experiência a fez mais vulnerável. Por anos, ela sofreu com problemas emocionais e basicamente se recolheu, se desligou do mundo. Mais tarde, no entanto, sua capacidade de superação a tornou mais forte.
MC – Quanto a Hazel Bryan, que traumas a imagem que a tornou um símbolo da segregação trouxeram?
DM –
 Hazel nunca mais conseguiu se ver livre da foto e talvez nunca consiga: a imagem se tornou maior que ela. Mas a experiência a sensibilizou para a questão racial, fez ela olhar para dentro de si e abriu sua mente e coração. Então mesmo sabendo que jamais vai se ver livre da sombra dessa foto, ela passou os últimos 50 anos tentando expiar a culpa, muitas vezes trabalhando com pessoas negras em situação vulnerável ou tentando levar uma vida mais justa.
MC – Ela tinha apenas 15 anos na época. Quando acha que ela percebeu que tinha cometido um terrível erro?
DM –
 Como ela própria já explicou, ela começou a perceber de verdade quando viu imagens na televisão de negros sendo feridos agredidos em protestos no sul do país. Foi então que se deu conta de ter feito parte desse racismo e prometeu fazer algo em relação a isso. Foi quando chamou Elizabeth para um pedido de desculpas.
A CAPA DE "ELIZABETH AND HAZEL - TWO WOMEN OF LITTLE ROCK", QUE NARRA A VIDA DAS DUAS MULHERES APÓS A FOTO (FOTO: REPRODUÇÃO / YALE PRESS)
A CAPA DE “ELIZABETH AND HAZEL – TWO WOMEN OF LITTLE ROCK”, QUE NARRA A VIDA DAS DUAS MULHERES APÓS A FOTO (FOTO: REPRODUÇÃO / YALE PRESS)
MC – Como foi a reaproximação entre as duas?
DM –
 Ambas são muito inteligentes e, de certa maneira, individualistas: elas não têm muitos amigos e nunca foram muito próximas mesmo entre seus familiares. Então descobriram que gostavam da companhia uma da outra e, para surpressa de todos, se tornaram amigas genuínas.
MC – Por que elas romperam novamente depois?
DM –
 As diferenças entre elas –de formação, experiências de vida, atitudes e personalidades- se provaram muito grandes para serem superadas facilmente. Elizabeth, que é muito rigorosa e exigente consigo mesma e com os outros, começou a achar que Hazel não era imparcial o suficiente a respeito do que havia feito e do nível que sua família era responsável pelo que aconteceu. Hazel, por outro lado, se ressentia da desconfiança de Elizabeth. Ela disse ter se cansado de Elizabeth sempre estar testando sua sinceridade. Então pararam de se falar há alguns anos.
MC –  Durante sua pesquisa, houve alguma tentativa de encontro entre as duas?
DM –
 Eu não queria interferir na história sobre a qual estava escrevendo, então, até o final da minha pesquisa, nunca tentei convidar as duas para um encontro. Só quando o fotógrafo do projeto quis que as duas posassem juntas, nós falamos sobre o assunto. Elizabeth concordou em ser fotografada novamente, mas Hazel recusou e a novo foto das duas nunca foi feita. Eu espero muito que um dia, talvez quando ninguém estiver por perto, elas se reaproximem novamente. Sei que a despeito de tudo ainda se gostam e sentem falta uma da outra.
MC – Você diz, no vídeo de divulgação do livro, que a foto permanece como uma metáfora da luta para superar o racismo nos EUA. Quais são os desafios de hoje em relação à época?
DM –
 As coisas realmente estão melhores hoje do que em 1957, quando a segregação era lei. Flagrantes de discriminação em instituições de ensino, lugares públicos, no serviço militar etc hoje são crimes. Mas claro que o preconceito racial ainda é um problema enorme nos Estados Unidos, em parte porque hoje é muito mais sutil e difícil de detectar.
MC – Aqui no Brasil, a foto foi lembrada quando da chegada dos primeiros médicos cubanos para um participar de um programa do governo federal, que foi alvo de protestos de médicos brasileiros. A imagem de uma médica branca gritando “Escravo!” para um colega cubano foi comparada com a de Elizabeth e Hazel. Você vê diferenças entre o racismo ainda presente nos EUA e no Brasil?
DM –
 Sei que as relações raciais tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, embora tenham raízes comuns no comércio de escravos europeu, evoluíram de formas muito diferentes. No entanto, por mais que já tenha estado no Brasil, não acho que consiga comparar o tipo de racismo dos dois países. É uma situação difícil de compreender mesmo aqui.


Geledés Instituto da Mulher Negra


Leia a matéria completa em: Livro investiga trajetória de mulheres flagradas em foto símbolo da segregação racial nos EUA - Geledés 
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