sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Governo de MS veta aumento de cota para negros em concursos públicos

O governo de Mato Grosso do Sul vetou projeto, aprovado pela Assembleia Legislativa, que ampliava de 10% para 20% o número de vagas reservadas em concursos públicos do Estado a pessoas negras. Apesar da medida, o Executivo sinaliza a possibilidade de apresentar projeto neste sentido “futuramente”.
Conforme publicado nesta sexta-feira (18) no Diário Oficial do Estado, o veto ocorre por vício de inconstitucionalidade formal. Somente o Poder Executivo pode legislar em assuntos relacionados aos servidores públicos, conforme esclarece a decisão.
“A medida dura do veto, que ora se impõe, não impedirá que o Poder Executivo, futuramente, e de modo constitucional, apresente um projeto de lei com teor semelhante”, relata o documento, assinado pelo governador, Reinaldo Azambuja (PSDB). Não há prazo para que tal procedimento seja adotado.
No fim, o governo ainda comenta que o veto é necessário para resguardas futuros concursos públicos de questionamentos judiciais. A proposta, aprovada pela Assembleia Legislativa em agosto, é de autoria do deputado estadual Amarildo Cruz (PT).
Waldemar Gonçalves
Fonte: Midiamax

terça-feira, 15 de setembro de 2015

MEC cria grupo sobre inclusão de estudantes negros em pós-graduação

O MEC (Ministério da Educação) criou um grupo de trabalho para propor "mecanismos de inclusão" de estudantes pretos e pardos em cursos de mestrado e doutorado no país.

A análise deve se estender ainda a indígenas, estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades, de acordo com portaria publicada nesta terça-feira (15) no "Diário Oficial da União".

Farão parte do grupo servidores do MEC, Capes e CNPq –agências federais de fomento à pesquisa– e integrantes de entidades como ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores Negros) e ABC (Academia Brasileira de Ciências).

Ronaldo Barros, secretário de ações afirmativas da Secretaria da Igualdade Racial, defende a adoção de cotas na pós-graduação, a exemplo do que foi feito no processo seletivo das universidades federais e de concursos públicos da União.

"As políticas afirmativas não se opõem à qualidade. Hoje você tem uma demanda, um público em condições de acessar essas vagas", diz. Ele elogia o modelo adotado neste ano pela UFG (Universidade Federal de Goiás).

A instituição definiu reserva de 20% das vagas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) para pretos, pardos e indígenas. Esses candidatos também disputam as vagas da ampla concorrência –se classificados nessa seleção, não são computados nas vagas reservadas.

Ao contrário das cotas na graduação, Barros não vê necessidade de que o candidato tenha feito ensino médio ou superior em instituição pública. "Seria injusto impedir que alunos do Prouni fossem impedidos de ter acesso", afirma, em referência ao programa de concessão de bolsas para alunos de baixa renda cursarem ensino superior em escolas privadas.

Assinada pelo ministro Renato Janine (Educação), a portaria define prazo de quatro meses para conclusão dos estudos do grupo. 

Flávia Foreque
Fonte: Folhauol

Livros de ficção brasileira retratam conflitos sociais do país

AMAR É CRIME
A literatura de Marcelino Freire nasce da voz: seus contos são metáforas orais de personagens que vivem à margem do Brasil, espectros que nunca são ouvidos, histórias que desinteressam tanto a casa grande quanto a senzala. Fala de conflito de classes, sim; no entanto, longe de tomar partido, prefere observar ambiguidades, contradições −que tornam o mítico "brasileiro cordial" o campeão mundial em linchamentos (47 mil assassinatos por ano, um recorde).
Reprodução
Nesta reedição de sua reunião de contos "Amar É Crime", o escritor pernambucano dá voz a garotas de programa, gays pais de família, professoras lésbicas, pastores evangélicos tarados, políticos vampiros de miseráveis, miseráveis vampiros de políticos.
Prosa original, estruturada em trocadilhos, aliterações, rimas, assonâncias e outros atributos próprios à poesia e a palavra cantada, a literatura de Freire é das mais imediatamente identificáveis. Há humor, mas não há boas intenções. E há melancolia, além da busca pela beleza —nem que seja um vestido chique lavado com água da sarjeta. Com relatos que rimam amor e horror, o pernambucano Freire escancara um país que não ousa se olhar no espelho.

