sexta-feira, 8 de maio de 2015

Senado aprova criação do Prêmio Literário Manoel de Barros [Revista Biografia]

Senado aprova criação do Prêmio Literário Manoel de Barros


A comissão de Educação do Senado aprovou o projeto que institui o Prêmio Mérito Literário Manoel de Barros de Poesia. A proposta relatada pela senadora Simone Tebet (PMDB), foi apresentada em novembro do ano passado pelo então senador Ruben Figueiró (PSDB-MS), logo após a morte do poeta.


“O Prêmio Mérito Literário Manoel de Barros de Poesia será uma sementinha a mais para cultivar a eternidade da obra desse poeta do mato, que disse: ‘deixei uma ave me amanhecer’. O Prêmio pretende que a inspiração de seu patrono propicie novos amanheceres para a poesia brasileira”, afirmou Simone Tebet durante a votação da matéria na terça-feira (5), revelando sua admiração pelo poeta.


Ela explicou que o autor da matéria justificou a criação do prêmio devido à importância de Manoel de Barros para a literatura brasileira, pelo conjunto da obra, pelo caráter inovador e até insólito de muitos de seus poemas e pela projeção artística que deu aos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.


 

“A poesia de Manoel de Barros é da nossa natureza. Do Pantanal e do seringal. Da caatinga, do cerrado e do pampa. Nada mais apropriado, portanto, que o Senado Federal institua esse prêmio. Por se tratar de uma Casa de todos os Estados, essa iniciativa deverá fortalecer ainda mais a nossa união, enquanto federação, inspirada na poesia interior de Manoel de Barros”, defendeu Simone Tebet.


O Prêmio


O prêmio será concedido a cada dois anos, a três obras de poesia ou de ensaio sobre poesia brasileira. Os três primeiros colocados receberão um diploma e terão o livro impresso pela gráfica do Senado. Os candidatos poderão se inscrever com obras inéditas ou editadas desde o ano anterior.


“A ideia deste projeto é catalisar a inspiração de tantos poetas, leitores de alma, principalmente do interior deste imenso País. Interior de onde vem a poesia simples, bela, e, ao mesmo tempo, profunda de Manoel de Barros”, disse Simone.


As obras vencedoras serão selecionadas por uma equipe especialmente designada pela Comissão de Educação do Senado.


A entrega do diploma mérito literário aos autores deverá ocorrer em sessão do Senado Federal especificamente convocada para essa finalidade, a realizar-se na primeira quinzena do mês de novembro, em alusão ao aniversário de morte de Manoel de Barros.


O projeto foi elogiado por diversos senadores da Comissão de Educação.  “Sem dúvida nenhuma o poeta Manoel de Barros é mais do que merecedor da iniciativa da homenagem pelo Senado Federal. Esse prêmio virá no sentido de fortalecer o incentivo à leitura”, afirmou a vice-presidente Comissão de Educação e também coordenadora da Frente Parlamentar Mista em defesa do livro, senadora Fátima Bezerra.


Manoel de Barros

Manoel de Barros nasceu em Cuiabá (MT), em 19 de dezembro de 1916 e faleceu em Campo Grande, em 13 de novembro de 2014. Conhecido como o poeta do Pantanal, ele recebeu vários prêmios literários, entre eles, doisPrêmios Jabutis. É um dos mais aclamados poetas brasileiros da contemporaneidade nos meios literários. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada” de 1996.
Fonte: http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Calendário - Cultura Negra - Maio

Dia 02
- Nasce Ataulfo Alves, grande cantor e compositor negro. Miraí/MG (1909).
Dia 03- Nasce Milton Santos, grande geógrafo negro. Macaúba/BA (1933).
Dia 13- A  Lei Áurea extingue oficialmente a escravidão no Brasil. Mas a data é considerada pelo Movimento Negro como uma “mentira cívica”, sendo caracterizada como Dia de Reflexão e Luta contra a Discriminação (1888).
Dia 13- Nasce Lima Barreto, escritor, jornalista e militante da causa negra. Rio de Janeiro/RJ (1881).
Dia 14- Líderes da Revolta dos Malês são fuzilados. Campo da Pólvora, Salvador/BA (1835).
Dia 18- Criado o Conselho Nacional de Mulheres Negras. Rio de Janeiro/RJ (1950).
Dia 19- Nasce Malcom X, um dos maiores defensores dos direitos dos negros nos Estados Unidos. Omaha/Nebrasca (1925).
Fonte: Fundação Cultural Palmares

