terça-feira, 3 de junho de 2014

MEC oferece 6.825 vagas em cursos de inglês em universidades federais

As inscrições para os cursos presenciais do programa Inglês sem Fronteiras poderão ser realizadas entre os dias 9 de junho e 2 de julho, pelo site www.isf.mec.gov.br. Serão ofertadas 6.825 vagas em 43 universidades federais.

As inscrições poderão ser realizadas por:

- alunos de graduação, de mestrado ou de doutorado, com matrículas ativas nas universidades federais credenciadas como NucLi (Núcleo de Línguas);
- alunos participantes e ativos no curso My English Online, cujas inscrições tenham sido validadas com até 48 horas de antecedência à inscrição junto ao NucLi;
- alunos que tenham concluído até 90% do total de créditos de seu curso.

Terão prioridade na ocupação das vagas os alunos de graduação de cursos elegíveis ao Ciência sem Fronteiras e estudantes que tenham feito o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a partir de 2010 e tenham obtido ao menos 600 pontos na prova, incluindo a redação.

Segundo texto publicado pelo MEC (Ministério da Educação) no Diário Oficial, os cursos terão a duração mínima de 16 horas e máxima de 64 horas, a depender da proposta pedagógica de cada NucLi e das especificidades locais. As aulas terão início a partir de 14 de julho deste ano.

O programa

O Inglês sem Fronteiras surgiu para suprir a carência do ensino da língua inglesa no país, que levou muitos estudantes a escolherem Portugal como destino no Ciência sem Fronteiras. Até 2012, um em cada cinco estudantes que participaram do programa optou por cursar parte do ensino superior em uma instituição lusitana. Em uma medida extrema, o governo suspendeu, no ano passado, a parceria com o país.
Fonte: Midiamax

Machismo torna furacões com nome de mulher mais letais, diz estudo

Os furacões com nomes femininos podem matar três vezes mais porque as pessoas os percebem como menos ameaçadores do que as tempestades com nomes masculinos, afirmam cientistas nesta segunda-feira.

Os furacões são nomeados segundo uma ordem pré-determinada e alternada que não tem nada a ver com a força da tempestade. Os cientistas desenvolveram este sistema nos anos 1970 para evitar uma percepção influenciada por gênero.

Contudo, o resultado foi letal, segundo um estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, que abrangeu mais de seis décadas de furacões atlânticos.

Pesquisadores da Universidade de Illinois analisaram dados sobre as fatalidades relacionadas a cada furacão que tocou terra nos Estados Unidos entre 1950 e 2012.

"Comparativamente, estima-se que um furacão com nome masculino cause 15,15 mortes, enquanto se calcula que um furacão com nome feminino cause 41,84 mortes", destacou o estudo.

"Em outras palavras, nosso modelo sugere que mudar o nome de um furacão severo de Charley para Eloise pode triplicar sua letalidade", acrescentou.

Os cientistas desconsideraram duas grandes tempestades em suas análises - os furacões Katrina (2005) e Audrey (1957) - porque mataram um grande número de pessoas e poderiam distorcer os resultados.

"Ao julgar a intensidade de uma tempestade, as pessoas parecem aplicar suas crenças sobre o comportamento masculino e feminino", explicou o co-autor do estudo, Sharon Shavitt, professor de marketing.

"Com isto, um furacão com nome de mulher, especialmente um com um nome muito feminino, como Belle ou Cindy, parece mais suave ou menos violento", prosseguiu.

"Esta é uma descoberta muito importante", disse Hazel Rose Markus, professor em ciência comportamental na Universidade de Stanford, que não participou do estudo.

