quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Noites da minha cidade - Jessemusse Cacinda - Nampula/MZ





São longas noites
Que passo aos sonos moribundos
Me desespero no açoite
Daqueles que têm fundos

Passo! Versos de amor
Escrevendo
E versos de dor
No papel pintando

Utopias metafísicas
Acompanham as veias poéticas
Que me levam a não dar ouvidos
As críticas Platónicas

Muikhwiris(1) rondando a minha palhota
Voando na peneira para qualquer frota
Prostitutas sem medo circundam
matador (2) e de carro em caro saltitam

É tempo de fazer dinheiro
Que é o bem supremo
Pelo mundo inteiro
Outros roubam, outros agridem
E sobre o corpo de outrem, outros se estendem

E eu, rico de tanta pobreza
Confesso os pecados que cometi durante o dia
Com coragem e frieza
Escrevo esta poesia

____________________________________ 
(1)   Feticeirio em Emakhuwa, língua de nampula
(2)   Nome do meu bairro

Fonte: http://revistaliteratas.blogspot.com.br/

Proposta do MEC para ensino de história mata a temporalidade

08/11/2015
RESUMO Este texto critica a visão de história da Base Nacional Comum Curricular proposta pelo Ministério da Educação. Ao abandonar a temporalidade em prol de certa noção de cultura, a BNC bane a ideia de história em construção e apaga dos livros didáticos as páginas consagradas à formação das modernas sociedades ocidentais.
*
O ensino de história deve se basear "em ensinamento crítico, mas sem descambar para ideologia". A recomendação apareceu no Facebook do já então ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, como uma crítica explícita à Base Nacional Comum Curricular (BNC) de história, divulgada quando ele ainda chefiava a pasta.

Por uma dessas extraordinárias coincidências, Janine pronunciou-se horas depois da publicação de artigo de nossa autoria sobre o mesmo assunto ("História sem tempo", "O Globo", 8/10). E, casualmente, ele repetiu um argumento nuclear daquele artigo. "Não havia, na proposta, uma história do mundo", escreveu, cutucando a ferida de um programa que ignorava "quase por completo o que não fosse Brasil e África".

Janine tem razão quando enquadra o debate na moldura dos direitos dos estudantes e enfatiza o tema, tão esquecido, da pluralidade. "É direito de todo jovem saber o trajeto histórico do mundo. Precisa saber sobre a Renascença, as revoluções, muita coisa. Mas não há uma interpretação única de nenhum desses fenômenos. E é esta diversidade que a educação democrática e de qualidade deve garantir." Aloizio Mercadante, novo titular do ministério, parece igualmente convencido de que há algo de fundamentalmente errado num documento com "muita África e história indígena e pouca história ocidental".

As críticas de Janine e Mercadante têm peso político suficiente para provocar algum tipo de reforma na BNC, mas apenas roçam a superfície do problema: atrás da abolição da "história ocidental" encontra-se a supressão do próprio sentido temporal que define a disciplina.

Marc Bloch disse que "a história é a ciência dos homens no tempo". Na direção oposta, os autores (anônimos e, assim, "especialistas") do documento do MEC investiram numa sociologia do multiculturalismo que esvazia a temporalidade e, com ela, a gramática da historiografia. De fato, se aplicada, a proposta oficial significará o cancelamento do ensino de história. A narrativa histórica canônica estrutura-se sobre um esquema temporal clássico: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna, Idade Contemporânea. De acordo com a BNC, alunos do 6º ano do ensino fundamental, com 11 ou 12 anos de idade, devem aprender a "problematizar" o "modelo quadripartite francês". Dali em diante, até o fim do ensino médio, o "modelo" nunca mais aparece.

Junto com ele, desintegra-se o ensino da Grécia clássica, do medievo das catedrais, do comércio e das cidades e, ainda, das rupturas filosóficas, culturais e religiosas que anunciaram a modernidade.