Luis Gama, o abolicionista




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Ele nasceu em Salvador, filho de um português e da ex-escrava Luiza Mahin, e antes de chegar a São Paulo percorreu incríveis caminhos

Por: Roberto Pompeu Do Veja SP
Ele está ali no Largo do Arouche, no canto que confronta o encontro das ruas Jaguaribe, Vitória e do Arouche. O semblante é sisudo, a barba farta, o peito aparece envolvido num pesado jaquetão. A expressão, calcada numa foto de Militão Augusto de Azevedo, o primeiro fotógrafo a registrar cenas e gentes de São Paulo, não corresponde ao que se sabe dele. Era alegre e sem cerimônia. Segundo Raul Pompéia, o autor de ‘O Ateneu’, que foi seu grande admirador, ele tinha “um modo franco e descuidoso, com pretensões à brutalidade, e desmaiando em doçura insinuante, paternal”. O busto naquele ângulo do Largo do Arouche é do poeta, jornalista, advogado, republicano e abolicionista Luís Gama (1830-1882), o primeiro grande — enorme — líder negro de São Paulo.
Luís Gama nasceu em Salvador, filho de um português e da ex-escrava Luiza Mahin, nascida na Costa da Mina, e antes de chegar a São Paulo percorreu incríveis caminhos. Tinha 10 anos quando o pai o levou ao cais do porto e, conversa vai, conversa vem com um conhecido que encontrou por lá, de repente o menino se deu conta do que estava acontecendo: “Pai, o senhor me vendeu!”. Junto com outros escravos, foi embarcado no patacho ‘Saraiva’ e despejado no Porto de Santos, de onde seguiria a pé até Campinas. Mais tarde, em São Paulo, lavou, passou, engomou e serviu como sapateiro, mas ao mesmo tempo aprendeu a ler, tomou gosto, estudou e enveredou pelo exercício da advocacia, mesmo sem ser formado. Como advogado prático, ou rábula — a palavra não é bonita, mas é isso mesmo que ele era —, obteve a primeira grande vitória produzindo provas que o livraram da condição de escravo.
Luís Gama foi um campeão da verve a serviço da combatividade. Como poeta, especializou-se na sátira, ou nas “trovas burlescas”, como as chamava. Numa delas, atribuiu-se o apelido de “Orfeu de carapinha”. Noutra, jogando com a palavra “bode” no sentido de mestiço, escreveu: “Se negro sou, ou sou bode, / Pouco importa. O que isto pode?”. Como jornalista, tinha um lado de terrível polemista, cuja principal causa era a luta contra a escravidão, e outro de humorista, nos semanários ‘O Polichinelo’ e ‘O Cabrião’. Sua militância culminava na advocacia em favor dos escravos. Estampava nos jornais anúncio que dizia: “O abaixo assinado aceita, para sustentar gratuitamente perante os tribunais, todas as causas de liberdade que os interessados lhe quiserem confiar. Luís Gonzaga Pinto da Gama”. Centenas, talvez milhares de causas dessa natureza lhe chegaram às mãos, e muitas vezes ele teve êxito. Um de seus recursos era invocar a desmoralizada lei de 1831 que teoricamente abolira o tráfico interoceânico de escravos — a famosa “lei para inglês ver”. Se o africano fora trazido ao Brasil depois dessa data, a escravização era ilegal.
Luís Gama formou à sua volta uma volumosa corte de admiradores. Nela se aglutinavam os negros, os estudantes da Faculdade de Direito (entre os quais Raul Pompéia), a elite letrada, formada por escritores e jornalistas, e mesmo alguns membros da crescentemente poderosa elite cafeeira. Seu enterro, no dia 24 de agosto de 1882, foi uma apoteose que mobilizou toda a provinciana São Paulo. O cortejo teve, desde a Rua do Brás (a atual Rangel Pestana), onde Luís Gama tinha sua modesta morada, até o Cemitério da Consolação, um acompanhamento que incluía de negros humildes a um membro destacado da mais rica família do período, Martinico Prado. Seu túmulo ainda está lá, no Cemitério da Consolação, identificado por uma simples lápide: “Abolicionista Luís Gama, ✭ 21-06-1830 ✝ 24-08-1882”. No Largo do Arouche, sobre um pedestal que diz “Por iniciativa do progresso / Homenagem dos pretos do Brazil”, ele vela pela dignidade dos negros de São Paulo
6/5/2015Geledés Instituto da Mulher Negra
Fonte: Leia a matéria completa em: Luis Gama, o abolicionista - Geledés 
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terça-feira, 5 de maio de 2015

