segunda-feira, 20 de julho de 2020

O garoto do espelho - filme nigeriano disponível da Netflix

Misturando drama e fantasia, O Garoto do Espelho usa um menino de 12 anos como guia de uma jornada mística pela África.

Na busca constante por conteúdos de diversos países, a Netflix apostou suas fichas no filme nigeriano O Garoto do Espelho. Mas é bom avisar desde já que a obra não possui nenhum ligação com o brasileiro O Menino no Espelho.
Os dois percorrem caminhos fantásticos, mas o longa que está no catálogo da Netflix é um drama fantástico pouco conhecido que se passa no meio das florestas africanas.

A história de O Garoto do Espelho

O Garoto do Espelho acompanha Tijan, um adolescente britânico que é levado para a terra natal de sua mãe, na África, após machucar outro garoto durante uma briga de rua. Quando chega na cidade de Banjul, ele começa a perseguir a aparição fantasmagórica de um garoto sorridente (que, por coincidência, aparece num espelho) e se perde da mãe.
Mas calma: por mais que uma boa parte do filme acompanhe os esforços desesperados da mãe de Tijan, não estamos falando de uma produção de terror. Muito pelo contrário…
Segundo a sinopse liberada pela própria Netflix, o jovem segue essa aparição que só ele consegue ver numa aventura cheia de elementos místicos, ritos de passagem e lições valiosas sobre si mesmo, suas raízes e o pai que ele nunca conheceu.

O diretor e o elenco do filme nigeriano O Garoto no Espelho

O filme foi escrito e dirigido pelo nigeriano Obi Emelonye (Último Voo para Abuja). É bem possível que você não conheça o nome, mas ele é um grande astro na sua terra natal.
O Garoto do Espelho
Foto: Divulgação

Essa fama permite que o longa seja estrelado outros nomes bem conhecidos do continente africano. Os principais são Genevieve Nnaji (A Estrada Nunca Percorrida), Edward Kagutuzi (Find Me in Paris) e Osita Iheme (Double Mama)
Fique de olho em Nollywood
O Garoto do Espelho não é um longa original da Netflix. É uma produção de 2011 que, assim como acontece com diversas obras independentes, foi adquirida tardiamente pelo serviço de streaming.
Entretanto, mesmo não sendo inédito, o filme é uma ótima porta de entrada para o rico e abundante cinema nigeriano.
É sempre bom lembrar que a a Nigéria tem um mercado gigantesco. Conhecido popularmente como Nollywood, a indústria cinematográfica do país produz em média 1200 filmes por ano, ficando atrás apenas de Bollywood.
É isso mesmo! Você não leu errado… Nollywood está muito na frente da toda-poderosa Hollywood quando o assunto é quantidade de filmes produzidos.
A diferença entre os dois mercados é que os principais lançamentos de Nollywood ficam presos ao sistema de home video. Em outras palavras: raramente ganham espaço nos cinemas ou nas televisões do resto do mundo.
Ainda assim, todos os longas possuem números expressivos de audiência, graças a fidelidade que o povo nigeriano tem com os produtos nacionais (ouviu, Brasil?).
É por isso que, mesmo não sendo uma produção original e exclusiva da Netflix, O Garoto do Espelho merece sua atenção. É um tipo de filme que, na maioria das vezes, fica restrito ao seu país de origem por conta da distribuição, apesar de merecer o reconhecimento do mundo inteiro.
By Flavio Pizzol

