segunda-feira, 16 de outubro de 2017

'Capoeira gospel' cresce e gera tensão entre evangélicos e movimento negro Associando a arte afrobrasileira a músicas de louvor cristão, religiosos sofrem resistência dentro e fora das igrejas.

Associando a arte afrobrasileira a músicas de louvor cristão, religiosos sofrem resistência dentro e fora das igrejas.

'O berimbau vai aonde o terno não chega': a capoeira gospel une a arte brasileira à religião evangélica (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
O berimbau vai aonde o terno não chega': a capoeira gospel une a arte brasileira à religião evangélica (Foto: BBC Brasil/Reprodução)

Estavam presentes o berimbau, o atabaque, a ginga e os saltos mortais.
Quase tudo fazia lembrar um jogo de capoeira típico, mas, em vez dos
cânticos que enaltecem os orixás ou trazem referências à cultura negra, os versos faziam louvor a Jesus Cristo e a roda era alternada com momentos
de pregação e oração.

"Não deixa seu barco virar, não deixa a maré te levar, acredite no Senhor,
só ele é quem pode salvar", cantavam as cerca de 200 pessoas, reunidas
na quadra de uma escola para o "1º Encontro Cristão de Capoeira do Gama" (região administrativa do Distrito Federal), numa tarde de sábado.

Era mais um evento de capoeira evangélica, também chamada de capoeira gospel, vertente que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, principalmente
por meio da palavra e do gingado de antigos mestres que se converteram à religião. Se antes a prática enfrentava resistência dentro de igrejas, agora,
nessa nova roupagem, é cada vez mais considerada uma eficiente
ferramenta de evangelização.

"Hoje é difícil você ir numa roda que não tenha um (capoeirista evangélico), e vários capoeiristas viraram pastores. É um instrumento lindo de evangelização porque é alegre, descontraído, traz saúde, benefícios sociais", afirma Elto de Brito, seguidor da Igreja Cristã Evangélica do Brasil e um dos palestrantes do evento.

Praticante de capoeira há 40 anos e convertido há 25, Suíno é líder do movimento "Capoeiristas de Cristo", que estima reunir cerca de 5 mil pessoas
no país. Ele realiza encontros nacionais em Goiânia há 13 anos - a edição
de 2018 será pela primeira vez em Brasília.

O mestre calcula ainda que já existem cerca de 30 "ministérios" de
capoeira, ou seja, grupos diretamente ligados a igrejas. "Há um cuidado
para não chocar com as visões da igreja. Cuidado com a roupa, com
o linguajar, com as músicas, mas que "não necessariamente tem que
ser só música que fala de evangelho, de Deus", explica.
Crescimento da capoeira 'gospel' tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o movimento negro (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Crescimento da capoeira 'gospel' tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o
movimento negro (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Críticas
O crescimento da prática, porém, tem gerado incômodo entre capoeiristas tradicionalistas e o movimento negro, que veem na novidade uma forma de apropriação cultural e apagamento da raiz afrobrasiliera da capoeira, prática que surgiu como forma de resistência entre escravos, a partir do século 18.
Eles também reclamam que em algumas dessas rodas haveria discursos
de "demonização" contra a capoeira tradicional e as religiões do candomblé
e da umbanda.
O Colegiado Setorial de Cultura Afrobrasileira, que faz parte do Conselho Nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, chegou a divulgar
em maio a "Carta de repúdio à 'capoeira gospel' e à expropriação das expressões culturais afrobrasileiras".