No lugar disso, segundo o documento do MEC, o ensino médio é chamado a se concentrar no estudo dos "mundos ameríndios, africanos e afro-brasileiros" (1º ano), dos "mundos americanos" (2º ano) e dos "mundos europeus e asiáticos" (3º ano). Assim, expulsa da escola, a temporalidade é substituída por supostos atores coletivos, construídos a partir de uma tosca noção de cultura.

TEMPORALIDADE
A história entrou na escola pelas mãos do Estado-Nação europeu, no século 19. Inexiste novidade na crítica ao paradigma temporal clássico, impregnado de positivismo, evolucionismo e eurocentrismo. Contudo superá-lo não implica suprimir a gramática da temporalidade.

O programa (mal) camuflado da BNC não é incorporar a África, a Ásia e a América pré-colombiana ao ensino de história, mas recortar dos livros didáticos as páginas consagradas à formação das modernas sociedades ocidentais, erguidas sobre o princípio da igualdade dos indivíduos perante a lei.

Numa primeira versão da proposta, informa Janine, os autores orientavam o estudo de revoltas coloniais com a participação de escravos ou índios, mas "deixavam de lado a Inconfidência Mineira". Seria um equívoco concluir daí que a exclusão decorria, principalmente, da ausência de escravos ou índios no movimento dos inconfidentes. O alvo da censura situa-se mais abaixo: na presença das ideias iluministas que conectam Tiradentes às revoluções Americana e Francesa.

Há método no caos da BNC. Sem a ágora grega, praça de mercado e praça pública, os estudantes ignorarão as origens do individualismo e da democracia –e a relação que existe entre ambos. Sem a Idade Média europeia, jamais entenderão a importância das religiões monoteístas na formação de sociedades que, pela primeira vez, englobaram grupos geográfica e culturalmente diversos por meio de valores éticos universalistas. Sem o Antigo Regime, não serão apresentados à filosofia das Luzes, base do contrato político da cidadania e fonte da ideia de que as pessoas são donas de suas escolhas e seus destinos. Sem a contestação socialista ao liberalismo, que emergiu na Europa novecentista, não compreenderão a trajetória de afirmação dos direitos sociais e trabalhistas.

O vácuo dessas múltiplas ausências será preenchido pelo ensino de histórias paralelas de povos separados pela intransponível muralha da "cultura".

A "história ocidental" mencionada por Mercadante converteu-se, num certo ponto, em história universal, pois a expansão dos Estados europeus –um percurso balizado pelas navegações, pela Revolução Industrial e pelo imperialismo– entrelaçou o mundo inteiro. O paradigma temporal clássico refletia a idealização desse processo. Uma educação democrática tem o dever de narrá-lo na sua inteireza, evidenciando suas luzes e suas sombras.

A herança ocidental abrange tanto a liberdade quanto a opressão: o habeas corpus e o tráfico escravista, a soberania popular e a tirania, a independência nacional e o colonialismo, a igualdade política e o racismo, os direitos humanos e o totalitarismo, a vacinação e a morte radioativa. A educação escolar tem o desafio de investigar tais complexidades e contradições. Mas, à abordagem dos educadores, a BNC contrapõe o método típico dos doutrinadores, fornecendo uma narrativa sobre mocinhos e bandidos que infantiliza professores e estudantes.

Quando Bloch define a história pela dimensão temporal, ele quer enfatizar seu caráter cronológico: o sentido de "processo", isto é, as relações e interações que promovem constantes mutações sociais.

A "história em construção" é precisamente aquilo que os formuladores da BNC pretendem dissolver, de modo a fabricar sujeitos a-históricos: grupos étnicos ou raciais identificados por supostas essências culturais e, portanto, impermeáveis à mudança. Eles não querem, como alegam, conferir visibilidade à história da África, da Ásia ou da América pré-colombiana, mas fabricar a "história dos africanos", a "história dos ameríndios" e a "história dos asiáticos", numa cartolina que incluiria, ainda, a "história dos europeus".