Os 100 anos do ícone literário A Metamorfose, de Franz Kafka


Milton Ribeiro
Apesar de ter sido publicada em Leipzig no ano de 1915, A Metamorfose foi escrita em 1912, após vinte dias de trabalho. Em 7 de dezembro de 1912, Franz Kafka (1883-1924) escreveu à sua eterna e repetida noiva, Felice Bauer: “Minha pequena história está terminada”. A marca que ela deixou na cultura ocidental é tão profunda quanto aquela deixada por1984 de George Orwell e por pouquíssimos outros livros dos últimos séculos. Com efeito, aqueles que leram a pequena obra de pouco mais de 30 mil palavras, dificilmente deixarão de lembrá-la e, dentre os apaixonados por literatura, não é raro encontrar quem saiba recitar de cor o início da novela, certamente uma das melhores e mais intrigantes aberturas da literatura de todos os tempos:
Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre o qual a coberta, prestes a deslizar de vez, apenas se mantinha com dificuldade. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação com o volume do resto de seu corpo, vibravam desamparadas ante seus olhos.
O que terá acontecido comigo?” ele pensou.
Tradução de Marcelo Backes para a L&PM
Kafka em 1912
Kafka em 1912
Há uma nota muito significativa escrita por Kafka. Dois meses antes, ao finalizar O Veredicto, outra pequena novela, Kafka registrou em seu diário que havia descoberto “como tudo poderia ser dito”. A Metamorfose foi a primeira tentativa após a nota.
Felice Bauer foi por duas vezes noiva de Kafka, jamais casaram
Tudo é muito enigmático em se tratando de Kafka, mas certamente a frase escrita tem o significado de uma iluminação. Tudo o que o escritor criou em seus 12 últimos anos de vida — uma notável série de romances e novelas onde podem ser listados O Foguista, Diante da Lei, A Colônia Penal, O Processo, Carta ao Pai, Um Médico Rural, O Artista da Fome, O Castelo e A Construção, dentre outros –, são obras ou de primeira linha ou de conteúdo nada desprezível ou esquecível. O crítico Otto Maria Carpeaux, que emigrou para o Brasil com a ascensão do nazismo, lembra de quando conheceu o escritor:
— Fui apresentado a Kafka em Praga. Estávamos num jantar. Disseram-me que se tratava de um gênio. Era muito magro, sabemos hoje que tinha 1,82 m e por volta de 65 quilos. Estava num canto, sozinho. Fui até ele de forma a integrá-lo na conversa geral. Quando me apresentei, entendi seu nome como Kauka, porque ele falava muito baixo. Ora, se era Kauka, não era aquele autor do qual recebera dois livros que ainda não lera. Tentei puxar conversa, mas ele não dava continuidade, respondendo apenas o mínimo. Achei que incomodava e me afastei.
Depois, Carpeaux teve um curioso contato com A Metamorfose… Um editor devia-lhe 130 marcos, os quais o crítico resolvera cobrar:
“Pagar não posso, querido”, disse o editor, “mas se você quiser, pode levar, em vez de pagamento, esse exemplar e, se quiser, a tiragem toda. O Max Brod, que teima em considerar gênio um amigo dele, já falecido, me forçou a editar esse romance danado. Estamos falidos. Nem vendi três exemplares. Se você quiser pode levar a tiragem toda. Não vale nada”.
Fiquei triste. Tinha esperado um pagamento de 130 marcos, e o homem me queria dar seu encalhe. Agradeci com amargura. Mas levei comigo o exemplar que já tinha aberto de Die Verwandlung, A Metamorfose, de Franz Kafka.