'O pastor com berimbau chega aonde o pastor de terno não chega', diz a professora de capoeira Laís Dutra (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
O pastor com berimbau chega aonde o pastor de terno não chega', diz a professora de capoeira Laís Dutra (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
O documento, uma reação ao 3º Encontro Nacional de Capoeira Gospel
convocado para junho deste ano, em João Pessoa (PB), reconhece que seguidores de qualquer credo podem praticar capoeira, mas cobra
"respeito" a sua tradição.
"Temos lutado contra o racismo em suas diversas e perversas
manifestações. A demonização perpetrada por pastores, mestres ou
professores de 'capoeira gospel', ensinando o ódio e a intolerância
contra as raízes da capoeira e contra seus praticantes não evangélicos,
é um crime de ódio que fere a liberdade e a dignidade humana",
diz a carta.
Patrimônio
A capoeira, que no passado chegou a ser proibida, recebeu em 2014
o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco,
órgão da ONU para educação. O Iphan, órgão responsável por sua "salvaguarda" no Brasil, reconhece em documento sua "ligação com
práticas ancestrais africanas".
A antropóloga Maria Paula Adinolfi, técnica do Iphan, diz que
"não é possível impedir a capoeira gospel", mas explica que o órgão
está focado em "fortalecer ações que vinculam a capoeira à
matriz africana" como "uma política de reparação do processo
de apagamento da memória afrobrasileira e de genocídio do povo negro".

Capoeira chegou a ser proibida no passado e, em 2014, recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Capoeira chegou a ser proibida no passado e, em 2014, recebeu o título de Patrimônio Cultural
Imaterial da Humanidade da Unesco (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Organizador do evento na Paraíba, Ricardo Cerqueira, o contramestre
Baiano, recebeu, além da carta de repúdio, algumas ligações com
críticas e até mesmo ameaças de processo. Seguidor da Igreja
Batista, ele diz reverenciar os grandes mestres da capoeira, como
os baianos Bimba, Pastinha e Waldemar, já falecidos, mas argumenta
que a "capoeira não pertence à cultura africana".
"O país é laico. Acho que cada um tem liberdade para fazer a sua
capoeira da forma que quiser", defendeu.
"Colocamos o nome gospel sem intenção de descaracterizar a
capoeira, até porque nós usamos todos os instrumentos e cantamos
também música secular", disse ainda.
Diferenças
Além das músicas e orações, mais alguns detalhes diferenciam
a capoeira evangélica da "capoeira do mundo", explicou à
reportagem Gilson Araújo de Souza, pastor evangélico e
mestre capoeirista em Manaus.

Mestre Suíno calcula ainda que já existem cerca de 30 'ministérios' de capoeira, ou seja, grupos diretamente ligados a igrejas (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Mestre Suíno calcula ainda que já existem cerca de 30 'ministérios' de capoeira, ou seja,
grupos diretamente ligados a igrejas (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Em geral, rodas evangélicas não chamam a troca de corda de
"batismo" porque o termo deve ser usado apenas no seu sentido
religioso, de se converter e receber o Espírito Santo. Além disso,
alguns capoeiristas também evitam o uso de apelidos, que, segundo
Souza, tem origem na época que a capoeira era perseguida.
"No mundo cristão, Deus nos chama pelo nome. Antes, eu era
conhecido como mestre Gil Malhado, hoje sou chamado de mestre
pastor Gilson. Não preciso me camuflar", explica ele, que faz
parte da Igreja de Cristo Ministério Apostólico.

Adoção do termo
Adoção do termo "gospel" serve para quebrar resistências, diz mestre de
capoeira (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
"Anos atrás, eu enfrentei muita dificuldade para levar a capoeira
para a igreja. O pastor batia a porta na minha cara, dizia que
era coisa da macumba, que não podia. Hoje eu sou pastor e
as portas se abriram", conta também.
Segundo o mestre Suíno, a adoção do termo "gospel" fez parte
desse processo de quebrar resistências. Era uma forma, observa,
de convencer os pastores que a capoeira podia ser praticada
dentro dos valores cristãos.
Hoje ele próprio repudia esse "rótulo" por causa da polêmica
que tem gerado. Suíno afirma que, apesar de haver algumas
práticas próprias da capoeira cristã, sua "essência" de
capoeira é a mesma.
"Não existe capoeira gospel! Não queremos bagunçar a capoeira.
Nós respeitamos os mestres, respeitamos os fundamentos da
capoeira, respeitamos as tradições, e vamos defender porque
quem não defende a capoeira não tem direito de ser capoeirista",
discursou, empolgado, durante o evento no Gama, cujo lema
era "minha cultura não atrapalha a minha fé".
Constante mutação