"Isto demonstra que nossas associações com base cultural determinam nossos passos", prosseguiu.
Antes da decisão de dar nomes alternados feminino e masculino, os furacões só recebiam nome de mulher, uma prática surgida da crença de que as tempestades, assim como as mulheres, seriam imprevisíveis.
Fonte: midiamax

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Clubes negros entram em processo de tombamento em SP



Divulgação/Centro de Memória de Jundiaí
Criados como locais de resistência, espaços prestavam serviços de apoio à comunidade afrodescendente como auxílio funerário, de saúde e arrecadação de fundos para garantir alforrias 

26/05/2014
Da Redação
Foi aprovado, durante reunião do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), na segunda-feira passada (19), a abertura do processo de tombamento de três clubes negros no Estado de São Paulo.
Considerados locais de resistência ao preconceito e espaço de lazer e interação entre negros no final do século XIX, o Grêmio Recreativo Familiar Flor de Maio, de São Carlos, a Sociedade Beneficente 13 de Maio, de Piracicaba, e o Clube Beneficente Cultural e Recreativo 28 de Setembro, de Jundiaí, são elementos importantes para a história social e cultural da formação da sociedade paulista.
Além de serem pontos de entretenimento, já que os negros da época eram impedidos de entrar nos locais convencionais de lazer, os clubes prestavam serviços de apoio à comunidade afrodescendente como auxílio funerário, de saúde e arrecadação de fundos para garantir alforrias. 
Ana Lúcia Lanna, presidente do Conselho, elogiou o relatório que pediu o tombamento. “É preciso romper com a ideia de que apenas monumentos podem ser tombados e reconhecer também as práticas sociais, culturais e políticas". 
Já o professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal da Grande Dourados (MS) e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Márcio Mucedula Aguiar, colheu relatos sobre o Flor de Maio e reforçou que o local "é patrimônio que mostra a resistência, poucos anos após a abolição, ao preconceito e a luta por direitos".
No parecer que defende o tombamento, aprovado por unanimidade, Heitor Frúgoli Júnior, do Departamento de Antropologia da USP, afirma que o processo "auxilia potencialmente" os clubes e pode atrair "gerações mais jovens nas lutas coletivas afrodescendentes pela expansão de seus direitos na realidade contemporânea". 
Um dos mais antigos clubes negros do país, o 28 de Setembro, é um dos poucos em SP que, apesar de ter perdido muitos sócios, ainda consegue manter as atividades e as portas abertas. 
"Não é fácil, perdemos muitos sócios nos últimos anos, mas seguimos em frente com bailes para a terceira idade e eventos para a comunidade black. Até hoje, conseguimos reunir os negros, mas o clube é aberto a todos", conta o presidente Edval Francisco Honório.
Com informações da Folha de S. Paulo

ANGÉLIQUE KIDJO DIZ QUE MULHERES INSTRUÍDAS MUDARÃO ÁFRICA "PARA SEMPRE"




A cantora beninense Angélique Kidjo, que actua na quinta-feira no Rock in Rio Lisboa, quer alterar a perceção que o mundo tem das mulheres africanas e acredita que as jovens com instrução "mudarão o continente para sempre".
Em entrevista à agência Lusa, dias antes do regresso a Portugal - para um concerto naquele festival com o músico português Rui Veloso e o brasileiro Lenine -, Angélique Kidjo não separou, no seu discurso, nenhuma das suas facetas: a música, o activismo, a condição feminina e as origens africanas. E mostrou-se atenta à música lusófona.
Por considerar que África a apoiou no começo da carreira, nos anos 1980, Angélique Kidjo diz hoje, com 53 anos, que quer retribuir o melhor que puder: "Quando se é um músico africano, não se pode ignorar o sofrimento do seu próprio continente. O último desafio da Humanidade é melhorar a vida do povo africano".
Angélique Kidjo deverá passar esta mensagem no concerto em Lisboa, que incluirá repertório da artista, assim como de Rui Veloso e Lenine, estando reservadas algumas surpresas. A artista não exclui cantar em português, por já ter interpretado antes repertório da música brasileira.
Em Lisboa, a cantora não deverá ter tempo para tomar contacto com a música local ou com as comunidades luso-africanas, mas disse estar muito atenta à música lusófona" - "por exemplo, adoro Bonga" - e declarou: "Eu penso que a música ajudou Portugal e Angola a compreenderem-se melhor".
Embaixadora da UNICEF há mais de dez anos, Angélique Kidjo criou ainda a The Batonga Foundation, uma organização que apoia e incentiva jovens adolescentes africanas a prosseguirem os estudos secundários e universitários.
A fundação trabalha em países como o Mali, o Benin, a Etiópia e a Serra Leoa e Angélique Kidjo espera que este movimento de consciencialização para o valor da educação nas mulheres se estenda a outros países de África, como a Nigéria.
Sobre este país, a cantora tem-se desdobrado em acções de alerta internacional para o caso do rapto das 200 adolescentes, há um mês, pelo grupo radical islâmico Boko Haram.
"No início quase ninguém queria saber, até que algumas celebridades começaram a falar no assunto, e aí a situação começou a mudar. Eu não tenho a certeza que possa ajudar neste caso, porque a situação é muito complexa, mas pelo menos chamou-se a atenção para isto: É preciso melhorar o acesso das raparigas africanas à educação".
Depois do festival Rock in Rio Lisboa, Angélique Kidjo voltará em Julho a Portugal para atuar no Festival Músicas do Mundo de Sines.
Aí terá oportunidade de apresentar o novo espectáculo, assente no disco "EVE", editado este ano, dedicado à mãe "e a todas as mulheres africanas, à sua beleza e resiliência".
Fonte: http://banda.sapo.ao/novidades/angelique-kidjo-diz-que-mulheres-instruidas-mudarao-africa-para-sempre