Foi a maior burrice de minha vida inteira. Toda aquela tiragem foi vendida como papel velho. Um exemplar da 1ª edição de “O Processo” é hoje uma raridade para bibliófilos. Nos Estados Unidos paga-se mil dólares por um livro desses, ou mais. Se eu tivesse aceito o presente, seria hoje milionário… (texto de Carpeaux dos anos 60)
Kafka com seu grande amigo Max Brod na praia
Carpeaux — um grande crítico literário, autor de uma alentada História da Literatura Ocidental em oito volumes — arrependeu-se pelo resto da vida por ter desistido tão rápido de conversar com um escritor que passaria a incensar poucos anos depois. Ele ouvira errado, não era Kauka, era o Kafka dos dois livrinhos recebidos.  É compreensível que Carpeaux lamente a perda da oportunidade quase inédita; afinal, Kafka nunca chegou a ser conhecido enquanto vivo. Era um escritor obscuro que publicava alguma coisa e engavetava outras. Quando morreu, pediu a um bom amigo que destruísse seus escritos não publicados. Para nossa sorte, Max Brod foi um amigo ainda melhor e o traiu, salvando para o mundo romances como O Processo e O Castelo.
Hoje, os volumes de crítica da obra de Kafka enchem estantes, mas os enigmas permanecem, mesmo em relação a A Metamorfose. Sabe-se que Kafka leu trechos da obra para Max Brod e amigos em bares. Os biógrafos dizem que o grupo ria do grotesco das cenas. Kafka também. É possível ler Kafka em registro cômico, sem dúvida, mas é indiscutível que a leitura mais grandiosa é a que coloca o homem em desespero frente à existência. Há uma quase imperceptível camada de humor e outra de ironia, esta pouco mais espessa, perpassando seus textos, mas o efeito geral nunca pode ser descrito como alegre ou engraçado. Na verdade, é um narrador imperturbável contando uma história sufocante, sem apelar para fórmulas de suspense ou terror. Gunther Andres, na página 19 de Kafka: pró e contra (os autos do processo), resume brilhantemente: “O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”.
Franz Kafka com a irma Ottla, no Centro Histórico de Praga
O título A Metamorfose provavelmente se refere não somente à mudança física de Gregor Samsa – nome estruturalmente bem semelhante à Kafka, não? –, que se torna um inseto “certa manhã”, como a todas as outras mudanças decorrentes na família. Se antes da metamorfose toda a família dependia de seu trabalho como caixeiro-viajante e o apoiava e amava, com a transformação em inseto e consequente prisão no quarto, o pai é obrigado a voltar a trabalhar, a ingênua e pura irmã de 17 anos também, a mãe passa a costurar e a casa transforma-se numa hospedaria onde Gregor é mais do que dispensável, é indesejado. A transformação física de Samsa gera outra metamorfose e pode-se dizer que ele passa de parasitado a parasitário, de arrimo a peso morto e objeto de repulsa.
Kafka pedira “encarecidamente” que a figura de Gregor não fosse retratada por seu editor, a posteridade não lhe deu atenção