Alguns mestres de capoeira acusam capoeiristas evangélicos de apagar a raiz africana dessa arte brasileira (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Alguns mestres de capoeira acusam capoeiristas evangélicos de apagar a raiz
africana dessa arte brasileira (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Diante da polêmica, o historiador da capoeira Matthias Röhrig
Assunção ressalta que a prática já passou por muitas
transformações desde seu surgimento.
Hoje, há três vertentes principais: a angola (mais lenta e gingada,
tida como a mais próxima da "original"), a regional
(mais acelerada, que incorpora movimentos de lutas marciais)
e a contemporânea - uma mistura das duas primeiras que
surgiu no Sudeste a partir dos anos 70 e foi o estilo
que conquistou o mundo.
"Acho que capoeira tradicional não existe mais, todos
(os estilos) são modernizados", resume Assunção,
que é professor do departamento de história da
Universidade de Essex, na Inglaterra.
Capoeira enfrentava resistência dentro de igrejas, agora, com nova roupagem, é cada vez mais considerada ferramenta de evangelização (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Capoeira enfrentava resistência dentro de igrejas, agora, com nova roupagem,
é cada vez mais considerada ferramenta de evangelização (Foto: BBC Brasil/Reprodução)
Embora não simpatize com a ideia de uma capoeira
evangélica, o professor afirma que não se trata do
primeiro processo de "apropriação" da prática.
"A capoeira gospel me parece ser mais uma estratégia
desses grupos religiosos de ocuparem espaços e de ganhar
adeptos, mas não vejo como parar isso, não tem como
proibir", observou.
"Historicamente, houve muitas apropriações da capoeira.
Há uma apropriação nacionalista forte, rodas no exterior
com as bandeiras do Brasil, o verde e o amarelo, por exemplo,
m que a origem da capoeira, a história de resistência e a
ligação com os africanos escravizados muitas vezes não
têm destaque algum", pondera.

Fonte: G1 DF/BBC/Brasil

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Narrativa e Cidadania - África Brasil 2017 - Universidade Estadual do Piauí





Escravidão, e não corrupção, define sociedade brasileira, diz Jessé Souza

RESUMO Autor argumenta que a visão do brasileiro como vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto decorre de uma leitura liberal, conservadora e equivocada de nosso passado. Para ele, é preciso reinterpretar a história do Brasil tomando a escravidão como o elemento definitivo que nos marca como sociedade até hoje.



Quem sintetizou a interpretação dominante do Brasil, que todos aprendemos nas escolas e nas universidades, foi Gilberto Freyre (1900-87). É a ideia de que viemos de Portugal e que de lá herdamos um jeito específico de ser. Para o autor de "Casa-Grande e Senzala" e para seguidores como Darcy Ribeiro(1922-97), essa herança era positiva ou, pelo menos, ambígua.

Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), outro filho de Freyre, reinterpreta a ideia como pura negatividade em registro liberal. Cria, assim, o brasileiro como vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto. Tal visão prevaleceu, e quase todos a seguem, de Raymundo Faoro (1925-2003), Fernando Henrique Cardoso e Roberto DaMatta  a Deltan Dallagnol e Sergio Moro.

Essa é a única interpretação totalizante da sociedade brasileira que existe até hoje.
Reprodução



Reprodução - Obra de Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

A "esquerda", entendida como a perspectiva que contempla os interesses da maioria da sociedade, jamais construiu alternativa a essa leitura liberal e conservadora. Existem contribuições tópicas geniais, mas elas esclarecem fragmentos da realidade social, não a sua totalidade, permitindo que, por seus poros e lacunas, penetre a explicação dominante.

A ausência de interpretação própria fez com que a esquerda sempre fosse dominada pelo discurso do adversário. Reescrever essa história é a ambição de meu novo livro, "A Elite do Atraso - Da Escravidão à Lava Jato" [Leya, 240 págs., R$ 44,90]. O fio condutor é a ideia de que a escravidão nos marca como sociedade até hoje —e não a suposta herança de corrupção, como se convencionou sustentar.