FETICHIZAÇÃO
Seria um equívoco interpretar a BNC como uma revolta contra o "ocidentalismo". 

De fato, não há nada mais "ocidental" que a fetichização da cultura. O essencialismo cultural deita raízes na "ciência das raças", elaborada à sombra do imperialismo, que falava do "fardo do homem branco" e produzia quadros descritivos sobre os "negros" (africanos), os "amarelos" (asiáticos) e os "vermelhos" (ameríndios). Atualmente, sob o mesmo registro operativo, difunde-se a tese neoconservadora do "choque de civilizações". Os autores convocados pelo MEC usam a linguagem e os conceitos do "choque de civilizações", fabricando uma cópia invertida da célebre narrativa sobre a "missão civilizatória" dos europeus.

A escritura da história segue caminhos diversos. A historiografia liberal enfatiza a política e o indivíduo. Os historiadores marxistas colocam os holofotes sobre as classes sociais e a economia. Mais recentemente, a nova história alargou e fragmentou o campo de investigação, abordando as mentalidades, ou seja, as representações sociais. A BNC, contudo, rejeita em bloco todo esse variado repertório, pois recusa a temporalidade. Nesse passo, acende uma fogueira destinada a consumir as obras consagradas e a melhor produção historiográfica acadêmica.

Para que serve o ensino de história? Na sua origem, a história escolar servia para inscrever a pátria no mármore da eternidade. A antiga visão utilitária reaparece, sob roupagem atualizada, na BNC.

Reagindo à crítica tardia de Janine, a professora Márcia Elisa Ramos, da Universidade Estadual de Londrina, defendeu a proposta do MEC recorrendo a uma alegação orwelliana de aparência banal: "O ensino de história deve não apenas estudar as diferenças mas compreender para respeitar. O currículo apenas contempla os objetivos do ensino de história, que são respeito à diversidade, pluralidades étnico-raciais, religiosa, de gênero etc.".

Não se ensina biologia para que os jovens aprendam regras de saúde e higiene. Não se ensina química para evitar a ingestão de substâncias tóxicas pelos alunos. Não se ensina física para alertar sobre o perigo de saltar da janela do edifício. Não se ensina português para treinar a habilidade de redigir solicitações de emprego. 

Não se ensina matemática para calcular os rendimentos da poupança. Tudo isso, bem como a aversão a preconceitos étnicos, raciais, religiosos ou de gênero, são subprodutos úteis da educação escolar. Mas o conhecimento serve a si mesmo: é um passaporte que garante acesso ao diálogo do mundo.

Diferentes indivíduos leem o mundo de formas diversas. Escola não é igreja: não é lugar de pregação, de tutela ou de retificação de mentes "desviantes".

A história, como as outras disciplinas, serve para acender a chama da curiosidade intelectual, ensinar os fundamentos do pensamento científico, habilitar os jovens para investigar, interpretar e refletir. Nossos doutrinadores de plantão, sábios "especialistas" que não declinam seus nomes, jamais concordarão com isso.


DEMÉTRIO MAGNOLI, 57, sociólogo e doutor em geografia humana, é colunista da Folha.
ELAINE SENISE BARBOSA, 50, é professora de história, autora de "História das Guerras" (Contexto). 

Vaticano condena capa do 'Charlie Hebdo' com Deus portando um rifle

Da Reuters

O jornal do Vaticano classificou como "lamentável" e desrespeitosa com fiéis de todas as religiões a última capa do jornal satírico francês "Charlie Hebdo", que retrata Deus portando um Kalashnikov.
A edição de aniversário relembra o ataque à redação do "Charlie Hebdo", em Paris, ocorrido há um ano, quando militantes islâmicos mataram 12.

Majorelle Pr/Charlie Hebdo/Efe
 'Charlie Hebdo' divulga capa da edição de quarta (6); o especial relembra o atentado ocorrido em 2015
Charlie Hebdo' divulga capa da edição de quarta (6); o especial relembra o atentado ocorrido em 2015


Na capa, será estampada uma charge de Deus ensanguentado portando um rifle, sob o título: "O assassino ainda está solto."