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Conheça os B-stylers!

Desiré van den Berg registrou o estilo de vida e o visual dos B-stylers!


Desiré van den Berg registrou o estilo de vida e o visual dos B-stylers!
Você já ouviu falar nos B-stylers? No ano passado a fotógrafa holandesa Desiré van den Berg passou 7 meses viajando pela Ásia e em sua viagem a Tóquio ela conheceu a tribo. O grupo de japoneses faz de tudo pra ter o visual e o estilo de vida dos afro-americanos, com nome que vem da junção das palavras black elifestyle!
Beyoncé e Jay Z: Amor bandido – assista!
Desiré conheceu Hina entre os integrantes do B-stylers, que além de adepta de bronzeamentos artificiais semanais, lentes de contato em tom de castanho mais claro (pra abrir o olhar) e dos penteados trançados tipicamente usados pelos dançarinos de hip-hop americanos, tem uma loja no Japão toda voltada pra quem segue a onda. Além das características físicas, eles se apropriam das gírias, ouvem as músicas e frequentam baladas fiéis ao gênero. Apesar de pouco numerosos no país, se destacam pelo visual e descrevem todo esse estilo como uma homenagem aos negros dos EUA
Fonte: http://msn.lilianpacce.com.br/moda/conheca-os-b-stylers/

Aumenta participação de mulheres no mercado de trabalho, constata IBGE

A participação das mulheres no grupo de pessoas ocupadas nas 5,2 milhões de empresas e outras organizações formais ativas no país registrou alta de 3,2% entre 2011 e 2012 – crescimento de 1,5 ponto percentual em relação ao aumento da participação dos homens no período (1,7%). Além disso, a participação feminina na variação de pessoal ocupado assalariado, de um ano para outro, foi pela primeira vez superior à presença masculina. Enquanto os homens somaram 41,5% (438,9 mil pessoas), as mulheres, 58,5% (619,8 mil pessoas).

Essa melhoria da participação das mulheres no mercado de trabalho também ocorreu em termos salariais. Embora em 2012 os homens tenham recebido, em média, R$ 2.126,67, e as mulheres, R$ 1.697,30, a pesquisa constatou, em relação a 2011, que em 2012 os salários das mulheres tiveram um aumento real superior ao dos homens: 2,4% contra 2%.

A informação consta da pesquisa Cadastro Central de Empresas (Cempre), que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga hoje (28), com informações cadastrais e econômicas de empresas e outras organizações formalmente constituída no país.

No setor público, as mulheres já vêm ocupando a maioria dos postos de trabalho, como explicou o gerente da pesquisa, Bruno Erbisti Garcia. Segundo ele, "58,9% das pessoas ocupadas na administração pública são mulheres e 41,1% são homens”.