(RONALDO BRESSANE)
AUTOR: Marcelino Freire
EDITORA: Record
QUANTO: R$ 30 (147 págs.) e R$ 21 (e-book)
AVALIAÇÃO: ótimo


Reprodução
COMO O DIABO GOSTA
Ainda há muito a investigar do desbunde dos anos 1970 a rebolar sob as trevas e a modorra da ditadura —e é sobre isso este romance do gaúcho Ernani Ssó. Qual um Reinaldo Moraes dos pampas, Ssó prefere investigar a vida de pau em riste, nessa espécie de "conficção" de seus loucos anos.
Assim, de sacanagem em sacanagem, de bairro em bairro, de papo furado em papo furado, vai se construindo a narrativa multifacetada —ou confusa, depende do seu ponto de vista− de Camilo, um escritor sem eira nem beira, que se apega às múltiplas musas que teve na vida para tentar escrever uma história.
Entre o cinismo e a verborragia, a narrativa se tece com humor, como se um causo desaguasse em piada e daí em desconsolo niilista. Em tempos tão realistas, não deixa de ser divertido um livro que abole qualquer apego ao lugar-comum das histórias bem contadas e abraça o caos. (RB)
AUTOR: Ernani Ssó
EDITORA: Cosac Naify
QUANTO: R$ 34,90 (288 págs.)
AVALIAÇÃO: muito bom
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TIJUCAMÉRICA
Quem tem o hábito de acompanhar o jornalista carioca José Trajano, em programas esportivos na televisão, já está acostumado com sua verve ferina e inteligência, com seus comentários e críticas sutis, que fogem ao ramerrão do óbvio ululante. Torcedor fanático e resistente do América do Rio de Janeiro, time que há muito tempo abandonou a primeira divisão do futebol regional e nacional, decidiu vingar-se do destino e escrever uma fábula bem-humorada para celebrar poeticamente o retorno do "Ameriquinha", como gosta de dizer, ao lugar que lhe é devido na tradição.
Evocando forças do além, divinas ou diabólicas (quem saberá?), Trajano imagina a ressurreição de craques de todos os tempos num escrete imbatível, pronto para comer a bola num Maraca idílico -aquele que poderia ser a arena das verdadeiras pelejas de titãs e não o empreendimento imobiliário para escoamento de corrupções várias. Grandes partidas são recontadas e o autor soube fundir a alma do torcedor com a do cidadão da Tijuca, numa simbiose que só a paixão explica.(REYNALDO DAMAZIO)
AUTOR: José Trajano
EDITORA: Paralela
QUANTO: R$ 24,90 (216 págs.) e R$ 16,90 (e-book)
AVALIAÇÃO: muito bom
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A IMAGINÁRIA
A crescente valorização internacional da obra de Clarice Lispector parece ter atraído interesse editorial na recuperação de autoras de sua geração. É o bem-vindo caso de Adalgisa Nery (1905-1980), cuja obra permanece esquecida há décadas. A recuperação, aqui, atende à velha máxima: o real valor literário de um escritor só pode ser estabelecido após a morte de amigos e inimigos.
Casada aos 16 anos com o guru modernista Ismael Nery (1900-1934), mãe de sete filhos (apenas dois sobreviventes) e viúva aos 29, Adalgisa biografa, em "A Imaginária", a própria penúria de mulher de artista, retratado como narcisista e adepto da brutalidade psicológica, cujos ideais modernos começavam da porta de casa para fora.
Romance de formação e terror conjugal (a cena de sexo com o marido tuberculoso tira sono até de um cadáver), o estilo empostado da autora, marcado por "meu ser" e "minha alma" a cada página, envelheceu mal. Não é Clarice, mas vale resgate para juízo da posteridade. (JOCA REINERS TERRON)
AUTOR: Adalgisa Nery
EDITORA: José Olympio
QUANTO: R$ 352 (400 págs.)
AVALIAÇÃO: bom
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REBENTAR
"Nem mesmo nas mitologias mais cruéis há tragédia equivalente" a ter um filho desaparecido. É por esse calvário que atravessa a personagem principal do primeiro romance de Rafael Gallo, autor que venceu o prêmio Sesc de Literatura em 2011 com o livro de contos "Réveillon e Outros Dias".
Ângela perdeu-se do filho de cinco anos numa galeria de lojas. Trinta anos depois, ainda está às voltas com buscas em abrigos de moradores de rua e necrotérios, atrás de pistas de seu paradeiro. O livro, que se desenrola no período de um ano, lentamente nos faz repassar a repetição torturante de perguntas que devem preencher a vida de quem tem um filho desaparecido: onde ele estará? será que se lembra dos pais? e, se reaparecer, haverá meios de se reparar os danos e culpas acumulados em tantos anos?
O resultado é um livro perturbador, que se aproxima da dor da personagem de maneira convincente e revela um escritor que, embora jovem, mostra-se à altura do desafio. (ROBERTO TADDEI)
AUTOR: Rafael Gallo
EDITORA: Record
QUANTO: R$ 45 (378 págs.) e R$ 29,45 (e-book)
AVALIAÇÃO: muito bom
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EU SOU FAVELA
Bela e sóbria edição brasileira traz de volta esta antologia de contos de escritores brasileiros, originalmente publicada na França em 2011 pela editora francesa Paula Anacaona.
A seriedade de propósitos editoriais e estéticos que se explicitam na "Apresentação" da organizadora e a qualidade literária dos contos -ainda que variável− legitimam amplamente a iniciativa.
Chama a atenção que não se procure apresentar perfis e extração social dos nove autores, circunstanciando suas trajetórias literárias. Assim, o título escolhido repõe inteligentemente a velha máxima flaubertiana ("Madame Bovary sou eu") e desloca para as mediações especificamente literárias a representatividade das obras.
Nesse sentido, ganham destaque os contos de João Anzanello Carrascoza, Marçal Aquino, Victoria Saramago e Ronaldo Bressane, que dão forma a situações e sentimentos singulares, distantes da lógica, supostamente mais abrangente, da explicitação de causas e consequências das questões sociais implicadas. (Roberto Alves)
AUTORES: vários
ORGANIZAÇÃO: Paula Anacaona
EDITORA: Nós
QUANTO: R$ 22 (80 págs.)
AVALIAÇÃO: muito bom 

