segunda-feira, 9 de junho de 2014

Os cotistas desagradecidos

Família de Albino Postali e Rosa Frizera Postali_ Caxias do Sul _ 1911_ Foto de Primo Postal

Por Tau Golin*, em  Sul 21
A incoerência é típica dos desagradecidos. É o auge da hipocrisia individualista, o que há de mais nojento no ser humano. A cena patética de cuspir no prato e enfumaçar a história.
Depois que o Brasil começou recentemente a política de cotas, a algaravia da intolerância tomou conta do país. A cota, no geral, é um pequeno acelerador para retirar as pessoas da naturalização da miséria, um meio temporário de correção histórica da condição imutável da pobreza. Se a política de cotas é essencial em sociedades estratificadas, pode-se imaginar a sua necessidade neste Brasil amaldiçoado pela escravidão e etnicídio dos povos indígenas.
Nos meios de comunicação observa-se o triunfo de uma enganosa ética do trabalho, o elogio do esforço individual, como se seus porta-vozes levantassem como fênix das cinzas das dificuldades para o voo da prosperidade. Gente empobrecida, ao mesmo tempo, amaldiçoa os cotistas, culpando-os pela sua condição de pouco progresso, apesar de trabalharem a vida toda como jumentos. Invariavelmente realizam o elogio do trabalho, do esforço pessoal, sem questionarem aqueles que acumulam os produtos de seu esgotamento e imutabilidade social.
Nos ambientes sociais, invariavelmente, escuto descendentes de imigrantes condenarem a política de cotas. São ignorantes ou hipócritas. A parte rica do Rio Grande do Sul e outras regiões do Brasil é o presente de cotistas do passado. As políticas de colonização do país foram as aplicações concretas de políticas de cotas. Aos servos, camponeses, mercenários, bandidos, ladrões, prostitutas da Europa foi acenado com a utopia cotista. Ofereceram-lhes em primeiro lugar um lugar para ser seu, um espaço para produzir, representado pelo lote de terra; uma colônia para que pudesse semear o seu sonho.
E lhes alcançaram juntas de bois, arados, implementos agrícolas, sementes, e o direito de usar a natureza – a floresta, os rios e minerais – para se capitalizarem. No processo, milhares não conseguiram pagar a dívida colonial e foram anistiados. E quando ressarciram foi em condições módicas.
Sendo cotistas do Brasil puderam superar a maldição de miseráveis, pobres, servos, e de execrados socialmente. Muitos sequer podiam montar a cavalo, hoje, seus descendentes são até patrões de CTG, mas condenam as cotas, a mão, a ponte, o vento benfazejo, que mudaram a vida de suas famílias.
No início, no século XVIII, sobre os territórios dos charruas, minuanos, kaingangs e guaranis se aplicou a cota de “sesmaria”, um módulo de algo em torno de 13.000 (sim, treze mil) hectares. Se exterminou dois povos nativos para se formar a oligarquia. Em seguida, na metade do mesmo século, aos casais açorianos, destinaram-se “datas”, equivalentes a 272 hectares. No século XIX, aos imigrantes, concederam-se as “colônias”, de mais ou menos 24 hectares. E vieram as colonizadoras particulares e as secretarias do Estado sobre os territórios dos kaingangs e guaranis. E depois a reforma agrária. E mais os programas de expansão da frente agrícola no Brasil central, no Mato Grosso e na Amazônia, com filhos do Rio Grande, na maioria as primeiras gerações dos imigrantes.
Portanto, o Rio Grande é o produto dos cotistas, os quais demandaram sobre outras regiões do país.
E nesta história, a conclusão é óbvia: dificilmente se encontra um indivíduo que não tenha tido familiar cotista. A formação do mercado capitalista de força de trabalho é outra conversa. Faz parte do sistema. Como integra a perversão social o fato histórico de que os proprietários tendem ao individualismo, à baixa solidariedade, ao acúmulo sem compromisso cidadão. Demonstram isto os herdeiros dos cotistas do passado e dos programas de incentivos recentes, com a discriminação, a falta de solidariedade, exacerbado racismo, e o típico deboche dos idiotas.
*Tau Golin é jornalista e historiador.
Fonte: Geledes

Novo livro de José Eduardo Agualusa responde a inquietação dos africanos diz Autor

Novo livro de José Eduardo Agualusa responde a inquietação dos africanos diz Autor

O escritor José Eduardo Agualusa disse à Lusa que o seu novo romance, “A Rainha Ginga”, responde a “uma inquietação” dos angolanos que querem conhecer o seu passado, numa nova perspetiva.