Para Faoro, por exemplo, a história do Brasil é a história da corrupção transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado. Nessa narrativa, senhores e escravos raramente aparecem e nunca têm o papel principal.

Essa abordagem seria apenas ridícula se não fosse trágica. Faoro imagina a semente da corrupção já no século 14, em Portugal, quando não havia nem sequer a concepção de soberania popular, que é parteira da noção moderna de bem público. É como ver um filme sobre a Roma antiga cheio de cenas românticas que foram inventadas no século 18. Não obstante, o país inteiro acredita nessa bobagem.

ESCRAVIDÃO

Os adeptos dessa interpretação dominante parecem não se dar conta de que, em uma sociedade, cada indivíduo é criado pela ação diária de instituições concretas, como a família, a escola, o mundo do trabalho.

No Brasil Colônia, a instituição que influenciava todas as outras era a escravidão (que não existia em Portugal, a não ser de modo tópico). Tanto que a (não) família do escravo daquele período sobrevive até hoje, com poucas mudanças, na (não) família das classes excluídas: monoparental, sem construir os papéis familiares mais básicos, refletindo o desprezo e o abandono que existiam em relação ao escravo.

Também no mundo do trabalho a continuidade impressiona. A "ralé de novos escravos", mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta.

Em outras palavras, os estratos de cima roubam o tempo dos de baixo e o investem em atividades rentáveis, ampliando seu próprio capital social e cultural (com cursos de idiomas e pós-graduação, por exemplo) e condenando a outra classe à reprodução de sua miséria.

A classe que chamo provocativamente de ralé é uma continuação direta dos escravos. Ela é hoje em grande parte mestiça, mas não deixa de ser destinatária da superexploração, do ódio e do desprezo que se reservavam ao escravo negro. O assassinato indiscriminado de pobres é atualmente uma política pública informal de todas as grandes cidades brasileiras.

A nossa elite econômica também é uma continuidade perfeita da elite escravagista. Ambas se caracterizam pela rapinagem de curto prazo. Antes, o planejamento era dificultado pela impossibilidade de calcular os fatores de produção. Hoje, como o recente golpe comprova, ainda predomina o "quero o meu agora", mesmo que a custo do futuro de todos.

É importante destacar essa diferença. Em outros países, as elites também ficam com a melhor fatia do bolo do presente, mas além disso planejam o bolo do futuro. Por aqui, a elite dedica-se apenas ao saque da população via juros ou à pilhagem das riquezas naturais.

INTERMEDIÁRIAS

Historicamente, a polarização entre senhores e escravos em nossa sociedade permaneceu até o alvorecer do século 20, quando surgiram dois novos estratos por força do capitalismo industrial: a classe trabalhadora e a classe média.

Em relação aos trabalhadores, a violência e o engodo sempre foram o tratamento dominante. Com a classe média, porém, a elite se viu contraposta a um desafio novo.

A classe média não é necessariamente conservadora. Tampouco é homogênea. O tenentismo, conhecido como nosso primeiro movimento político de classe média, na década de 1920, já revelava essas características, pois abrigava múltiplas posições ideológicas.

A elite paulistana, tendo perdido o poder político em 1930, precisava fazer com que a heterodoxia rebelde da classe média apontasse para uma única direção, agora em conformidade com os interesses das camadas mais abastadas. Como naquele momento os endinheirados de São Paulo não controlavam o Estado, o caminho foi dominar a esfera pública e usá-la como arma.

O que estava em jogo era a captura intelectual e simbólica da classe média letrada pela elite do dinheiro, para a formação da aliança de classe dominante que marcaria o Brasil dali em diante.

O acesso ao poder simbólico exige a construção de "fábricas de opiniões": a grande imprensa, as grandes editoras e livrarias, para "convencer" seu público na direção que os proprietários queriam, sob a máscara da "liberdade de imprensa" e de opinião.

