quinta-feira, 15 de agosto de 2013

NEGRA - NOÉMIA DE SOUSA

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.
Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.
Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.
E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE


Noémia de Sousa, nasceu em Catembe, Moçambique, em 1926 e faleceu em Cascais, Portugal, em 2002. Poeta, jornalista de agências de notícias internacionais viajou por toda a África durante as lutas pela independência de vários países. Só publicou tardiamente seu livro de poesias Sangue Negro, em 2001.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Paulina Chiziane - O Brasil e a África precisam se reencontrar

 A escritora moçambicana Paulina Chiziane acredita que o Brasil e a África precisam se reencontrar verdadeiramente.

Durante evento acadêmico, realizado no Brasil em junho na Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, Chiziane destacou a necessidade de os brasileiros conhecerem realmente os povos africanos, para garantir a melhoria da relação entre o país e o continente.

A escritora já teve a primeira evidência do desconhecimento que os brasileiros têm da África na chegada à cidade de Belo Horizonte (MG) para a Jornada de Estudos Africanos. No hotel, a ficha de cadastro indicava que a moçambicana era de origem sul-africana. 
Ao apontar o equívoco, Paulina foi informada de que não constam no programa de computador da rede hoteleira os países africanos, somente o termo África para descrever todas as nações. A identificação “África do Sul”, de acordo com informações do hotel, passou a existir, apenas, depois que o país sediou a Copa do Mundo.

O episódio foi só mais um a explicitar o conhecimento mínimo que os brasileiros têm da África, chegando ao ponto de, em ambientes universitários, encontrarmos boa parte dos estudantes acreditando que a África é um país e não um continente.

Para a escritora, é tempo de mudar essa realidade. “Nós somos um povo, como africanos, eu como moçambicana, que falamos a mesma língua portuguesa, tivemos uma história comum, mas não nos conhecemos. Vocês estão mais perto da África do que da Europa.

Além disso, uma boa parte da população brasileira é proveniente da África. Então, preciso “quebrar o gelo”, abrir as fronteiras para que haja mais comunicação entre o povo africano e o Brasil”. 

A mesma história que une pode separar. Paulina Chiziane atribui o distanciamento e a falta de conhecimento brasileiro sobre a África ao contexto histórico. 

“A história tem o seu percurso. Ontem, foram as colonizações, as escravaturas, as guerras de libertação que foram criando sequelas nos povos. Chegou o momento de ver que precisamos, afinal, estar muito mais unidos do que antes. São processos históricos. Ninguém tem culpa disso. Chegou a hora, então vamos trabalhar para esse reencontro”, afirma.

Paulina Chiziane, amante da literatura brasileira, principalmente dos escritores Jorge Amado e Vinicius de Morais, acha que é importante que os brasileiros conheçam a literatura africana como forma de aproximação entre os povos.

Perguntada sobre a imagem negativa, de neocolonialistas, que as empresas brasileiras estão criando dentro da África, a escritora lembra que problemas dessa natureza não têm partido só de povos do Brasil.

“Eu acho que estamos a dar uma nova imagem do poder brasileiro. Criaram muitos postos de trabalho e isso tem os seus conflitos. Mas, as coisas vão ser digeridas na medida no possível. Deixa-me dizer que não são apenas as empresas brasileiras, existem empresas de outros continentes, do asiático, que vêm e fazem exatamente a mesma coisa. Eu não sei se isso é lei do capitalismo ou não. A verdade é que nem tudo está a correr bem”.
Entrevista concedida a Maria Cláudia Santos. Disponível em: http://www.voaportugues.com/content/escritora-chiziane-brasil-mocambique/1681994.html

terça-feira, 13 de agosto de 2013

IDENTIDADE - MIA COUTO

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço   
(Raiz de orvalho e outros poemas)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Abertas as inscrições de propostas de apresentação de trabalho para a SERNEGRA

Estão abertas, até o dia 6 de setembro, as inscrições para propostas de apresentação de trabalho na modalidade comunicação oral, nas 12 Seções Temáticas que irão compor o Simpósio SERNEGRA, que ocorrerá nos dias 18, 19 e 20 de novembro, no Campus Brasília do Instituto Federal de Brasília (IFB).