O escritor de 53 anos, em declarações à Lusa, descartou a qualificação da rainha Ginga como uma nacionalista.
“Como nacionalista angolana é um disparate evidentemente, a rainha Ginga não tinha sequer uma noção do que é Angola e não combateu por isso. Combateu pelo seu próprio projeto de poder pessoal, dentro do seu grupo étnico”, os dongos, disse o escritor.
Falando sobre o romance, que é apresentado na sexta-feira, em Lisboa, Agualusa afirmou que, desde sempre, se interessou pela a rainha e que este é um “livro que queria escrever há muito tempo”, mas que lhe “parecia muito difícil e até impossível”.
“Este livro responde a uma inquietação mais geral, que sinto da parte de todos os angolanos, e até africanos. Por coincidência, o Mia Couto está neste momento a trabalhar num romance sobre o Gungunhana. É uma coincidência, mas corresponde a uma inquietação [africana] mais geral”.
“Este romance vai ter um outro impacto junto dos africanos e vai ser lido de outra forma pelos africanos, que querem conhecer melhor o passado e conhecê-lo numa outra perspetiva, nomeadamente a de um africano”, afirmou.
O romance “A rainha Ginga. E de como os africanos inventaram o mundo” é apresentado pelo escritor moçambicano Mia Couto, na sexta-feira, às 21:30, no Clube Ferroviário, em Lisboa. Nesta sessão, Kalaf Ângelo irá ler excertos da obra, acompanhado pelo contrabaixista Ricardo Cruz.
O que levou José Eduardo Agualusa “a escrever este livro foi mostrar como os africanos foram parte ativa, e de uma forma bem mais vigorosa, daquilo que se estuda nos compêndios europeus, neste processo de construção de nações, de redesenhar o mapa do mundo”.
Na luta contra o poderio português, que se estabelecia naquela região da atual Angola já há cem anos, “Ginga quase triunfou; foi por uma unha negra [que foi derrotada]“, diz Agualusa. “Ela aliou-se aos holandeses e, tivesse triunfado, o mapa de África seria hoje bem diferente, e o mapa da lusofonia também”.
A rainha viveu entre 1583 e 1663 e, nesta época — século XVII –, Agualusa sublinha que “já existia um ambiente urbano-africano, já existia uma cidade de Luanda, luandenses e até há referências a euro-africanos, filhos de portugueses brancos nascidos em Angola, sendo que muitos desses portugueses eram nascidos no Brasil”.
A obra sublinha “factos pouco conhecidos”, como a participação de índios do Brasil, ao lado das tropas holandesas combatendo o poderio português em África, ou que foi um negro de Angola, Henrique Dias, quem derrotou tropas holandesas no Brasil e restabeleceu o domínio português, “tendo participado depois no resgate de Luanda”, que caíra em mãos neerlandesas. “E nessas tropas há também índios”.
“Este é o período em que Angola está a começar, e também o Brasil, que ainda não era o país que conhecemos, com as fronteiras atuais, e até, de certa maneira, o Portugal contemporâneo está também a acontecer e os africanos são parte muito ativa na transformação por completo de todos estes territórios”, salientou.
Agualusa referiu-se à rainha Ginga como “uma personagem apaixonante, completamente presa a Angola”.
“É impossível crescer em Angola sem ouvir falar da rainha Ginga. Eu cresci a ouvir falar dela”, enfatizou.
Sobre Ginga, o autor afirmou que “agia como homem, exigia ser tratada como rei, vestia-se como homem nos campos de batalha e combatia ao lado de outros homens, e tratava os outros homens como mulheres, e isto vê-se na sua correspondência. Por exemplo, na sua segunda conversão ao cristianismo, em que ela se debate com qual mulher ficaria, na verdade essas mulheres [a que se refere] são homens”, contou.
A tradição cristã consagra o matrimónio monogâmico, sendo diferente da tradição do povo dongo e de outros povos africanos na época.
Para se “aventurar” a escrever este romance histórico, Agualusa disse que teve de se “informar mais” e precisou de se “colocar na cabeça da Ginga, no seu universo”, salientando que “tudo aconteceu numa época muito recuada”.