A imprensa, todavia, só distribui informação e opinião. Ela não cria conteúdo. A produção de conteúdo é monopólio de especialistas treinados: os intelectuais. A elite paulistana, então, constrói a USP, destinando-a a ser uma espécie de gigantesco "think tank" do liberalismo conservador brasileiro, de onde saem as duas ideias centrais dessa vertente: as noções de patrimonialismo e de populismo.

LAVA JATO

Enquanto conceito, o patrimonialismo procede a uma inversão do poder social real, localizando-o no Estado, não no mercado. Abre-se espaço, assim, para a estigmatização do Estado e da política sempre que se contraponham aos interesses da elite econômica. 

Nesse esquema, a classe média cooptada escandaliza-se apenas com a corrupção política dos partidos ligados às classes populares.

A noção de populismo, por sua vez, sempre associada a políticas de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a importância da soberania popular como critério fundamental de uma sociedade democrática —afinal, como os pobres ("coitadinhos!") não têm consciência política, a soberania popular sempre pode ser posta em questão.

É impressionante a proliferação dessa ideia na esfera pública a partir da sua "respeitabilidade científica" e, depois, pelo aparato legitimador midiático, que o repercute todos os dias de modos variados.

As noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua tropa de choque.

Essas noções legitimam a aliança antipopular construída no Brasil do século 20 para preservar o privilégio real: o acesso ao capital econômico por parte da elite e o monopólio do capital cultural valorizado para a classe média. É esse pacto que permite a união dos 20% de privilegiados contra os 80% de excluídos.

A atual farsa da Lava Jato é apenas a máscara nova de um jogo velho que completa cem anos.

Em conluio com a grande mídia, não se atacou apenas a ideia de soberania popular, pela estigmatização seletiva da política e de empresas supostamente ligadas ao PT —o saque real, obra dos oligopólios e da intermediação financeira, que capturam o Estado para seus fins, ficou invisível como sempre. Destruiu-se também, com protagonismo da Rede Globo nesse particular, a validade do próprio princípio da igualdade social entre nós.

O ataque seletivo ao PT, de 2013 a 2016, teve o sentido de transformar a luta por inclusão social e maior igualdade em mero instrumento para um fim espúrio: a suposta pilhagem do Estado.

Desqualificada enquanto fim em si mesma, a demanda pela igualdade se torna suspeita e inadequada para expressar o legítimo ressentimento e a raiva que os excluídos sentem, mas que agora não podem mais expressar politicamente.

Assim, abriu-se caminho para quem surfa na destruição dos discursos de justiça social e de valores democráticos —Jair Bolsonaro como ameaça real é filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo.

O pacto antipopular das classes alta e média não significa apenas manter o abandono e a exclusão da maioria da população, eternizando a herança da escravidão. Significa também capturar o poder de reflexão autônoma da própria classe média (assim como da sociedade em geral), que é um recurso social escasso e literalmente impagável.

JESSÉ SOUZA, 57, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), é autor de "A Tolice da Inteligência Brasileira" e "A Radiografia do Golpe" (Leya), além de professor de sociologia da UFABC
Fonte: Folhauol


Por que 11 países africanos estão construindo uma muralha de árvores




Imagem relacionada
fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Liberia_tropical_forest.jpg

A África está construindo um muro gigante de árvores.

A barreira cruza o continente de leste a oeste –e o território de 11 países– e faz parte de uma tentativa de mitigar os efeitos de mudanças climáticas.

O plantio de árvores teve início em 2007 e o objetivo é fazer com que o muro atinja 8.000 km de comprimento e 15 km de largura.

Até agora, Senegal é o país que fez o maior progresso, com 11 milhões de árvores.
De acordo com Absaman Moudouba, líder de um vilarejo do sul do país que fica nas cercanias da chamada Grande Muralha Verde, o projeto está revertendo a desertificação.

"Quando não havia árvores, o vento escavava e desgastava o solo. Mas está mais protegido agora. As folhas viram compostagem e a sombra aumenta a umidade do ambiente. Assim, há menos necessidade de água", afirma.