O jornal diário do Vaticano "L'Osservatore Romano" acusou o "Charlie Hebdo" de tentar "manipular" a fé.

"Por trás da bandeira enganosa de um secularismo intransigente, o semanário francês mais uma vez esquece o que os líderes religiosos de todas as fés vêm pedindo há muito tempo: para rejeitar a violência em nome da religião e que o uso de Deus para justificar o ódio é uma verdadeira blasfêmia", escreve o diário.

"A ação do 'Charlie Hebdo' mostra o triste paradoxo entre um mundo que é cada vez mais sensível em ser politicamente correto a ponto de ser ridículo (...) mas não quer reconhecer ou respeitar a fé de quem crê em Deus, independentemente da sua religião."

O "Charlie Hebdo", conhecido por suas capas satíricas satirizando líderes políticos e religiosos, foi alvo de um ataque em 7 de janeiro de 2015 que matou muitos de seus principais integrantes.

Após o ataque, o papa Francisco destacou a posição antirreligiosa  do jornal.

"Você não pode provocar, você não pode insultar a fé dos outros, você não pode fazer piada com a fé", disse o religioso, na época, a repórteres durante uma viagem a Ásia.

O Vaticano emitiria mais tarde uma declaração dizendo que os comentários do papa não foram feitos como uma justificativa para os ataques.
Fonte: Folhauol

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A luta de um escravo americano

SOBRE O TEXTO Estas páginas são parte de "A Mensagem do Mount Misery", em que se narram aspectos da luta abolicionista de Frederick Douglass (1818-95), escravo que se educou sozinho antes de fugir do cativeiro. Dono de grande talento para a oratória, Douglass proferiu muitos discursos, o mais famoso dos quais, em parte reproduzido aqui, em 3 de agosto de 1857, em Canandaigua, Estado de Nova York, defendia a resistência contra a escravidão. O trabalho de Tobocman estará no segundo volume do "Cânone Gráfico", que reúne adaptações visuais de obras da literatura universal, a sair pela Boitempo em dezembro.



Fotos:Divulgação





SETH TOBOCMAN, 57, fundador da "World War 3 Illustrated", revista em quadrinhos de crítica
 social e política.
ALZIRA ALLEGRO, 65, tradutora e intérprete, é professora de literaturas de língua inglesa
 e tradução na PUC-SP. 
Fonte: Folhauol

Livro de Angela Alonso fortalece nova historiografia da Abolição

RESUMO A historiografia da abolição passa por mudanças que a deslocam de visões oficialistas ou marxistas. Entre jogar luz sobre a Lei Áurea da princesa Isabel ou sobre a luta dos negros, representada por Zumbi, novos estudos, como obra da socióloga Angela Alonso recém-lançada, voltam-se para o movimento abolicionista.