Os olhos dos mortos - Mia Couto


Estou tão feliz que nem rio. Deito-me com desleixo, bastando-me: eu e eu. O regressar de meu marido mediu, até hoje, todas as minhas esperas. O perdoar a meu homem foi medida do desespero. Durante tempos, só tive piedade de mim. Hoje não, eu me desmesuro, pronta a crianceiras e desatinos. Minha alegria, assim tanta, só pode ser errada.
Desculpe-me, Cristo: esplendoroso é o que sucede, não o que se espera. E eu, durante anos, tive vergonha da alegria. Estar-se contente, ainda vá. Que isso é passageiro. Mas ser-se alegre é excessivo como pecado mortalício.
É de noite e falta-me apenas um quase para estar sozinha no quarto. Ou, no rigor: o quarto está sozinho comigo. Nesta mesma cama sonhei tantas vezes que o meu amor vinha pela rua, eu escutava os seus Passos, cheia de ânsia. E antes que ele chegasse, corria a fechar a porta. Fosse esse gesto, o de trancar a fechadura, o meu fingido valimento. Eu fechava a porta para que, depois, o simples abrir dos olhos tivesse o brilho de um milagre. Para que ele, mais uma vez, casasse comigo. E o mundo se abrisse, casa, cama e sonho.
Durante anos, porém, os passos de meu marido ecoaram como a mais sombria ameaça. Eu queria fechar a porta, mas era por pânico. Meu homem chegava do bar, mais sequioso do que quando fora. Cumpria o fel de seu querer: me vergastava com socos e chutos. No final, quem chorava era ele para que eu sentisse pena de suas mágoas. Eu era culpada por suas culpas. Com o tempo, já não me custavam as dores. Somos feitos assim de espaçadas costelas, entremeados de vãos e entrâncias para que o coração seja exposto e ferível.
Venâncio estava na violência como quem não sai do seu idioma. Eu estava no pranto como quem sustenta a sua própria raiz. Chorando sem direito a soluço; rindo sem acesso a gargalhada. O cão se habitua a comer sobras. Como eu me habituei a restos de vida.
A semana passada foi quando o rasgão se deu. Venâncio ficou furioso quando descobriu, em estilhaços, a emoldurada fotografia na nossa sala. Era um retrato antigo, parecia estar ali mesmo antes de haver parede. Nele figurava Venâncio, ainda magro e moço, posando na nossa varanda. Pelo olhar se via que sempre fora dono e patrão. Surjo atrás, desfocada, esquecida. Sem pertença nem presença.
Ao ver a moldura quebrada e os vidros ainda espalhados pelo chão, Venâncio me golpeou com inusitada força, pontapés cruzaram o escuro do quarto entre gritos meus:
– Na barriga não, na barriga não!.
Depois, quando ele amainou, interrompi-lhe o choro e me soaram serenas e doces as palavras:
– Vê o sangue, Venâncio? Eu estava grávida…
– Grávida, você?! Com uma idade dessas!??
Arrumei vimas poucas roupas e fui, a pé, para o posto de socorro. Era manhã, fazia chuva e caía o sol. Algures, por um aí, deveria fantasiar um arco-íris. Mas eu estava cega para fantasias. Meu filho, esse primeiro que haveria de nascer, estava morto dentro de mim. As minhas mãos, ingénuas, ainda amparavam o ventre como se ele continuasse lá, enroscado grão de futuro. No passeio público, privadamente tombei. Antes que beijasse o chão já eu perdera as luzes e deixara de sentir a chuva no meu corpo.
Desmaiada, me espreitaram os dentros: gravidez não havia. Mais uma vez era falsa esperança. Esse vazio de mim, essa poeira de fonte seca, o não poder dar descendência a Venâncio, isso doía mais que perder um filho. Eu estava mais estilhaçada que o retrato da sala.
Quando despertei, me acreditei já morta, transferida para outro mundo. Morrer não me bastava: nesse depois ainda Venâncio me castigaria. Eu necessitava um outro jamais. Adivinhei as minhas fúnebres cerimónias. Venâncio e mais uns tantos, entre vizinhos e parentes. Se o meu homem me chorasse, nessa ida, seria para melhor me esquecer. A lágrima lava a sofrência. Os outros chamariam a isso de amor, saudade. Mas não era a viuvez que atormentaria Venâncio. Viúvo estava ele há muito. O que o podia atormentar era a feiura desta minha rnorte. Se de mim alguma vez se recordasse, seria Para melhor me ausentar, mais desfocada que o retrato da sala.
Venâncio não foi visitar-me ao hospital. O que eu fizera, ao dirigir-me por meu pé ao hospital, foi uma ofensa sem perdão. Até ali eu fechara as minhas feridas no escuro íntimo do lar. Que é onde a mulher deve cicatrizar. Mas, desta vez, eu ousara fazer de Cristo, exibir a cruz e a chaga pelas vistas alheias.
Ao regressar a casa, faço contas às dores. Por certo, Venâncio me espera para me fazer pagar. Por isso, me demoro na varanda como se esperasse um sinal para entrar. E ali permaneço, calada, como fazem as mulheres que, de encontro ao tempo, rezam para nunca envelhecerem.
Quando entro em casa, os estilhaços do retrato rebrilham no chão da sala. O fotografado olhar de Venâncio pousa sobre mim, assegurando os seus direitos de proprietário. Distraída, a minha mão recolhe um vidro. Na cama de casal, meu marido está enroscado, em fundo sono. Deito-me a seu lado e revejo a minha vida. Se errei, foi Deus que pecou em mim. Eu semeei, sim, mas para decepar. Se recolhi os grãos, foi para os deitar no moinho. Há quem chame isto de amor. Eu chamo a cruel dança do tempo. Nessa dança, quem bate o tambor é a mão da morte.
Lição que aprendi: a Vida é tão cheia de luz, que olhar é demasiado e ver é pouco. É por isso que fecham os olhos aos mortos. E é o que faço ao meu marido. Lhe fecho os olhos, agora que o seu sangue se espalha, avermelhando os lençóis.