Os dados da pesquisa, ao analisar a escolaridade, indicam que apenas 17,7% haviam cursado nível superior. O pessoal assalariado com nível superior cresceu 6%, enquanto o pessoal assalariado sem nível superior cresceu apenas 1,6%. A média salarial de quem cursou faculdade chegou, em média, a R$ 4.405,55, enquanto o pessoal sem nível superior recebou R$ 1.398,74 – diferença de 215%.

A administração pública é o local onde há o maior predomínio de pessoal assalariado com nível superior: 35,8% em 2009 e 41,3% em 2012. “É possível observar, ao longo dos anos, aumento na participação dos assalariados com nível superior em todas as naturezas jurídicas. Nas entidades sem fins lucrativos, esse percentual subiu de 25,9%, em 2009, para 27,3% em 2012”.
Fonte: Midiamax

Em tempos de copa do mundo - O poeta e o passado de Mário Filho

Augusto Frederico Schmidt cruzou as mãos sobre a barriga, um Buda de paletó na tribuna de honra. E se ele ganhasse a aposta? A bola andava de um lado para o outro, um passarinho veio, não se sabe de onde, pousou no campo, bem defronte da gente. Era um passarinho preto, talvez uma graúna. Augusto Frederico Schmidt viu o passarinho, o passarinho catava comida na grama, indiferente a tudo. O Flamengo e o Vasco se matando em campo e o passarinho nada. Augusto Frederico Schmidt imaginou logo uma história. O passarinho fugira de uma gaiola, estava acostumado à prisão. Por que ele não voava, não fugia dali? Era verdade que aquele verde devia lembrar-lhe as campinas sem fim. Se não fossem os jogadores, 22 homens de calções curtos, de chuteiras, correndo feito loucos atrás de uma bola, o passarinho dificilmente encontraria um lugar que lhe desse tamanha sensação de paz, de liberdade. A grama muito verde, o sol manso, uma brisa que mal agitava as bandeiras do Botafogo. "O passarinho está tonto" - Augusto Frederico Schmidt, como poeta do Pássaro cego, sentia-se moralmente obrigado a olhar para o passarinho, a esquecer-se até que era dia de jogo, que tinha cem cruzeiros apostados no Flamengo –"veja como ele voa".

O passarinho voava baixo, não subia quase nada, em um debater de asas assustadas. Era um jogador do Flamengo ou do Vasco que vinha correndo atrás da bola. Para ele, o passarinho não existia. Para Augusto Frederico Schmidt, porém, o passarinho existia. E eu, sentado junto de Augusto Frederico Schmidt, também tinha de me esquecer, por alguns momentos, do placar em General Severiano. O passarinho não estava tonto? Estava. Talvez, e eu apontei para as grades que cercavam o campo do Botafogo, o passarinho pensasse que acerca do Botafogo era a grade de um viveiro. Parecia uma cerca de arame separando o campo das arquibancadas, da tribuna de honra. Augusto Frederico Schmidt olhava o passarinho semicerrando os olhos. E depois diziam que não havia poesia num campo de futebol.

Havia poesia em tudo. Bastava olhar para as coisas com olhos de poeta. E Augusto Frederico Schmidt olhava. Tinha de olhar, mesmo que não quisesse. Quem não sabia que Augusto Frederico Schmidt escrevera o Pássaro Cego? Luís Aranha estava longe. Logo que viu o passarinho, lembrou-se de Schmidt, largou o match, veio para a tribuna de honra. "Schmidt, olha o passarinho." Schmidt não fazia outra coisa: olhava o passarinho. Dona Madalena também não se conteve. Avalie se o Schmidt não tivesse visto o passarinho. E eis Augusto Frederico Schmidt sem poder fazer mais nada. Os leitores de Augusto Frederico Schmidt, os admiradores dele, o Lulu, a Madalena, todos exigiam que ele olhasse o passarinho. Aquilo não daria um poema? Augusto Frederico Schmidt chamou Zé Lins para ver também o passarinho. "Seu Schmidt" –Zé Lins do Rego olhou rapidamente para o passarinho, depois voltou para o jogo–, "eu não sou poeta, sou romancista".
E ali nem isso: torcedor apenas. Quando começava o jogo, Zé Lins esquecia-se de que era romancista. Ou, por outra, não precisava esquecer-se. Havia lugar para o romancista num campo de futebol. O romancista aproximava-se da multidão, via-a entregue ao delírio das paixões humanas. Se havia lugar para o romancista, havia também para o poeta. Era isso o que Augusto Frederico Schmidt queria dizer. Zé Lins, porém, não escutaria Augusto Frederico Schmidt. O Schmidt que esperasse um pouco. Acabado o primeiro tempo, o poeta e o romancista poderiam aproximar-se um do outro. E não faltava muito. Augusto Frederico Schmidt tomou um susto. A bola quase pegara o passarinho. O passarinho sacudiu as asas, voou baixo, rente ao chão. Augusto Frederico Schmidt soltou um suspiro. Graças a Deus.