O Simpósio SERNEGRA faz parte da Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça do IFB, que, em sua segunda edição, contará com uma programação bastante diversa, com palestras, mesas-redondas, exposições, cine-debate, eventos de confraternização, cursos e oficinas.


As Seções Temáticas do Simpósio são:

  • ST 01: Feminismo negro na encruzilhada afrobrasileira: intersecionalidade, diálogos e horizontes
  • ST 02: Gênero e raça nas políticas públicas
  • ST 03: Étnica e estética: o diálogo entre as tradições afrodescendentes e as linguagens artísticas
  • ST 04: Diásporas negras no contexto latino-brasileiro: fluxos identitários, gênero e globalização
  • ST 05: Literaturas africanas e literatura negra brasileira: crítica e ensino
  • ST 06: Gestão de políticas públicas: a transversalidade de gênero, raça e classe
  • ST 07: Entrecruzamentos de negritudes, dissidência sexual e de gênero: a própria casa da diferença
  • ST 08: Mídia, racismo e representações sociais
  • ST 09: Questões de raça e de gênero na Rede Federal de Educação Tecnológica: políticas e ações de gestão, ensino, pesquisa e extensão
  • ST 10: Arte e identidades negras
  • ST 11: Corpos plurais: gênero, raça e experiência social
  • ST 12: Análise de Discurso Crítica (ADC) e reflexões sobre negritude, gênero e raça


Para saber mais sobre as seções temáticas:
http://www.ifb.edu.br/attachments/5288_SERNEGRA%20-%20Cronograma.pdf

I ENCONTRO DE ESTUDOS AFRICANOS: ABRINDO CAMINHOS III COLÓQUIO INTERNACIONAL ÁFRICAS, LITERATURA E CONTEMPORANEIDADE

Dia 12/08/2013
14:30 (sala 8 – Prédio de Ciências Sociais)
Sessão de abertura

15:00 (sala 08 – Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 01: As imagens da África: o lastro e os rastros do Império
Coordenação: Prof. Dr. Benjamin Abdala Junior (USP)
Prof. Dr. Mario Lugarinho (USP)
Prof. Dr. Omar Ribeiro Thomaz (UNICAMP)19:30 (sala08 – Prédio de Ciências Sociais)

Mesa 02: Literatura infantil e juvenil: a formação de novos leitores
Coordenação: Prof. Dr. José Nicolau Gregorin Filho (USP)
Profa. Dra. Luci Regina Chamliam (USP)
Ondjaki (escritor angolano)
Lançamento do livro Os transparentes, de Ondjaki

Dia 13/08/2013
15:00 (sala 08 – Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 03: O continente africano e a literatura de viagem
Coordenação: Prof. Dr. Nazir Can (USP-FAPESP)
Profa. Dra. Fernanda Peixoto (USP)
Prof. Dr. Fernando Brumana (Universidad de Cádiz)

19:30 ( Auditório da Casa de Cultura Japonesa)
Mesa 04: O cinema na construção do nacionalismo: o caso de
Moçambique
Coordenação: Profa. Dra. Tania Macêdo (USP)
Prof. Dr. José Luís Cabaço (Universidade Técnica de Moçambique)
Ruy Guerra (cineasta)

Dia 14/08/2013 (sala 8)09:30 (sala08 – Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 05: A Língua Portuguesa: identidade, poder e exclusão
Coordenação: Profa. Dra. Margarida Petter (USP)
Prof. Dr. Gregório Firmino (UEM-Moçambqiue)
Prof. Dr. José Luís Fiorin (USP)

19:30 (sala08 – Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 06: O passado presente no continente africano
Coordenação: Profa. Dra. Débora Leite David (USP / FAPESP)
Profa. Dra. Laura Moutinho (USP)
Profa. Dra. Marina Berthet Ribeiro (UFF)
Profa. Dra. Rejane Vecchia (USP)