Negros defendem mudanças na educação para garantir respeito à diversidade racial

Dalila Negreiros

O Brasil precisa garantir mudanças na educação pública para oferecer aos estudantes melhor acesso à cultura africana, a fim de se combater a discriminação racial. A advertência foi feita pelos participantes da sessão solene que a Câmara Legislativa realizou na manhã desta sexta-feira (30) para homenagear a África e também a “Década das Mulheres”, conforme proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU). O dia internacional dedicado ao continente africano é 25 de maio.
O evento – de autoria do deputado Cláudio Abrantes (PT) – reuniu, no plenário, militantes do movimento de defesa da igualdade racial, além de representantes de entidades e órgãos do governo ligados às questões raciais e de gênero. Contou ainda com embaixadores e membros do corpo diplomático de países africanos. Nas manifestações, foi  unânime o discurso de defesa da luta contra o racismo e de reconhecimento da relevância das raízes culturais africanas para a formação do povo brasileiro.
“O Brasil é africano”, ressaltou Abrantes, ao lembrar que grande parte dos africanos que vivem fora do continente natal está aqui no Brasil. “Temos 51% da nossa população atual composta por afrodescendentes. Dos 54 países da África, apenas a Nigéria tem mais negros do que o Brasil”, afirmou o parlamentar, que elogiou os “avanços” econômicos, sociais e políticos conquistados nos últimos anos pelos países africanos, citando como exemplo o processo de democratização naquela região e de inclusão social das mulheres africanas.
A assessora da Secretaria de Políticas de Ações Afirmativas, Dalila Negreiros, representando a ministra Luiza Bairros, enfatizou a necessidade de a sociedade brasileira se engajar na luta do continente africano contra o colonialismo econômico e cultural. E afirmou que aquele ministério tem como prioridade estabelecer parcerias de cooperação junto aos países africanos na área de educação.
Colonialismo - A efetivação de mudanças no ensino de História sobre a herança cultural africana “fora da visão europeia, colonialista”, no currículo das nossas escolas, é uma das medidas mais significativas a serem adotadas no  Brasil em favor do respeito à diversidade racial e combate ao racismo. A constatação foi feita pela coordenadora de educação em diversidade da Secretaria de Educação do DF, Ana Marques. Ela informou que aquela pasta tem investido em mudanças pedagógicas previstas pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que valorizam o ensino da cultura africana.
Também o secretário Veridiano Custódio, da Secretaria  Especial da Promoção da Igualdade Racial do DF, enfatizou  a necessidade de o Estado brasileiro garantir políticas públicas para se combater a discriminação racial no País. Ele citou como exemplos positivos as ações afirmativas de criação de cotas para negros para ingresso nas universidades e também nos concursos públicos, “que ainda enfrentam resistência dos representantes das elites”.
Ao final da sessão solene, vários representantes das nações africanas agradeceram a homenagem da Câmara Legislativa, ressaltando a importância da solidariedade demonstrada pelo povo brasileiro às lutas dos seus povos. Entre os  embaixadores presentes compuseram a Mesa, a embaixadora da Etiópia, Sinknesh Ejigu, e o embaixador do Zimbabwe, Thomas Bvuma, entre outros. Todos eles lembraram que as mulheres africanas estão cada vez mais assumindo postos de comando na política.
Zildenor Ferreira Dourado – Coordenadoria de Comunicação Social
Fonte: Geledes