Fonte: Folhauol

Fonte: 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Seppir lança Prêmio Antonieta de Barros para jovens comunicadores negros e negras

Ação visa reconhecer iniciativas de jovens comunicadores negros e negras voltadas para a promoção da igualdade racial e superação do racismo



A Seppir lança nesta sexta (4) o edital do Prêmio Antonieta de Barros para Jovens Comunicadores Negros e Negras, que irá contemplar 30 iniciativas ou atividades de comunicação realizadas por jovens negros e negras.
 As ações devem ser voltadas para a promoção da igualdade racial e a superação do racismo. Cada iniciativa receberá um prêmio de R$ 20.000,00. Ao todo são R$ 600 mil em prêmios para fortalecer a comunicação negra no país.
 Os interessados podem inscrever as suas iniciativas até o dia 19 de outubro, protocolando o projeto pessoalmente na Seppir (Esplanada dos Ministérios, Bloco A, Brasília), enviando o material pelos Correios, ou mesmo via Internet, pelo e-mail premio.jovenscomunicadores@seppir.gov.br.
Uma comissão técnica composta pela Seppir analisará os projetos, incluindo representantes da sociedade civil organizada, Seppir e Secretaria Nacional da Juventude.
O resultado preliminar do prêmio está previsto para 09 de novembro de 2015, e a homologação do processo no dia 19 de novembro.
 Sobre Antonieta de Barros
Catarinense nascida em 11 de julho de 1901, Antonieta de Barros foi uma pioneira no combate a discriminação dos negros e das mulheres. Foi a primeira deputada estadual negra do país e primeira deputada mulher do estado de Santa Catarina.
Além da militância política, Antonieta participou ativamente da vida cultural de seu estado. Fundou e dirigiu o jornal A Semana entre os anos de 1922 e 1927. Neste período, por meio de suas crônicas, ela veiculava suas ideias, principalmente aquelas ligadas às questões da educação, dos desmandos políticos, da condição feminina e do preconceito racial. Dirigiu também a revista quinzenal Vida Ilhoa, em 1930, e escreveu vários artigos para jornais locais. Com o pseudônimo de Maria da Ilha, escreveu, em 1937, o livro Farrapos de Ideias.
 Ao longo de sua vida, Antonieta atuou como professora, jornalista e escritora. Como tal, destacou-se, entre outros aspectos, pela coragem de expressar suas ideias dentro de um contexto histórico que não permitia às mulheres a livre expressão; por ter conquistado um espaço na imprensa e por meio dele opinar sobre as mais diversas questões; e principalmente por ter lutado pelos menos favorecidos, visando sempre a educação da população mais carente.
Antonieta faleceu no dia 18 de março de 1952, com 50 anos.
Com informações do site A Cor da Cultura
Fonte: Seppir/PR