É estranho que Gregor acorde aquela manhã sem tentar analisar o que teria acontecido, como e por quê. A pergunta “O que terá acontecido comigo?” é isolada. Depois, ficamos sabendo de suas incomodações com a vida anterior e temos a impressão de que a atual tanto faz. Em alguns momentos da narrativa, ele parece estar vingando-se, em outros, concupiscente. O ostracismo no seio familiar, a pressão do trabalho, a necessidade de obedecer, a profunda impressão de estar sendo escravizado, tudo o que a novela sugere encontra repercussão na vida do autor. Kafka escreveu em seu diário: “Vivo em minha família mais deslocado do que um estranho”. A leitura da história do homem tornado inseto é inteiramente realista. O problema familiar recebe uma importante observação do tradutor Marcelo Backes: “Kafka invoca seu pai, mãe e irmã quase sem o uso dos pronomes possessivos. É algo muito insistente. É raro que o narrador fale de SUA irmã, de SEU pai, de SUA mãe. Eles são, na maior parte das vezes, apenas pai, mãe e irmã, sem a afetividade do pronome possessivo e vivendo tão-só em sua condição genérica de pai, mãe e irmã”.
No clássico Conversações com Kafka (1920-1923), Gustav Janouch cita que Kafka afirmara que “A metamorfose não é uma confissão, ainda que – em certo sentido – seja uma indiscrição”. Indiscrição certamente menor do que a célebre Carta ao Pai, mas não tergiversemos.
Detalhe da adaptação para os quadrinhos de ‘A metamorfose’, de Franz Kafka, desenhada por Peter Kuper (Clique sobre a imagem para ampliar)
A forma como Kafka monta rapidamente os conflitos do livro também surpreende. O primeiro está no famoso primeiro parágrafo, depois há outros dois conflitos graves, construídos na mesma linguagem direta e sucinta, de exatidão quase cartorial: o momento em que Gregor é visto pela primeira vez por seus familiares — uma cena de notável realização artística de Kafka — e o momento onde a irmã de Gregor, Grete Samsa, aconselha seus pais a livrarem-se do enorme inseto, pois já haviam tentado de tudo para conviver com ele. Há uma visita do gerente da empresa onde Gregor trabalha. Ele quer saber o que está acontecendo, uma vez que se trata de um funcionário responsável.  Há também a interpretadíssima agressão com a maçã, mas talvez o que deixe o leitor mais perturbado é o que subjaz desde a primeira até a última palavra: é o fato de que outro acontecimento extraordinário simplesmente não ocorre. Não há o momento de explicação para o acontecido ou do retorno ao estado normal. Na verdade, não há explicações, tudo fica aberto às interpretações, há uma aristotélica e perturbadora ausência do esquema clássico de exposição, conflito, clímax e conclusão.
Kafka pediu a seu editor que evitasse desenhar, mesmo de longe, a figura de Gregor, mas hoje temos versões de Gregor Samsa até em quadrinhos, além de filmes. Para alguns trata-se de uma barata, apesar de que os sinais indicam claramente para uma espécie de besouro. Invocamos novamente o tradutor Marcelo Backes: “Kafka o refere apenas como “rola-bosta” (besouro). Mas o que é objetivo pode ser tanto mais difuso, uma vez que Mistkäfer(rola-bosta) pode-se referir também e inclusive a uma pessoa suja e descuidada, ou tratar-se de um escaravelho qualquer, uma vez que é designação comum a insetos coleópteros, coprófagos e escarabeídeos, que em geral vivem de excrementos de mamíferos herbívoros”.
Kafka sempre dizia: “Tudo o que não é literatura me aborrece, e eu odeio até mesmo as conversações sobre literatura”. O que incluiria certamente este artigo. Ele tem razão, vale muito mais a pena ler a pequena e revolucionária novela.