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ondjaki: “A África tem uma força cultural gigantesca. Espero que possamos deixá-la acontecer”

Ondjaki - Foto: Michael Rughes - Divulgação

Natalia da Luz, Por dentro da África
Rio – Ele é referência na literatura angolana, faz parte de uma produção que retrata a África em sua essência, com sua cultura, percalços e orgulhos. Aos 36 anos, Ondjaki já escreveu mais de 18 livros entre poesia, conto, romance… Com intensidade, ele transborda para o papel as sensações que, facilmente, são transformadas em poesia, gênero que ocupa um espaço especial em sua vida, não apenas de escritor.

Há 4 anos no Brasil, o sotaque angolano é nitidamente presente, é parte da sua identidade em construção diante da abertura a uma nova cultura. “Abertura ao fato de querermos mudar, de podermos mudar e sermos vários. Admite, assim, que a identidade, as opções, as convicções, podem, também,  ser arejadas e mutáveis, como uma varanda, como um pedaço de mar…”

Ondjaki significa guerreiro em umbundu (a segunda língua mais falada em Angola), nome escolhido por sua mãe antes de seu nascimento. Apesar de não estar no registro de nascimento, Ondjaki foi apropriado para a sua estrada artística, que elege Luanda como o cenário de suas principais estórias. “Acho que quem cresceu em Luanda sente um pouco disso, uma “transbordância” muito forte. Basta andar por perto, deixar-se invadir, sonhar…”
Livro de Ondjaki - "Uma escuridão bonita" - Divulgação No mês passado, Ondjaki lançou no Brasil “Uma Escuridão Bonita”, que desconstrói o medo do escuro revelando alguns dos seus traços como pessoa e escritor: o otimismo, a leveza e a esperança. Confira a nossa entrevista!

Por dentro da África - Você transita entre diversos gêneros narrativos.  Quando você decide que é hora de recorrer ao conto, ao romance ou à poesia?

Ondjaki – Penso que, normalmente, é a própria ideia (ou natureza da estória) que declara o caminho. Há ideias mais complexas ou mais abertas que permitiriam vários gêneros, mas acho que logo depois se entende. As leituras e o treino da escrita também ajudam a adequar a ideia ao que vai ser escrito…

PDA - Quais autores serviram de inspiração para você? Como foi o seu primeiro contato com a literatura africana?

O - São mais as obras que os autores. Tive contato com autores de literatura africana (em geral) e angolana (em particular) desde cedo, na escola. E também autores de Cabo Verde e de Moçambique. Isso era muito natural na escola, estudarmos autores dos outros países de língua portuguesa. Foi na escola que tomamos conhecimento da literatura de Luís Bernardo Honwana, que é um autor moçambicano muito estimado pela minha geração, em Angola. Depois vieram outros… Ainda me faltam muitos autores africanos. Tenho que buscá-los mais. Acho que é uma lacuna nas minhas leituras, sobretudo os de África que escrevem em francês e também os do norte do continente. Existe muito boa poesia no norte…

PDA - As memórias da guerra civil e da descolonização ainda são frequentes na literatura africana. Todas essas estórias são inesgotáveis, como uma fonte que, apesar de abordar aspectos trágicos, inspira… Qual a importância de contar todas essas estórias para o mundo?

O - A importância de uma estória, às vezes, está no seu conteúdo. Às vezes, está no modo como se conta. Aquilo que é importante e grita dentro de alguém poderá dar uma boa estória. Cabe a cada um ter a sabedoria de decidir que estória vai contar entre aquilo que há algum tempo grita dentro de si.