Professor e escritor Joel Rufino dos Santos morre no Rio

Historiador era diretor do Tribunal de Justiça do Rio, 

que lamentou a morte. Autor foi premiado por obras

 como 'Uma Estranha Aventura em Talalai'.



Joel Rufino dos Santos (Foto: Reprodução/ TV Globo)
Joel Rufino dos Santos morreu nesta sexta-feira após complicações cardíacas (Foto: Reprodução/ TV Globo)
O professor, escritor, jornalista e historiador Joel Rufino dos Santos morreu nesta sexta-feira (4), por complicações de uma cirurgia cardíaca realizada no dia 1º de setembro. Rufino era diretor-geral de comunicação e de difusão do conhecimento do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que lamentou o falecimento. Ele estava internado na Clínica de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul.
Rufino ganhou o Prêmio Jabuti em 1979 e em 2008 (com as obras "Uma Estranha Aventura em Talalai" e ""O Barbeiro e o judeu da prestação contra o Sargento da Motocicleta", respectivamente).
Joel nasceu em 1941, em Cascadura, no Subúrbio do Rio. Mudou-se para o bairro da Glória e cursou História na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, onde começou a dar aulas. Por conta do golpe militar de 1964, que implementou a ditadura, Joel deixou o Brasil. Morou na Bolívia e no Chile.
De volta ao Brasil, chegou a ser preso por conta da perseguição política. Como autor, venceu o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. Casado com Teresa Garbayo, ele deixa dois filhos e quatro netos. Ainda não há informações sobre o velório e funeral. Em 2008, Joel foi entrevistado para o blog Máquina de Escrever, de Luciano Trigo. Confira algumas das respostas.
G1: Você viveu exilado no Chile e na Bolívia após o golpe de 64. Conte alguns episódios e encontros que o marcaram, no exílio.
RUFINO: Dos poucos meses que passei na Bolívia, me impressionou a mudez de seus índios. Logo compreendi que era uma defesa antiga, vinda da época da Conquista: eles só eram mudos com os que vinham de fora. O altiplano, para brasileiros, é fantástico: as neves eternas, os lagos gelados, as aldeias esparsas… Vi de perto a combatividade das suas lideranças camponesas. Quanto ao Chile, se tornou minha segunda pátria, embora me sinta internacionalista. Ali conheci Thiago de Mello, nosso adido cultural na época, um semeador de amizades. Tínhamos um time, o Pedaço de Mundo. No Chile conheci também Pelé, que tem a minha idade, numa excursão do Santos. Achei que se, além de tudo, ele fosse politizado, seria Deus.
G1: Após voltar ao Brasil, veio a prisão. Que resumo pode fazer dessa experiência?
RUFINO: Voltei do exílio em 1966. Até 1972, conhecei prisões breves e leves. De 1972 a 1974, cumpri pena da Justiça Militar. Passei pelo Doi-Codi, em São Paulo, assisti à morte na tortura de Carlos Nicolau Danielli, vi e ouvi dezenas de outros presos sendo torturados. Tive o meu quinhão de socos e choques elétricos, mas não conheci o pior, a “cadeira do dragão”. É uma experiência inenarrável, no limite do humano. Quem a experimentou, em si ou nos companheiros, não sabe dizer qual é a natureza do torturador. Agora que a Justiça começa a julgá-los, alegam que torturaram em defesa da pátria. Que criaturas são essas?
G1: Nos últimos anos o debate sobre racismo tem crescido no Brasil. Como avalia esse tema, especialmente em relação à questão das cotas?
RUFINO: A ação afirmativa, que serve de base aos sistemas de cotas regionais, raciais, de gênero etc é um princípio democrático. O Estado corrige injustiças ao estabelecer condições justas de concorrência na luta pela vida. Sou, portanto, a favor, embora reconheça efeitos colaterais indesejáveis na aplicação do sistema. Mas um jovem branco que se sinta preterido pelas cotas é, por isso mesmo, capaz de entender a histórica preterição do negro na universidade, na diplomacia, na política e na iniciativa privada.
Fonte: G1.globo.com