Dia 15/08/2013
09:30 (sala08 – Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 07: O lugar da África na cultura brasileira
Coordenação: Prof. Dr. Lourenço do Rosário (Politécnica – MZ)
Profa. Dra. Maria Antonieta Antonacci (PUC-SP)
Profa. Dra. Marina de Mello e Sousa (USP)

19:30 (sala08 – Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 08: Literatura e outras vozes da África
Coordenação: Profa. Dra. Zilda Iokoi (USP)Prof. António Sopa (Arquivo Histórico de Moçambique)
Profa. Dra. Laura Cavalcante Padilha (UFF)
Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP)

Dia 16/08/2013
09:00(sala 14- Prédio de Ciências Sociais)
Mesa 09: Sessão de encerramento com o escritor Mia Couto

LOCAL: PRÉDIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS – SALA 08
APOIO: PRÓ -REITORIA DE CULTURA E EXTENSÃO
UNIVERSITÁRIA
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÂO
CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS
CENTRO DE ESTUDOS DE LITERATURAS E CULTURAS DE
PAÍSES
DE LÍNGUA
PORTUGUESA

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Lançamento do livro Benjamin de Biagio D'Angelo


Este sábado haverá o lançamento do livro Benjamin de Biagio D’Angelo, ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Literatura. O escritor Tino Freitas irá mediar o encontro, que contará com bate papo e sessão para autógrafo. O evento acontecerá no dia 08 de dezembro às 16h.
Sobre o autor
Biagio D’Angelo Nasci na Sicília, uma linda e mitológica ilha da península italiana, num vilarejo em frente ao mar, de onde saí para estudar na Universidade de Veneza, outra cidade mitológica belíssima. Viajei muito a trabalho: Moscou, Bruxelas, Lima, São Paulo, sempre dando aulas de Literatura Comparada e Teoria Literária, apreendendo línguas e costumes, escrevendo artigos, lendo muitos livros e conhecendo pessoas e paisagens. Agora vivo e trabalho em Budapeste, uma cidade imperial, onde se fala o húngaro, que é muito difícil, mas muito bonito.Benjamin foi pensado por muito tempo e foi escrito em português. O português do Brasil é a minha língua da memória, do ritmo, do sol que deixei na minha terra natal.Benjamin foi escrito com a companhia de Manoel de Barros, Guimarães Rosa, Ana Maria Machado e Angela Lago.

Sobre o mediador
Tino Freitas é jornalista, músico e mediador de leitura. Também escreve livros que exaltam a infância.  Lançou, pela Callis Editora, a coleção “Na Ponta do Dedo”, com três volumes: Bichano, Numa Tarde Quente de Verão e Bolhas de Sabão. Com esses livros, o autor convida as crianças a interagir com as histórias, propondo uma leitura não só com a visão, mas com todos os sentidos. Para conhecer mais sobre o autor, visite seu blog:  literatino.blogspot.com.

Sobre a ilustradora
Thais Beltrame Quando eu era pequena, achava que escondia um segredo dos meus pais. Eu entrava em um armário cheio de livros, escolhia alguns dos meus preferidos e desenhava nas páginas em branco, para que meus desenhos se tornassem parte da história. Não sei bem por que fazia isso, mas cresci cultivando um amor por ambas as coisas: o desenho e a literatura. Nunca deixei de amar o papel e todas as coisas referentes a ele: as cartas, o nanquim, a pena, os cartões escritos à mão. Acho que foi por isso que gostei tanto do Benjamin; assim como eu, ele ama as sutilezas do mundo. Estudei Artes Plásticas em São Francisco e Chicago, nos Estados Unidos, e já expus meus desenhos em várias cidades do Brasil, dos Estados Unidos e na Inglaterra também. Hoje transito entre as galerias e os livros e me sinto à vontade assim, sem precisar dar nome às coisas.

Mulheres Pretas

    Conversar com a atriz Ruth de Souza era como viver a ancestralidade. Sinto o mesmo com Zezé Motta. Sua fala, imortalizada no filme “Xica...