PDA - Você é um escritor nascido em Angola, um país que é parte desse gigantesco continente. Mesmo assim, é um representante da literatura que é mais visitada hoje do que há 10 anos… Você acha que o mundo passou a ler e a procurar as estórias contadas pelos próprios africanos? Por quê?
Ondjaki - Foto: Gyoy Malba - Divulgação
O - Não sei se o mundo passou a ler mais estórias contadas pelos africanos. Há um perigoso jogo editorial (que é mundial) em torno da chamada literatura africana e também da literatura latino-americana. Acho que é mais importante pensarmos numa coisa maior:  existe ”a literatura”. É isso que existe. É isso que é importante. Do resto, não sei…

PDA - Você acha que assim como a literatura, a música, o cinema (Nollywood) e as manifestações artísticas africanas estão sendo mais expostas e compreendidas? Como essa exposição pode ajudar a revelar uma África “real”, de fragilidades, mas também de muitos avanços?

O - Acho que é muito importante respeitar a produção de cada lugar. Seja África, Europa, Ásia, etc. É preciso aceitar a tradição e o modernismo de cada lugar.
“Há sempre, em todos esses lugares, uma combinação interessante entre o passado e o presente.”
Isso se dá pela voz de quem produz arte (música, cinema, pintura, etc) atualmente. O continente africano tem uma força cultural gigantesca. Espero que possamos deixá-la acontecer e respeitar. E apoiar. Precisamos que os nossos próprios governos e agentes culturais tomem consciência disso. Seria lindo…

PDA - Por que Luanda está tão presente, viva e colorida em suas obras? Podemos dizer que Luanda moldou a sua estrada literária?
A capital de Angola, Luanda - Foto: Divulgação

O - Acho que quem cresceu em Luanda sente um pouco isso, uma “transbordância” muito forte. Luanda é uma cidade intensa, de estórias, de gentes, de confluência de imaginários e de práticas altamente literárias. Basta ouvir e estar atento. Basta olhar. Basta andar por perto, deixar-se invadir, sonhar. E depois escrever.
“Às vezes, penso que é a própria cidade de Luanda que, há muitos anos, escreve por nós, através de nós. Ainda tenho algumas estórias para contar sobre a Luanda dos anos 80, algumas mais reais, outras mais lembradas como se tivessem acontecido comigo ou com aqueles que conheci.”
Luanda é como um sonho que nos persegue e se reacende para ser dito, recontado ou reinventado. E talvez seja um labirinto inesgotável de coisas sociais, políticas, históricas e surreais porque tão reais. A realidade de Luanda, com as suas estórias, conversas, personagens e “causos” existe, normalmente, além da ficção.

PDA - Para qual leitor você escreveu “Uma escuridão bonita”?  A obra é o sinal de esperança diante do obscuro?

O - Escrevi para quem estiver disposto a ler uma estória muito simples. Escrevi para mim. Escrevi para a minha avó Agnette. Escrevi para os da Praia do Bispo. Embora tudo isto não esteja explícito, e eu tenha acabado de dizer só aqui. E não, não se trata de um sinal diante do obscuro. Trata-se, talvez, de “um simples exercício de ternura”. Umas das coisas mais bonitas de Luanda é uma conversa. Entre duas ou mais pessoas. Entre dois adolescentes. Na “escuridão”, tento explorar essa longa conversa, desviada, desviante, aumentada, que, às vezes, é preciso fazer com alguém que apenas queremos beijar, tocar, enternecer, conquistar. É a estória de um beijo no meio de uma escuridão pela falta de luz. Penso que muita gente em Luanda sabe do que se trata…

PDA - Muitos africanos dizem cultivar um imaginário diferente daquele que eles encontram quando desembarcam no Brasil e encontram o preconceito. Qual a sua opinião sobre essa relação?
Arte com os mapas do Brasil e da África
O - Observo as coisas mais com olhos de poeta do que outros olhos quaisquer. Sou um ser distorcido e distorcedor, não sirvo para análises. Vejo pessoas e os olhares, vejo os modos e as cores, vejo os pés e as árvores, os bichos e o cair das folhas, mas nunca sei que árvore vi, nem que folha era. O mais das vezes esqueço-me da estação climática.
“Como pessoa, e até como poeta, sou contra todos os preconceitos e fico triste quando vejo um cidadão brasileiro debitar uma série de preconceitos ridículos contra portugueses ou contra cidadãos africanos”.
Também me constrange quando o mesmo acontece com portugueses a falar do Brasil ou de Angola. E o mesmo em Angola. É preciso ver as pessoas. As pessoas de verdade. Os países de verdade, que existem; que são; que estão. Viajar ou ler são excelentes modos de  fazê-lo.