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Contos Africanos: A Lua Feiticeira e a Filha que não sabia pilar

A LUA TINHA UMA FILHA BRANCA e em idade de casar. Um dia apareceu-lhe em casa um monhé pedindo a filha em casamento. A lua perguntou-lhe:— Como pode ser isso, se tu és monhé? Os monhés não comem ratos nem carne de porco e também não apreciam cerveja... Além disso, ela não sabe pilar...
O monhé respondeu:
__ Não vejo impedimento porque, embora eu seja monhé, a menina pode continuar a comer ratos e carne de porco e a beber cerveja... Quanto a não saber pilar, isso também não tem importância pois as minhas irmãs podem fazê-lo.
A lua, então, respondeu:
__ Se é como dizes, podes levar a minha filha que, quanto ao mais, é boa rapariga.
O monhé levou consigo a menina. Ao chegar a casa foi ter com a sua mãe e fez-lhe saber que a menina com quem tinha casado comia ratos, carne de porco e bebia cerveja, mas que era necessário deixá-la à-vontade naqueles hábitos. Acrescentou também que ela não sabia pilar mas que as suas irmãs teriam a paciência de suprir essa falta.
Dias depois, o monhé saiu para o mato à caça. Na sua ausência, as irmãs chamaram a rapariga (sua cunhada) para ir pilar com elas para as pedras do rio e esta desatou a chorar.
As irmãs censuraram-na:
__ Então tu pões-te a chorar por te convidarmos a pilar?... Isso não está bem! Tens de aprender porque é trabalho próprio das mulheres.
E, sem mais conversas, pegaram-lhe na mão e conduziram-na ao lugar onde costumavam pilar.
Quando chegaram ao rio puseram-lhe o pilão na frente, entregaram-lhe um maço e ordenaram que pilasse.
A rapariga começou a pilar mas com uma mágoa tão grande que as lágrimas não paravam de lhe escorrer pela cara. Enquanto pilava ia-se lamentando:


__Quando estava em casa da minha mãe não costumava pilar... Ao dizer estas palavras, a rapariga, sempre a pilar e juntamente com o pilão, começou a sumir-se pelo chão abaixo, por entre as pedras que, misteriosamente, se afastavam. E foi mergulhando, mergulhando... até desaparecer.
Ao verem aquele estranho fenómeno, as irmãs do monhé abandonaram os pilões e foram a correr contar à mãe o que acontecera. Esta ficou assustada com a estranha novidade e tinha o coração apertado de receio quando chegou o monhé, seu filho.
Este, ao ouvir o relato do que acontecera à sua mulher, ralhou com as irmãs, censurando-as por não terem cumprido as suas ordens. Apressou-se a ir ter com a lua, sua sogra, para lhe dar conta do desaparecimento da filha.
A lua, muito irritada, disse:
__ A minha filha desapareceu porque não cumpriste o que prometeste. Faz como quiseres, mas a minha filha tem de aparecer!
__ Mas como posso ir ao encontro dela se desapareceu pelo chão abaixo?
A lua mudou, então, de aspecto e, mostrando-se conciliadora, disse:
__ Bom, vou mandar chamar alguns animais para se fazer um remédio que obrigue a minha filha a voltar... Vai para o lugar onde desapareceu a minha filha e espera lá por mim.
O monhé foi-se embora e a lua chamou um criado ordenando:
__ Chama o javali, a pacala, a gazela, o búfalo e o cágado e diz-lhes que compareçam, sem demora, nas pedras do rio onde desapareceu a minha filha.
O criado correu a cumprir as ordens e os animais convidados apressaram-se para chegar ao lugar indicado. A lua também para lá se dirigiu com um cesto de alpista. Quando chegou ao rio, derramou um punhado de alpista numa pedra e ordenou ao porco que moesse.
O porco, enquanto moía, cantou:
__ Eu sou o javali e estou a moer alpista para que tu, rapariga, apareças ao som da minha voz!
Nesse momento ouviu-se a voz cava da menina que, debaixo do chão, respondia:
__ Não te conheço!
O javali, despeitado, largou a pedra das mãos e afastou-se cabisbaixo. Aproximou-se em seguida a pacala e, enquanto moía, cantou:
__ Eu sou a pacala e estou a moer alpista para que tu, rapariga, apareças ao som da minha voz!
Ouviu-se novamente a voz da menina que dizia:
__ Não te conheço!
A gazela e o búfalo ajoelharam também junto do moinho, fazendo a sua invocação, mas a menina deu a ambos a mesma resposta:
__ Não te conheço!
Por último, tomou a pedra o cágado e, enquanto moía, cantou:
__ Eu sou o cágado e estou a moer alpista para que tu, rapariga, apareças ao som da minha voz!
A menina cantou, então, em voz terna e melodiosa:
__ Sim, cágado, à tua voz eu vou aparecer!...
E, pouco a pouco, a menina começou a surgir por entre as pedras do rio, juntamente com o pilão, mas sem pilar. Quando emergiu completamente parou e ficou silenciosa.
Os animais juntaram-se todos, curiosos, à volta da menina.
Então, a lua disse:
__ Agora a minha filha já não pode continuar a ser mulher do monhé pois ele não soube cumprir o que me prometeu. Ela será, daqui para o futuro, mulher do cágado, pois só à sua voz é que ela tornou a aparecer.
Então o cágado levantou a voz dizendo:
__ Estou muito feliz com a menina que acaba de me ser dada em casamento e, como prova da minha satisfação, vou oferecer-lhe um vestido luxuoso que ela vestirá uma só vez, pois durará até ao fim da sua vida. E, dizendo isto, entregou à menina uma carapaça lindamente trabalhada, igual à sua.

Da ligação do cágado com a filha da lua
é que descendem todos os cágados do mundo...


Eduardo Medeiros (org.). Contos populares moçambicanos, 1997
http://www.terravista.pt/Bilene/4619/Conto2.html

Literatura angolana - Alda Lara



Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela, Angola, a 9 de Junho de 1930, e faleceu em Cambambe, Angola, a 30 de Janeiro de 1962. Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova foi para Lisboa onde concluiu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, formando-se por esta última com a apresentação da tese de licenciatura sobre psiquiatria infantilEm Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanosque então quase ninguém conhecia. Depois da suamorte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou  um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI).Figura emAntologia de poesias angolanasNova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa -Angola, Lisboa, s/d (1961?); Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963;Mákua 3idemAntologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumosPoemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva, 1973.
Segundo Orlando de Albuquerque, no prefácio ao livro de Poemas de Alda Lara (PortoVertente, 1984, 4ª ed.), “a sua poesia caracteriza-se por uma intensaangolanidade implícita e, sobretudopor um extremo amor e carinhoquase ternurapelos outrosTernura de menina-mulher, que sofria com os sofrimentosalheiosque vibrava com as desgraças da sua terra […]”.


POEMA

Os gritos perderam-se sem encontrar eco.
Os punhos cerrados e os ódios calados
Dividiram os Homens,
que se não reconheceram mais...

Mas as lágrimas cavaram sulcos fundos
nos olhos vazios de esperança,
e os sulcos não se apagaram...

Fonte: http://lusofonia.com.sapo.pt/

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...