"Antes, havia fome e seca generalizadas aqui. Então, começou a plantação de árvores e depois um jardim onde as mulheres fazem a cultura agrícola. Antes, as pessoas costumavam migrar, mas agora elas só seguem a linha da Grande Muralha Verde em busca de emprego. Elas não partem mais", diz Moudouba.


O projeto começou em 2007 e o custo estimado é de U$ 8 bilhões (R$ 25 bilhões). Apesar de estar anos distante de ser finalizado, o Banco Mundial, a ONU, a União Africana e os Jardins Botânicos do Reino Unido seguem na busca de fundos para continuar o plantio. 
Fonte: BBC/ Folhauol

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Contos africanos - A gazela e o caracol

contos africanos


Uma gazela encontrou um caracol e disse-lhe:
__ Tu, caracol, és incapaz de correr, só te arrastas pelo chão.
O caracol respondeu:
__ Vem cá no Domingo e verás!
O caracol arranjou cem papéis e em cada folha escreveu: «Quando vier a gazela e disser “caracol”, tu respondes com estas palavras: “Eu sou o caracol”».
Dividiu os papéis pelos seus amigos caracóis dizendo-lhes:
__ Leiam estes papéis para que saibam o que fazer quando a gazela vier. No Domingo a gazela chegou à povoação e encontrou o caracol.
Entretanto, este pedira aos seus amigos que se escondessem em todos os caminhos por onde ela passasse, e eles assim fizeram.
Quando a gazela chegou, disse:
__ Vamos correr, tu e eu, e tu vais ficar para trás! O caracol meteu-se num arbusto, deixando a gazela correr.
Enquanto esta corria ia chamando:
__ Caracol!
E havia sempre um caracol que respondia:
__ Eu sou o caracol. Mas nunca era o mesmo por causa das folhas de papel que foram distribuídas.
A gazela, por fim, acabou por se deitar, esgotada, morrendo com falta de ar. O caracol venceu, devido à esperteza de ter escrito cem papéis.
Fonte: Gelèdes

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Programa de Igualdade Racial lançado em Campo Grande nesta terça-feira.

Aconteceu nesta terça-feira (26), às 20h, em Campo Grande, o lançamento do programa de igualdade racial "Respeito Dá o Tom", da empresa Aegea, holding da Águas Guariroba, que tem o objetivo de contribuir na redução da desigualdade racial e dar amplitude para a diversidade étnico-racial em todo Brasil.
O evento reunirá autoridades municipais e estaduais, empresários, artistas, lideranças de movimentos de luta pelos direitos da população negra. Haverá exposição de artes plásticas, música e ações de conscientização sobre o tema.
Na ocasião, a Aegea receberá o selo “Sim à Igualdade Racial”, do ID-BR (Instituto Identidades do Brasil), uma organização sem fins lucrativos que atua na promoção de direitos humanos e na luta pela igualdade racial da população negra, através da inserção no mercado de trabalho.
Segundo Luana Génot, diretora-executiva do ID-BR, a realidade acerca do incentivo de pessoas negras no mercado do trabalho é discrepante em relação à pessoas brancas. Tudo isso passa por questões de educação, transparência, combate ao racismo, mas também alcança o incentivo das empresas a treinarem e absorverem essas pessoas em suas equipes. 

Por isso o selo é dado às empresas que promovem essa integração. "Este é um momento muito especial, que demonstra que a mensagem em prol da igualdade racial está alcançando o Brasil para além do eixo Rio – São Paulo, sobretudo com a aderência de uma das maiores empresas de saneamento do país, como é a Aegea”, afirma Luana.

SERVIÇO - 
O lançamento do programa "Respeito Dá o Tom" acontece nesta terça, às 20h, no Yodety da Rua Antônio Maria Coelho, 6.200, Parque das Nações Indígenas
Daiane Llibero
Fonte: Midiamax

De mãe - Conceição Evaristo

De mãe
O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe,
mulher de pôr reparo nas coisas,
e de assuntar a vida.
A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe,
mulher prenhe de dizeres,
fecundados na boca do mundo.
Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo.
Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.
Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.
Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala.
Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...