PDA -Você se assume como absolutamente de esquerda. Como você se expressa em relação aos acontecimentos políticos e sociais de Angola? Você aproveita o seu lugar (de intelectual reconhecido) para provocar reflexões?

O - Eu acho que um dos papéis da literatura é fazer sonhar ou pensar. Não sei se a minha literatura é capaz disso. Espero que sim, nem que seja um bocadinho apenas. Os acontecimentos sociais e políticos de Angola preocupam-me, e fazem doer, como a qualquer angolano minimamente preocupado com o seu país.

PDA -Há muitos jornalistas (como Rafael Marques, Domingos da Cruz) e ativistas perseguidos em Angola por conta de seus protestos contra a corrupção, a afronta à liberdade de expressão. Como alguém que trabalha sobre os pilares da expressão, como você se relaciona com casos como esse?
Protesto contra corrupção em Angola - Foto: Maka Angola

O - Lido com todas as situações de perseguição ou censura com preocupação e tristeza. É algo que me deixa profundamente triste. A injustiça é um fenômeno mundial, sabemos disso. A desigualdade social, algumas perseguições, acontecem tanto nos Estados Unidos da América como na França ou na Itália. Mas quando se trata do nosso país, da nossa gente, dói mais. Penso que as coisas deveriam estar já a acontecer de outra maneira. Deixarmos as pessoas falarem, contribuírem com as suas críticas ou perspectivas diferentes, só pode fazer o país e a participação política crescerem. Penso que, muito em breve, os políticos angolanos vão entender (e aceitar) que a democracia não é apenas organizar eleições de “x” em “x” anos.
A democracia não é apenas permitir que se constituam outros partidos. Implica, obviamente, numa pluralidade de vozes e de visões. Mas não é apenas a existência dessas “outras vozes”, é também o fato de que possamos escutá-las, levar em conta, considerar. Este, acredite, é um dos grandes problemas do continente africano e, também, especificamente de Angola: já é possível falar; já é possível reclamar; já é até possível gritar. Mas temos pouca gente a ouvir. Ouvir implica “considerar” a opinião do outro para refletir. Ouvir implica respeitar a opinião do outro, dos outros. E, claro, ouvir implica disponibilidade. Talvez estejamos ainda numa época de pouca disponibilidade, baixa tolerância e alta arrogância.
“Ouvir implica respeitar a opinião do outro, dos outros. E, claro, ouvir implica em disponibilidade.”
O respeito pelo outro exige devoção, paciência e abertura. É a inexistência de uma certa “abertura” que mais me preocupa. Ver o outro. Ler o outro. E respeitar. Infelizmente, os políticos africanos e angolanos ganharam o vício de “ler” o povo como “um outro”, e não como “eu também”. O povo somos todos. Ou deveríamos ser. Se nos esquecemos disso e de que a função de um dirigente é “servir” o povo, então estamos num perigoso caminho de equívocos. É tudo isto que me preocupa, para não dizer mais: tudo isto e a auto-censura, que é um dos piores e mais maléficos tipos de censura que o ser humano pode exercer…
Por dentro da África 


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terça-feira, 3 de junho de 2014

A ascensão africana

 ascensão africana

christisne

FMI se reúne a governos e especialistas para debater a manutenção do desenvolvimento do continente

 O Fundo Monetário Internacional (FMI) e governo de Moçambique vão realizar nesta semana a conferência ‘África em ascensão: construindo o futuro’ na capital moçambicana, Maputo. O evento que começa na próxima quinta-feira (29) pretende reunir formadores de opinião política da África e de outros continentes, o setor privado, a sociedade civil e a comunidade acadêmica para discutir medidas que garantam o crescimento inclusivo e sustentável.