Uma curiosa campanha para o incentivo à leitura, feita pela Johnson County Library em 2010
Fonte: 

Com igrejas bilíngues e lojas típicas, haitianos mudam cara de bairro em SP

Glicério: the Haitian Neighborhood in SP

Foto divulgação

"Merci, Seigneur! Merci!", mãos levantadas ao céu, grita o pastor. Domingo, 9h, e a igreja Assembleia de Deus, no Glicério, está cheia.Acomodadas em cadeiras de plástico, cerca de 70 pessoas cantam sem parar. Não fosse o idioma, o ritmo já deixaria claro que algo ali é diferente.
Com exceção de um missionário africano, de duas mulheres e de um religioso brasileiros, todos são haitianos.

A menos de 50 metros, dez jovens negros com fivelas cromadas nos cintos e camisas cor­de­rosa abotoadas até o colarinho recepcionam os fieis em outra celebração. Trata­se da Igreja Batista Bethlehem. Ali ao lado da Liberdade, tradicional reduto oriental, os haitianos já mudaram a cara da região. Assim como a cidade cresceu com italianos, árabes e judeus, rapidamente São Paulo vai ganhando um novo bairro de imigrantes, um "bairro negro". Há também africanos, mas os haitianos são a maioria. "Pode escrever aí, mais um ano e o Glicério vai ter só loja de haitianos", vaticina o pastor Luciano Gomes, 44, que aprendeu francês e creole [língua derivada do francês)

Igrejas evangélicas com cultos bilíngues são ao menos três. Lojas de roupas, cabeleireiros, lan houses e, agora, um restaurante de comida típica também abriram suas portas na região.
Aos poucos, essa população que busca por empregos e se fixar na capital vai fazendo o dinheiro girar no bairro.
O "epicentro" desse fluxo fica na rua do Glicério, na Missão Paz ­entidade ligada à Pastoral do Migrante. Andar por ali é mergulhar numa extensão paulistana de Porto Príncipe (capital do Haiti).
Desde o início de 2014, o local passou a abrigar um número cada vez maior desses imigrantes enviados pelo governo do Acre, por onde chegam ao país. Diariamente, cerca de cem novos haitianos eram enviados a São Paulo.
O fluxo inesperado gerou atrito entre os Estados. Atualmente, no entanto, o número caiu para não mais do que 30 por dia ­o que surpreendeu o coordenador da Missão Paz, padre Paolo Parisi.
Segundo a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre, 850 haitianos permanecem em um abrigo em Rio Branco. O Estado, porém, parou de pagar as passagens para que eles saiam de lá e espera que o governo federal assuma a gestão do local.

'REI DO GLICÉRIO'

À Missão Paz também acorrem diariamente centenas de haitianos já instalados em São Paulo. Procuram informações de quem chegou, de quem partiu e, principalmente, buscam por emprego.
Às terças e quintas­feiras, o salão da igreja Nossa Senhora da Paz, onde funciona a entidade, recebe empresários em busca de mão de obra.
O número de contratantes, porém, vem caindo, e o emprego, cada vez mais, parece estar do "outro lado da rua".
Na calçada em frente à igreja, o fluxo é intenso numa pequena galeria. Ali, Robson Pierre, 42, é o dono de um salão de cabeleireiros, de uma lanchonete, de um restaurante e de um box alugado apenas para disponibilizar acesso gratuito à internet.
Há três anos no Brasil, o ex ­vendedor de carros no Haiti rejeita o título de "Rei do Glicério". "Todo mundo fala de mim, mas ninguém me conhece. Saio cedo e trabalho até de noite. Então não sou rei de nada. Só trabalho", diz, atrás do balcão em que se vê macarrões instantâneos, bolachas recheadas, CDs e shampoos, assim mesmo, tudo junto.
Nem todos, porém, encontram por aqui a prosperidade de Robson. Metade dos fiéis da igreja do pastor Luciano está desempregada.
Charles Lunes, 33, é um deles. Paga R$ 600 de aluguel. Vive com os R$ 300 que restam do salário da mulher. Enquanto procura por trabalho, frequenta a Assembleia de Deus. Seu filho, Charles Luckson, 9, é baterista na igreja.
"São pessoas que vieram para cá depois de ir para o Sul. Os contratos acabaram e então voltaram", diz o pastor.
Entre eles, um chama a atenção. John Vixamar, 28, fala inglês, espanhol, francês, creole e agora português. Fiscal de um supermercado, recebe cerca de R$ 1.000. Há um ano cursa engenharia civil, graças a uma bolsa. Irmão de um médico que tenta revalidar o diploma no Brasil, faz planos para depois de formado. "Vou ganhar mais e ter minha casa",
afirma. "Merci, Seigneur! Merci!"
Fonte: folhauol

sábado, 2 de maio de 2015

A noite não adormece nos olhos das mulheres




A noite não adormece nos olhos das mulheres

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

(Conceição Evaristo – Em memória de Beatriz Nascimento)