Era o aniversário de 45 anos de dom Pedro 2º. Naquela noite de 2 de dezembro de 1870, apresentava-se no Teatro Lírico Provisório do Rio de Janeiro a ópera-balé "O Guarani", de Carlos Gomes (1836-96), adaptação do romance de José de Alencar (1829-77), intelectual conservador e defensor da manutenção da escravidão.
Trajando casaca, o abolicionista André Rebouças (1838-98) transitava à vontade entre a nata social e econômica do Império. Há tempos esse engenheiro viajado e integrante de uma classe média negra que ia se fazendo influente na sociedade do Segundo Reinado já alimentava o perfil de articulador entre a elite aristocrática, políticos e empresários. Essa sua habilidade possibilitava não apenas a viabilização de obras de engenharia que modernizaram o país mas também fez dele uma das vozes mais influentes do movimento abolicionista brasileiro.
Em "Flores, Votos e Balas" [Companhia das Letras, 568 págs., R$ 66,90], a socióloga Angela Alonso reconstrói aquela noite cheia de significados e seus personagens. Enquanto no palco se encenava um mito da origem da nacionalidade focado no elemento indígena, os negros, "ausentes do enredo, estavam no camarim, engomando roupas e lustrando sapatos". E era isso que Rebouças e seus colegas queriam mudar.
O espetáculo ocorreu quando o Brasil estava na antessala de um momento de grande divisão política e de transformação da sensibilidade da sociedade. "Ao acabar aquele dezembro, chegaria o ano sem par de 1871, quando a escravidão, bomba-relógio do Império, sairia da coxia para roubar o centro da cena", diz o texto.
Naquele ano, após um profundo embate, seria aprovada a Lei do Ventre Livre, libertando os nascidos de mãe escrava.
Presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e autora de "Ideias em Movimento - A Geração de 1870 na Crise do Brasil Império" (Paz e Terra, 2002) e da biografia "Joaquim Nabuco" (Companhia das Letras, 2007), Angela Alonso dedicou seis anos de pesquisas para reconstruir a trajetória do movimento abolicionista brasileiro entre os anos de 1868 e 1888.
"Proponho um ângulo diferente. A historiografia marxista se fixou na transformação econômica que levou à abolição. Já a nova história transferiu o protagonismo para os escravos. De um modo geral, não se tem muito em conta a importância do movimento social" abolicionista que cresceu no espaço público nem a ideia da tensão política desse período", diz a autora em entrevista à Folha.
"Fala-se do fim da escravidão como algo que se daria de qualquer forma por conta da mudança de conjuntura econômica, quando o que defendo é que a abolição não teria sido possível sem também uma mobilização política e a transformação de sensibilidades."
Para a estudiosa, vinham ofuscando a relevância do movimento abolicionista a constante referência às fraturas que existiam entre os mobilizados, entre monarquistas e republicanos ou radicais e moderados, e o deslocamento da ênfase historiográfica, desde 1988 (o centenário da abolição), da herdeira do trono imperial (a princesa Isabel) para o líder da revolta escrava (Zumbi dos Palmares).
"Essa discussão deixou em segundo plano um fator que foi fundamental para o fim da escravidão: o movimento abolicionista, que incluiu vários tipos de atividades por parte de inúmeras organizações em todo o Brasil e em conexão com agrupações europeias e norte-americanas", diz a autora.
CENÁRIOS
O teatro seria, justamente, um dos cenários utilizados quando aos abolicionistas faltava espaço no Parlamento. Diferentemente do abolicionismo norte-americano, que usava estrutura e espaços das capelas dos "quakers", o brasileiro não contava com a ajuda da Igreja Católica, que cerrou fileiras com o escravismo –daí a importância de locais como teatros, centros cívicos e escolas.
Em seu livro, Angela Alonso argumenta que o movimento combinou retóricas e estratégias num "jogo de ação e reação que durou duas décadas", no qual ora se usavam flores (nos atos públicos), ora votos (no Parlamento) e ora balas (na clandestinidade) –daí o título.
"Comecei a pesquisar jornais de época em busca de fatos políticos e ia vendo os anúncios de estreias de espetáculos, fui vendo como as artes estavam relacionadas ao que acontecia. Muitas vezes os abolicionistas reuniam gente em torno de obras que tinham subtexto que falava da escravidão. Assim, é possível ver como foi ocorrendo uma mudança na sensibilidade", diz.