“O principal desafio hoje é manter o crescimento elevado, promover a criação de empregos e acelerar a transformação estrutural. Para as nações consideradas mais frágeis, a prioridade é criar a estabilidade política e econômica suficiente para juntarem-se à fileira dos ‘leões africanos’”, aponta os organizadores do evento.

Entre os nomes que irão participar da conferência deste ano estão o presidente do Africa Progress Panel, Kofi Annan; a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde; o vice-presidente do Banco Mundial para a África, Mahktar Diop; o diretor executivo de finanças da Vale, Luciano Siani; a diretora executiva da Oxfam Internacional, Winnie Byanyima; além de ministros das finanças de países como Costa do Marfim, Moçambique e Uganda.

Temas e perspectivas

Quais são os desafios a longo prazo para a África? De que forma o continente pode criar mais empregos, reduzir as desigualdades, fomentar a diversificação e a transformação estrutural e estimular a produtividade agrícola? Como financiar as grandes necessidades em infraestruturas de transporte e energia? Como acelerar o desenvolvimento financeiro e o desenvolvimento do setor privado? Essas são algumas das questões chaves a serem debatidas na conferência.

“A ascensão da África não é apenas uma palavra da moda. É uma realidade. Juntos, o FMI e os países africanos podem contribuir de forma efetiva para melhorar a atual situação, tornar o crescimento mais incluso e sustentável e concentrarem-se em boas praticas que produziram resultados positivos”, afirma Christine Lagarde.

Algumas das discussões serão transmitidas ao vivo pela internet. Entre elas, a primeira sessão plenária que irá abordar as oportunidades e os desafios na África subsaariana. Nos últimos quatro anos o crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) da região ficou em 5,2%, segundo dados do FMI, o que demonstra uma tendência de aceleração econômica e a superação da crise financeira de 2009, ano em que registrou expansão de 2,9%.

A segunda sessão plenária focará no estímulo à inclusão e à criação de empregos. Um estudo do FMI aponta que o fato do crescimento ser ou não inclusivo depende das políticas adotadas para o setor agrícola, muitas vezes negligenciado. Outra questão é a limitação das políticas de segurança social na África subsaariana.

A transformação estrutural e o desenvolvimento do setor privado é o tema da terceira sessão plenária, que discutirá o fato do setor público ainda ser a principal gerador de empregos na economia formal nos países da região. Os debates dessa sessão irão abordar a importância do setor privado na transformação estrutural e as políticas que podem impulsionar o crescimento desse setor.

Outros encontros discutirão a potencialização dos recursos naturais da África em benefício das gerações presentes e futuras; as necessidades de se financiar a infraestrutura na África subsaariana e o papel das parcerias público-privadas no alcance desse objetivo; a criação de mercados mais fortalecidos, amplos e sustentáveis e a superação da fragilidade de alguns países no âmbito social, político e econômico.

O que mudou

A primeira conferência desse modelo foi realizada em 2009, na Tanzânia. Na ocasião foram discutidos os desafios da economia africana ante a crise financeira e o evento ajudou a galvanizar o apoio internacional para a África. Nos últimos cinco anos, grande parte da África subsaariana demonstra significativos avanços e notável resistência graças a reformas econômicas efetuadas na última década.

No âmbito sociopolítico, alguns países da região alcançaram melhorias como a emancipação da mulher, a estabilidade política, o desenvolvimento da infraestrutura, melhorias no sistema de saúde e progressos na educação.

De acordo com o relatório de Desenvolvimento humano 2013 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a África subsaariana contava com 32 milhões de pessoas na classe média em 2009. A previsão é que esse número aumente para 57 milhões em 2020 e 107 milhões em 2030.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da região também demonstra avanços significativos. Em 2010 o IDH foi de 0.468, o valor subiu para 0.475 em 2012, sendo que a pontuação ideal é próxima de 1.0. A expectativa de tempo de estudo chegou a 9,3 anos em 2011 e o percentual de mulheres na força de trabalho foi de 64,7%.
Fonte: Geledes

MEC oferece 6.825 vagas em cursos de inglês em universidades federais

As inscrições para os cursos presenciais do programa Inglês sem Fronteiras poderão ser realizadas entre os dias 9 de junho e 2 de julho, pelo site www.isf.mec.gov.br. Serão ofertadas 6.825 vagas em 43 universidades federais.