Fonte: http://nossaescrevivencia.blogspot.com.br/search/label/escrevivencia

Aliada à Educação, literatura juvenil conta história do povo negro


africas-e-diasporas II
Segundo a professora doutora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Maria Anória, estudiosa da área de Literatura Afro-Brasileira, o número de livros que abordam a temática racial, direcionados para crianças e jovens, aumentou bastante. Mas, de acordo com a pesquisadora, há também inúmeros “afro-oportunistas”, escritores não envolvidos com as relações étnico-raciais, mas que “aproveitam” o tema para se favorecer dentro da lógica do capitalismo, do lucro. “Muitos destes livros não rompem com os preconceitos raciais e com a visão equivocada de África. Há muitos afro-oportunistas”, frisa.
A doutora Narcimária Luz também afirma que a literatura infanto-juvenil, que menciona assuntos sobre raça cresceu no Brasil, mas pontua que há “deformações”. “Por conta da lei n. 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de nível fundamental e médio, muito se produziu sobre o tema. Muitas “deformações” viraram clássicos, mas não possuem nenhum vínculo com a comunidade africana, afro-brasileira, pois os autores inserem personagens negros a partir de uma visão euro-americana”, esclarece a autora de Obá Nijó, livro infanto-juvenil que conta a história de um menino, filho de africanos, que nasceu em Itapuã, na Bahia do começo do século XIX.
A professora Taísa Sena diz que leva para a sala de aula livros que se referem à cultura africana. Por um desses materiais, trabalhados na escola pela docente, trazer informações sobre o candomblé, a pedagoga disse que já foi “ameaçada” por uma mãe evangélica. “Ela disse que eu estava desrespeitando a religião dela porque eu falei, na sala de aula, sobre a religião de matriz africana”, menciona. Taísa ressaltou que percebeu a identificação dos alunos com o livro. “É importante esse tipo de discussão. Precisamos trabalhar as diferenças. Então, temos de trabalhar estas questões”, conclui.
A educadora Mileide Santos comenta, para o Portal Correio Nagô, que não é fácil levar a temática racial para a sala porque sempre há “choques”. “Os alunos do local que eu ensino são, em grande maioria, católicos ou evangélicos. É fácil se perceber o racismo. Por eu usar uma indumentária étnica, muitos, no início, não quiserem me aceitar como professora. O tema [preconceito] ronda a escola porque há muitas cenas de racismo. Eu trabalho muito com eles sobre isso, mas é um processo lento e contínuo”, acrescenta.
africas-e-diasporas
Maria Anória diz que é preciso formar mais professores “aliados com a luta para desativar esta ‘bomba’ que é o racismo, que corrói a nossa sociedade ao longo do tempo”, diz. Em 2014, Maria Anória lançou, pela editora EDUNEB, o livro “Áfricas e Diásporas na Literatura Infanto-Juvenil no Brasil e em Moçambique”, resultado da sua tese de doutoramento.
Racismo sala de aula – Em 2013, no estado de Amazonas, um grupo de estudantes se recusou a fazer trabalho sobre a cultura afro-brasileira. Neste ano, 2015, esta notícia tem sido muito veiculada nas redes sociais. Sobre essa questão, a doutora Narcimária Luz diz que com a lei 10.639 está encontrando terreno fértil para abordar a temática racial. “Há algumas décadas era impossível falar sobre o assunto. A lei está aí para desarmar. O negócio é não abrir mão dela. Antigamente, o racismo, na sala de aula, era feito na hipocrisia. Agora, é realizado a partir da violência”, argumenta.
Fonte: Da Redação do Correio Nagô

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...