Um exemplo foi a apresentação de "Aída", de Giuseppe Verdi, na interpretação da soprano russa Nadina Bulicioff, em 10 de agosto de 1886. Por obra de Rebouças e José do Patrocínio, a sessão daquela noite da ópera –que conta a história da filha de um rei da Etiópia confinada ao cativeiro no antigo Egito– se transformou numa manifestação antiescravista. Patrocínio subiu ao palco levando moças escravas para abraçar a russa, cantou-se o Hino Nacional e gritava-se "Viva a abolição".
As artes serviram, portanto, como importante instrumento de persuasão da opinião pública, desde os princípios do movimento, em 1868, auxiliando os abolicionistas em seus contatos com outros países. Fato também com pouco relevo na historiografia tradicional, o caráter internacionalista do movimento manteve os grupos brasileiros extremamente conectados aos europeus e aos norte-americanos, num mundo cujas distâncias encolhiam, pelo telégrafo e pelo vapor, e no qual intelectuais e ativistas viajavam constantemente.
"A ideia de que tínhamos uma elite caipira, isolada, cai por terra quando vemos o quanto viajavam e sabiam do mundo, tanto do lado dos abolicionistas quanto dos escravocratas", frisa Alonso.
TRAJETÓRIA
A narrativa de "Flores, Votos e Balas" é costurada a partir da trajetória de alguns protagonistas. Do lado dos abolicionistas estão, além de Rebouças, o advogado Luiz Gama (1830-82), o farmacêutico José do Patrocínio (1853-1905), o médico e pedagogo Abílio Borges (1824-91, mais conhecido por ser retratado em "O Ateneu", de Raul Pompeia, como Aristarco, diretor do internato) e o político e jurista Joaquim Nabuco (1849-1910) –os três primeiros dessa lista, negros.
Do lado dos conservadores, figuram Paulino Soares de Sousa (1834-1901), líder da ala Emperrada do Partido Conservador, e o barão de Cotegipe (1815-89), lendário político do Império.
Elisa Von Randow
"Tradicionalmente se pensa que a abolição foi virando uma espécie de consenso, mas não é o que dizem os documentos. Vi que não era possível que um movimento que lutou por 20 anos o fizesse se não houvesse gente do outro lado que estivesse muito contra. Não dava para ter lutado tanto sem ter quem se opusesse, não haveria mobilização se todos estivessem a favor. E uma das coisas que defendo no livro é que a defesa da escravidão foi algo muito mais expressivo do que parece", diz a autora. "Os heróis são incompreensíveis sem os seus vilões", acrescenta.
PONTO FINAL
Ao longo de cerca de três séculos, vieram da África para serem escravizadas no Brasil 5,8 milhões de pessoas. Em 1872, os escravos compunham 15% da população. O país já vinha burlando tratados e leis que determinavam o fim do tráfico negreiro desde a década de 20, até que, em 1860, alterações da conjuntura internacional e do contexto político interno fizeram amadurecer a ideia de que se deveria colocar um ponto final à servidão.
Associavam-se a essa tendência, em primeiro lugar, o ciclo de abolições, que naquela década atingiu EUA e Cuba. Em segundo, a aceleração da urbanização, que propiciava a criação de um espaço para a discussão pública. Nesse cenário, a escravidão passava a ser vista como algo abominável para um país que se queria moderno.
"É controverso se a razão desse dominó foi econômica, com a expansão de formas capitalistas de produção, que consumiam trabalho livre e requisitavam novos mercados consumidores, ou se se deveu à difusão de nova moralidade humanista, a reclamar extensão de cidadania. Indisputável é que a sequência de abolições criou novo ambiente político internacional, no qual a escravidão quadrava mal", escreve Alonso.
Esse descompasso com relação à realidade em outros países mostrou-se com vigor durante a Guerra do Paraguai (1864-70), em que o Brasil encabeçava uma aliança com Argentina e Uruguai, mas liderava "com pés de barro", como diz a autora, por ser escravista em meio a "nações de povo livre".
ATIVISTAS
Além da personalidade singular de André Rebouças, o livro joga luz sobre ativistas menos celebrados nos dias de hoje. É o caso de Abílio Cesar Borges, um educador viajado e conectado à rede abolicionista internacional, membro da British and Foreign Anti-Slavery Society de Londres.
A socióloga o retrata como hábil lobista, que transitava em diferentes esferas e difundia a mensagem da abolição pela panfletagem e por "cerimônias cívicas", nas quais se encenavam os dramas dos escravos e se faziam apelos emotivos pelo fim daquele tormento.