As inscrições poderão ser realizadas por:

- alunos de graduação, de mestrado ou de doutorado, com matrículas ativas nas universidades federais credenciadas como NucLi (Núcleo de Línguas);
- alunos participantes e ativos no curso My English Online, cujas inscrições tenham sido validadas com até 48 horas de antecedência à inscrição junto ao NucLi;
- alunos que tenham concluído até 90% do total de créditos de seu curso.

Terão prioridade na ocupação das vagas os alunos de graduação de cursos elegíveis ao Ciência sem Fronteiras e estudantes que tenham feito o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) a partir de 2010 e tenham obtido ao menos 600 pontos na prova, incluindo a redação.

Segundo texto publicado pelo MEC (Ministério da Educação) no Diário Oficial, os cursos terão a duração mínima de 16 horas e máxima de 64 horas, a depender da proposta pedagógica de cada NucLi e das especificidades locais. As aulas terão início a partir de 14 de julho deste ano.

O programa

O Inglês sem Fronteiras surgiu para suprir a carência do ensino da língua inglesa no país, que levou muitos estudantes a escolherem Portugal como destino no Ciência sem Fronteiras. Até 2012, um em cada cinco estudantes que participaram do programa optou por cursar parte do ensino superior em uma instituição lusitana. Em uma medida extrema, o governo suspendeu, no ano passado, a parceria com o país.
Fonte: Midiamax

Machismo torna furacões com nome de mulher mais letais, diz estudo

Os furacões com nomes femininos podem matar três vezes mais porque as pessoas os percebem como menos ameaçadores do que as tempestades com nomes masculinos, afirmam cientistas nesta segunda-feira.

Os furacões são nomeados segundo uma ordem pré-determinada e alternada que não tem nada a ver com a força da tempestade. Os cientistas desenvolveram este sistema nos anos 1970 para evitar uma percepção influenciada por gênero.

Contudo, o resultado foi letal, segundo um estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, que abrangeu mais de seis décadas de furacões atlânticos.

Pesquisadores da Universidade de Illinois analisaram dados sobre as fatalidades relacionadas a cada furacão que tocou terra nos Estados Unidos entre 1950 e 2012.

"Comparativamente, estima-se que um furacão com nome masculino cause 15,15 mortes, enquanto se calcula que um furacão com nome feminino cause 41,84 mortes", destacou o estudo.

"Em outras palavras, nosso modelo sugere que mudar o nome de um furacão severo de Charley para Eloise pode triplicar sua letalidade", acrescentou.

Os cientistas desconsideraram duas grandes tempestades em suas análises - os furacões Katrina (2005) e Audrey (1957) - porque mataram um grande número de pessoas e poderiam distorcer os resultados.

"Ao julgar a intensidade de uma tempestade, as pessoas parecem aplicar suas crenças sobre o comportamento masculino e feminino", explicou o co-autor do estudo, Sharon Shavitt, professor de marketing.

"Com isto, um furacão com nome de mulher, especialmente um com um nome muito feminino, como Belle ou Cindy, parece mais suave ou menos violento", prosseguiu.

"Esta é uma descoberta muito importante", disse Hazel Rose Markus, professor em ciência comportamental na Universidade de Stanford, que não participou do estudo.

"Isto demonstra que nossas associações com base cultural determinam nossos passos", prosseguiu.
Antes da decisão de dar nomes alternados feminino e masculino, os furacões só recebiam nome de mulher, uma prática surgida da crença de que as tempestades, assim como as mulheres, seriam imprevisíveis.
Fonte: midiamax

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...