Autor: Mia Couto
Conto: Os olhos dos mortos (p. 69-72)
Livro: O fio das missangas
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009

quinta-feira, 14 de março de 2019

Entrevista com a escritora moçambicana Paulina Chiziane

Primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, a escritora Paulina Chiziane questiona tabus, dá voz às mulheres silenciadas por tradições e religiões enquanto descortina, por meio da literatura, novas possibilidades sociais ao seu povo

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Paulina Chiziane rompeu o silêncio e quebrou tabus. A escritora foi, em 1990, a primeira mulher moçambicana a publicar um romance no país africano.
E, ao contrário das expectativas, não se valeu da escrita para falar sobre as idealizações relacionadas ao universo feminino. Por meio de seus personagens e de suas histórias ela questionou tradições, religiões e o papel social da mulher moçambicana. Provocou uma explosão de pensamentos e incitou novas questões. Ampliou visões.
Insurgente, Paulina Chiziane afirma que escreve de forma a “descolonizar” a cabeça do povo moçambicano, independente de Portugal há apenas quarenta anos.
Enquanto primeira mulher escritora ela foi e permanece sendo alvo de críticas dos setores sociais conservadores de Moçambique. Todavia, não se intimida nem se limita por essas posições contrárias.
Em 2003 venceu o Prêmio José Craveirinha, a comenda literária mais importante do país, com seu livro Niketche - Uma História de Poligamia.
Nesta obra ela questiona o sistema patriarcal que impera em Moçambique e coloca a mulher em lugar de destaque.
Aos 61 anos, sendo vinte deles dedicados à literatura, Paulina Chiziane tem nove livros publicados e revela-se cansada de produzir em “larga escala”.
Questionada sobre como classifica o trabalho que produz, Paulina Chiziane é categórica: “O que eu faço é guerra”.

O POVO - Como teve início a trajetória da senhora como escritora?
PAULINA - Não sei por que iniciei a escrever, nem quando. Escrever é algo que sempre fez parte de mim, desde muito pequena. Sempre que via um papel e um lápis lá estava eu a rabiscar, criando histórias. O primeiro texto que lembro de ter escrito foi uma redação sobre a Páscoa ainda na escola primária. Essa redação foi muito elogiada pela professora. Foi a partir dela que eu vi que era possível escrever e desde então continuei escrevendo. Escrevo porque escrever é minha vontade maior.

OP - A senhora nasceu em uma família cristã protestante. De que forma a religião e a fé a influenciaram como escritora?

PAULINA - A religião teve uma influência positiva e negativa sobre mim enquanto escritora e pessoa. Positiva porque me ensinou os valores universais. E negativa porque me mostrou uma visão distorcida do lugar da mulher. Para a religião, a mulher olha sempre para o outro, nunca para si. É sempre coadjuvante, nunca protagonista. A mulher na religião tem um lugar de silêncio. E eu não concordo com essa visão. 
OP - Como o leitor moçambicano vê a literatura produzida por mulheres?
PAULINA - A primeira reação para comigo foi muito má. Porque ninguém acreditava que uma mulher pudesse escrever. Ou melhor, sabiam que uma mulher tinha capacidade para escrever, mas estavam à espera que eu escrevesse aquelas coisas bonitas, todas cor de rosa. Idealizações. Falar de amor, falar de criança. Então quando eu apareci, de uma forma ousada, houve muita resistência para receber o meu trabalho. 

OP - Como a senhora se define enquanto escritora? Diria que é feminista?

PAULINA - Não me sinto nem feminista nem coisa nenhuma. Eu me sinto uma guerreira. O que eu faço é guerra. A partir do momento em que eu comecei a colocar determinados temas e pontos de vista em debate eu comecei a mostrar que as mulheres também se levantam. Mostrei que há muita mulher com muita capacidade, que são muito boas no que fazem, mas que tinham medo de escrever. E eu mostrei que escrever era possível. Então foi assim que eu comecei a fazer a minha guerra. Começou-se a se ver que há um grupo de pessoas silenciadas. E que essas pessoas podem se levantar e falar.
 