Aos abolicionistas contrapunham-se os conservadores, que não aceitavam o fim da escravidão –também eles divididos, mas entre os "moderados" e os "emperrados". Exemplo máximo desse último grupo era o já citado Paulino Soares de Sousa. Filho do visconde do Uruguai, em seus discursos admitia que a escravidão não poderia ser "perpétua", mas que seu final corresponderia a uma grande crise social e à possibilidade de distúrbios violentos, como os que haviam ocorrido no Haiti –onde, em 1791, uma revolução liderada por Toussaint-Louverture pôs fim ao regime escravocrata com extrema violência contra brancos de três exércitos imperiais.
O caso é que Soares de Sousa não se encaixava no molde maniqueísta do escravista cruel. De "barba aparada e camisa de casimira bem cortada", era um homem viajado e fino, culto e agradável no trato. Nas palavras de Alonso, "um rebento fina flor. Nada em si rescendia brutalidade ou ganância, desvio ou maldade. Culto e ilibado, amava o latim e a esposa, acreditava em Deus, no Império e na propriedade dos escravos".
Sua retórica baseava-se num forte argumento, o do senso comum. A ideia de que a sociedade funcionava bem assim e que acabar com a escravidão, além de graves distúrbios sociais, significaria a ruína de um sistema econômico.
"Paulino foi coerente até o fim; quando a abolição já estava dada, ele ainda lutava pelo ressarcimento dos fazendeiros", diz Alonso. Tratava-se de uma defesa não da escravidão, porque em termos humanitários dizia concordar com a causa, mas por causa das circunstâncias brasileiras, da situação que ela havia gerado.
Com ele concordava o romancista José de Alencar, que dizia: "um sopro bastará para desencadear a guerra social, [...] lançar o Império sobre um vulcão".
RACHA
O livro se encerra quando outra história começa, a do período pós-abolição. Às festas nas ruas do Rio de Janeiro e de outras cidades, reunindo multidões a céu aberto, contrapõe-se o racha entre os integrantes do movimento. Alguns não aceitavam que, ao final, o término do regime tivesse sido fruto de uma decisão imperial apenas; outros se sentiram traídos porque seus planos não se limitavam à abolição, mas projetavam uma reforma social; por fim, outros achavam que deveriam apoiar a Coroa e o gesto da princesa.
Elisa Von Randow
Nos 18 meses que separaram a Abolição da República, a queda de braço entre escravocratas e os agora rachados abolicionistas levou a um empate de pressões. Nem se indenizaram os ex-proprietários, nem vingaram propostas como as de Rebouças, que previam, por exemplo, leis para educação.
Alonso aí insere uma crítica ao viés paternalista que identifica nos abolicionistas. Se discordavam do modo como deveria ser feita a reinserção social do ex-escravo, concordavam que deveria ser por meio da intervenção do Estado. "Os abolicionistas nunca cogitaram deixá-los gerentes do próprio futuro."
SEQUELAS
Outros estudos vêm alimentando esse novo momento da historiografia da escravidão e do abolicionismo, que se desloca um pouco da chave marxista e oferece uma visão mais complexa do período, que deixou tantas sequelas, ainda visíveis, na sociedade brasileira.
A historiadora Maria Helena P. T. Machado, da USP, é organizadora, com Celso Thomas Castilho, de "Tornando-se Livre" [Edusp, 480 págs., R$ 64], coletânea de ensaios sobre abolição lançada neste ano. Ela considera que hoje há um movimento para "superar uma história da escravidão e dos escravizados fechada em torno de um sistema escravista onipresente e inescapável". Por este caminho, diz, historiadores empreendem uma reconstrução mais panorâmica e equilibrada do processo de supressão do regime escravista.
Nesses esforços, a história tem contado com a contribuição de outras áreas de estudos, como a sociologia e a literatura.
Um bom exemplo é o trabalho que vem realizando a professora Lígia Fonseca Ferreira, da Unifesp. Ela se concentra no resgate da produção intelectual do abolicionista baiano Luiz Gama, que foi escravo na adolescência e se tornou advogado, libertando mais de 500 cativos –parte de suas pesquisas originou "Com a Palavra, Luiz Gama" (Imprensa Oficial, 2011).
"Tem havido uma grande colaboração entre as áreas, e estudiosos vindos das letras ou da sociologia trazem novos olhares aos documentos tradicionais e de cartórios, ao mesmo tempo que se valoriza a produção literária, jornalística e de obras de arte", diz Fonseca.
A professora considera, por exemplo, que a própria discussão sobre as datas da abolição já está em nova fase. Primeiro, celebrava-se apenas o 13 de maio de 1888, data da Lei Áurea, firmada pela princesa Isabel. Depois, com o aumento da relevância do movimento negro e com a influência de novas abordagens historiográficas, passou ao centro das atenções o 20 de novembro, que relembra Zumbi dos Palmares.

"Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenços, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria.""É hora de ressignificar o 13 de Maio, não por ser uma data da Coroa, mas porque foi um momento de grande participação social e que teve vida própria fora do palácio", diz Fonseca, citando uma crônica de Lima Barreto na "Gazeta da Tarde" sobre aquele dia:

SYLVIA COLOMBO, 43, é repórter especial da Folha.
ELISA VON RANDOW, 41, é ilustradora. 

Fonte: Folhauol



Igreja mais antiga de África emerge das escavações



Escavações arqueológicas le­vadas a cabo na Ilha de Santia­go, em Cabo Verde, trouxeram à luz do dia um 
achado sur­preendente: A Igreja cristã mais antiga dos trópicos.

As escavações estão a ser con­duzidas pela dupla Marie Loui­se Stig Sorensen
 e Christopher Evans, da Universidade de Cam­bridge, em colaboração com
 arqueólogos cabo-verdianos e portugueses, e pretende-se que os 
resultados sejam apresenta­dos na revista Current World Archaeology,
 uma prestigiada revista internacional de arqueo­logia.

A descoberta inédita teve lu­gar na cidade Velha, que é patrimônio
 mundial da UNESCO, a primeira cidade fundada pe­los portugueses em
 África, na época dos Descobrimentos. A cidade Velha foi 
capital de Cabo Verde durante 300 anos e, se­gundo vários relatos da época, 
a segunda cidade mais abastada do império colonial português.
Fonte: Opaís.sapo.mz

Calendário internacional da cultura negra



Dia 02
- Fundada a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. São Paulo/SP (1711).
- Morre Mônica Veyrac, a primeira diplomata negra da história do Itamaraty. Costa Rica (1985).
Dia 06
- Lançado o jornal O Clarim da Alvorada, um dos poucos a refletirem a inquietação da população negra no Brasil. Matão/SP (1924).
Dia 09
- Promulgada a Lei Federal Nº 10.639, que rege a obrigatoriedade do ensino da história afro-brasileira na rede oficial de ensino (2003).
Dia 13
- Nasce André Rebouças, engenheiro, professor universitário e grande abolicionista. Cachoeira/BA (1838).
Dia 15
- Nasce Marthin Luther King, pastor norte-americano que lutou pela igualdade racial. Atlanta/Georgia (1929).
- Acontece a Revolta dos Malês, rebelião contra o escravismo e a imposição da religião católica. Salvador/BA (1835).
Dia 29
- Morre José do Patrocínio, jornalista e ativista da causa abolicionista. Rio de Janeiro/RJ (1905).
Dia 31
- Tombamento da Serra da Barriga, berço da resistência negra, onde nasceu o Quilombo dos Palmares e viveu seu maior líder, Zumbi dos Palmares. União dos Palmares/AL (1986).
Fonte: Fundação Cultural Palmares

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...