Acabara o primeiro tempo. O apito do juiz como uma varinha de condão, transformou todo mundo em poeta. "Olhe o passarinho!" "Que amorzinho!" –era uma voz feminina. "Ah! Se eu fosse pintor!" - eu me virei para ver quem lamentava não ser pintor. Não vi ninguém suspeito por perto. Agora, Zé Lins do Rego podia olhar para o passarinho à vontade. O passarinho ia fazê-lo esquecer, por alguns momentos, que o jogo não acabara ainda. O passarinho passeava pelo campo vazio. Durante dez minutos, aquela grama toda seria dele. Era a paz que descia sobre o mundo do passarinho. "Eu acho" –disse Zé Lins– "que é uma graúna". Havia muita gente que confundia graúna com melro. Augusto Frederico Schmidt não respondia. Melro ou graúna, pouco importava. O que importava era o passarinho, a grama muito verde, o céu muito azul.
Folhapress
O jornalista Mário Filho
O jornalista Mário Filho
"Seu Schmidt" –Arnaldo Costa debruçara sobre a cadeira do Schmidt– "você já ganhou 50 cruzeiros". Via-se logo que Arnaldo Costa não era poeta. Não tinha nenhum senso poético. Com aquela simples frase, "seu Schmidt, você já ganhou 50 cruzeiros", Arnaldo Costa puxara o cartão de visita, a carteira do ministério do trabalho. Um bancário, um correntista, com uma máquina registradora na cabeça. O silêncio glacial de Augusto Frederico Schmidt cavou um abismo entre ele e Arnaldo Costa, entre o poeta e o homem de banco. Se Arnaldo Costa quisesse falar em negócios, que o procurasse no escritório, não interrompesse agora. Arnaldo Costa sentou-se, um pouco sem jeito, como alguém que, numa igreja, interrompe o sermão do padre com um espirro. Má hora ele escolhera para falar em dinheiro. Também ele nem vira o passarinho.

Não vira o passarinho, esquecera que Augusto Frederico Schmidt era poeta. Ali em volta ninguém ignorava isso. Zé Lins achava natural que o Schmidt ficasse olhando o passarinho, esquecido de tudo, escravo da poesia. Sem poder ver mais nada. Todo mundo rindo, o Schmidt sério. Se olhasse ia estragar tudo, tinha de largar o passarinho, rir também. Era um cachorro –aliás, uma cachorra, depois a gente se certificou– uma cachorra que não tinha vergonha de 15 mil pessoas. O passarinho parecia saído de um cromo, de um livro de poesia. A cachorra parecia saída de Ulisses, de James Joyce. "James Joyce" –eu me lembrei– "escreveu dez páginas sobre uma coisa assim". Era poesia e a realidade. A realidade chegava, com a cachorra, com Juca, com os jogadores do Vasco e do Flamengo. "Fique com o seu passarinho Schmidt" –avisou Zé Lins– "eu vou ficar com o meu futebol". Os times estavam formados, Juca apitou baixinho, quase ninguém escutou, a bola começou a ser chutada a torto e a direito. "O Flamengo não pode fazer nada" - Zé Lins falava sozinho. Quer dizer: o Flamengo já fizera muito, dera um susto no Vasco. Eu reparava na torcida do Vasco. Ela não dava um pio. Torcida desconfiada. Vendo o placar Flamengo um, Vasco zero, ela se encolhia, não queria saber de tirar a carteira, de gritar Vasco. Enquanto o Flamengo estivesse vencendo, não haveria vascaínos em General Severiano.