OP - A senhora foi a primeira moçambicana a escrever um romance, o livro Balada de Amor ao Vento, isso nos anos de 1990. Depois desse lançamento, como foi a abertura para que outras mulheres também escrevessem em Moçambique?
PAULINA - Agora muitas mulheres escreveram e escrevem em Moçambique. Sobretudo as mulheres mais jovens. Mas o problema é sempre o mesmo: elas começam muito jovens a escrever coisas muito bonitas e depois vem o casamento, vêm os filhos, e elas param, só retornando quando os filhos crescem. E aí começam um outro processo de construção enquanto escritoras. Mas há bastante mulheres escrevendo aqui e isso é muito animador.

OP - Seu livro mais famoso é Niketche - Uma História de Poligamia, uma história que aborda a quebra com uma sociedade patriarcal e de aprisionamento feminino. Como ele foi recebido em Moçambique?

PAULINA - O meu país é muito interessante. Em termos políticos, o partido no poder é todo pela libertação feminina, e o discurso do poder é um discurso libertário. Mas as tradições, as religiões, são aquelas que ainda querem manter a mulher numa posição muito má, de submissão. Foi por isso que preferi publicar esse livro primeiramente em Portugal e só depois trazê-lo a Moçambique. E isso gerou um efeito bom, porque o livro foi muito bem recebido em Lisboa. Em Portugal ele foi um best seller. Foi muito bem vendido e comentado. Então foi um livro que já chegou em Moçambique com uma boa crítica, e ninguém discutiu se era bom ou ruim. Foram ler. Essa foi uma estratégia que eu usei e funcionou para que o livro tivesse entrada no meu país. Mas mesmo assim houve algumas vozes contrárias. No entanto esse livro foi crescendo com o caminhar dos tempos, foi adaptado para o teatro, para a dança, para a pintura. É um livro que circula o mundo inteiro. Um livro explorado e bem comentado. E aí foi que outras mulheres tiveram coragem para também de começar a abordar essas questões sexuais e de lugar social nas suas conversas e posturas.
 
OP - Mas a senhora sempre fala em “descolonizar” a cabeça do povo moçambicano com sua literatura e começou a publicar um livro polêmico em Portugal, o colonizador de Moçambique. Isso não é contraditório?
PAULINA - É e não é. Não é porque nós temos que usar a melhor estratégia para termos visibilidade e aceitação quando lançamos um novo livro. Um país colonizado como Moçambique acredita mais naquilo que é aceito do lado de fora. A cabeça do povo é assim. Então isso foi uma questão estratégica mesmo. Porque eu sabia que se o livro fosse publicado em Moçambique primeiro seria sempre a mesma barreira, a mesma resistência e preconceito. Então eu fui primeiro para Lisboa. E foi assim que funcionou. 

OP - A senhora enquanto mulher ainda sofre com algum tipo de opressão na literatura? Ainda encontra dificuldade de aceitação do seu trabalho?

PAULINA - Olha, eu estou a viver uma situação única neste momento. Eu escrevi um livro muito atrevido que coloca um curandeiro para analisar o Novo Testamento bíblico. O livro se chama Ngoma Yethu: O curandeiro e o Novo Testamento. O curandeiro aqui em Moçambique é o que no Brasil vocês chamam de pai e mãe de santo. Então eu fiz essa aventura. Eu coloquei uma mãe de santo a fazer uma comparação entre aquilo que é filosofia do mundo cultural africano e o novo testamento da Bíblia Sagrada. Esse trabalho é inédito, nunca foi feito em Moçambique. E ele assustou muito as pessoas. Segundo as análises comparativas que fizemos, a cultura africana está muito mais perto de Jesus Cristo do que aquilo que as religiões cristãs europeias ensinam e impõem. Então esse é um livro ousado, dentro de um tema ousado. E as igrejas estão muito zangadas comigo, sobretudo as igrejas cristãs evangélicas. Porque eu fui tocar no intocável. Mas a minha situação atualmente, apesar de tocar no que é polêmico, é uma situação de prestígio. Hoje em dia os que não gostam de mim não sabem mais lidar comigo e preferem ficar quietos. Fazem ataques indiretos, ataques mudos. Mas de minha parte estou muito feliz de provar ao mundo que a cultura africana está muito mais próxima de Jesus Cristo do que a cultura europeia. E o livro é um sucesso.
 