Augusto Frederico Schmidt nem viu quando Biguá se machucou. Zé Lins, porém, gritou: "Agora não adiantava mais nada". E Augusto Frederico Schmidt foi obrigado a largar o passarinho, interessar-se um momento por Biguá, que saía de campo carregado. "Com Biguá, a coisa seria outra" –Zé Lins descobrira um consolo na saída de Biguá. "Mas o Biguá vai voltar, Zé Lins." Voltaria, talvez voltasse, mas como? Machucado. Augusto Frederico Schmidt quis ver se o passarinho estava no mesmo lugar. Estava. A bola andava longe, lá no gol do Flamengo. Palmas. Biguá voltara. Augusto Frederico Schmidt não se preocupou mais com Zé Lins. Era bom que a bola estivesse longe, do outro lado. Assim, ele e o passarinho podiam ficar sozinhos. Foi aí que Zé Lins soltou um "eu não falei?". O Vasco tinha marcado um gol.

Biguá quisera pular, se estivesse bom Biguá pularia mais alto que qualquer outro, Biguá era uma bola de borracha. Mas com o tornozelo inchado Biguá não podia firmar o pé. Por isso o Vasco marcara o gol. Agora tudo se acabara. A amargura de Zé Lins afastou Schmidt do passarinho. "Você não deve desanimar, Zé Lins. Ainda falta muito." "Pois eu estou desanimado porque falta muito. Na guerra o tempo é aliado." Ali, no campo, era vascaíno. Quanto mais tempo faltasse, melhor para o Vasco. "Vamos ver se o Flamengo marcar outro gol, Zé Lins." Vevé estava com a bola, passara por Zago, quis chutar logo, pensou melhor, não chutou, hesitou ainda, acabou metendo o pé na bola, de leve. Yustrich tocou na bola, não a segurou, a bola foi para o fundo das redes. Zé Lins levantou-se, soltou uma gargalhada, outra gargalhada, mais outra.

Agora o Flamengo podia até perder, não fazia mal. E talvez o Flamengo não perdesse. Ah, se o Flamengo não perdesse! Zé Lins afastou-se ainda mais de Augusto Frederico Schmidt: ficou com o jogo. Agora mesmo, com o Flamengo dando no Vasco, é que Zé Lins não ia olhar o passarinho. Augusto Frederico Schmidt era mais feliz, encontrara um refúgio. Zé Lins não tinha refúgio nenhum. Biguá foi embora, o Flamengo ficou sem Biguá. Zé Lins sabia o que isso significava e continuou grudado na cadeira de vime. Biguá levou a tranquilidade de Zé Lins. Foi Biguá sair, e o Vasco tomou conta do campo. Dois a dois, três a dois, quatro a dois. Com os quatro a dois no placar, a torcida do Vasco deu sinal de vida, soltou foguetes. Zé Lins ouvia os gritos de "Vasco, Vasco!", a explosão de bombas. Augusto Frederico Schmidt parecia ouvir música, os anjos tocando harpa.

Não havia mais lugar em General Severiano para Zé Lins. "Eu vou-me embora, Mário Filho, não fico mais aqui." "Está acabando, Zé Lins." É que ele tinha de pegar um lotação. Para pegar um lotação, só saindo cedo, na frente. E para Zé Lins, o que estava acabado não era o match, era o Flamengo, o mundo. "Até amanhã." O corpo de Zé Lins tapou a visão de Augusto Frederico Schmidt. "O que é isso? Você já vai, Zé Lins?" "Já, Schmidt." "Pois eu ainda fico, Zé Lins." Augusto Frederico Schmidt podia ficar, tinha de ficar, como se ele estivesse assistindo ao nascimento de um novo mundo, um mundo puro, sem guerra, sem futebol. Com o céu, a terra, ele, o passarinho e nada mais.

O Globo Sportivo, 23 de julho de 1948
A crônica acima faz parte do livro "As Coisas Incríveis do Futebol: as Melhores Crônicas de Mário Filho" 
Fonte: Folhauol

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