OP - Em fevereiro de 2012 a senhora passou uma semana internada em um hospital psiquiátrico e dessa experiência nasceu o livro Na Mão de Deus. A senhora não teve medo de, com esse livro, ser taxada de louca justamente por essas pessoas que a atacam continuamente?
PAULINA - Ora, mas eu estive em um hospital psiquiátrico, querida! (risos). Foi lá onde me inspirei. Eu tive uma crise psicótica. Em um dia que eu queria porque queria entregar um trabalho concluído a qualquer custo. E nesse dia minha cabeça pifou. Então eu fui pra psiquiatria. E lá eu descobri outro lado do mundo. Outra realidade. E pensei: eu vou fazer um livro. Contra tudo e contra todos que critiquem esse tema, eu preciso fazer esse registro. E eu fiz. Contra todas as correntes de pensamento contrárias. Na Mão de Deus é um livro inicial em que eu descobri que afinal de contas existe um mundo ainda por ser descoberto e escrito. Eu ousei. Mas pra que você entenda meu contexto social: esse é um livro que está aqui e é muito lido, é muito bem vendido, mas que ninguém fala sobre ele. Ninguém toca nos temas de crise e loucura. As pessoas têm medo. Porque pensam primeiro na igreja, nas tradições, aquelas coisas todas. 

OP - A senhora está me dizendo que seu livro é muito lido, mas que ninguém fala sobre ele. Ainda assim acredita que a literatura é um transformador social, principalmente em prol dos direitos da mulher?

PAULINA - Eu não tenho nenhuma dúvida disso. Eu tenho muita certeza. A leitura modifica. Foi por meio dela que eu comecei a perceber o feminino e escrever a mulher de outra forma, um modo diferente do que a sociedade me impunha. E quando eu comecei a escrever sobre poligamia, primeiro foi austeridade, mas logo depois foi uma explosão. Foi por meio do Niketche - Uma História de Poligamia, que portas foram abertas. Viu-se a possibilidade do feminino e que é muito bom escrever sobre o feminino. Começou-se o debate. Agora do debate para mudança, disso eu já não sei. É mais delicado, realmente. Mas acho que é muito bom que as pessoas falem de realidades diferentes dentro de suas esferas pessoais. Para mim, sem dúvida nenhuma, a literatura é o espaço maior de negociação da identidade da mulher.
 
OP - As mulheres moçambicanas se identificam com a literatura que a senhora produz ou existe também uma resistência por parte delas?
PAULINA - Posso dizer que eu tive muita sorte. Porque o livro que eu escrevi, Niketche, é um livro tão agradável que as pessoas primeiro o leram, depois se divertiram, e, no fim, refletiram. As mulheres comuns, no geral, sentiram uma alegria infinita. Mas houve outras mulheres, que pertencem a determinados setores sociais, que se enfureceram, e começaram a procurar maus elementos nele. Eu estou a falar sobretudo do mundo religioso. São elas as maiores conservadoras. Mas para o restante das mulheres foi uma felicidade tamanha. Inclusive os homens leem e riem, acham interessante. Os homens também receberam muito bem o livro. 

OP - Como é a realidade social entre homem e mulher em Moçambique? Existe algum silenciamento dos homens para com as mulheres?

PAULINA - O nosso país tem uma independência muito jovem, há apenas 40 anos que não somos colônia. É muito pouco na vida de um país. E as mudanças iniciais ainda estão acontecendo. Há uma diferença de comportamento dos homens que vivem nas cidades mais periféricas, no campo. Esses têm mais tendência para mudanças. Olhe bem, é uma tendência, não digo ainda nem que é uma mudança. Digo que lá eles têm uma tendência de enxergar as coisas de modo mais diferente. Já os homens das cidades grandes, mais tradicionais, são mais conservadores. E a sociedade mais tradicional é a que mantém esses estados de opressão. Mas vejo que nossa perspectiva é boa. Penso que haverá uma mudança estrutural. Mas é um processo. Aqui as coisas estão melhorando. A educação está melhorando. Os movimentos femininos estão avançando. Mas a mudança mesmo, grande, ainda não chegou.
 
OP - Quais são as autoras que influenciam a senhora na escrita?
PAULINA - Na literatura moçambicana, pela sua ousadia, eu destaco a (poetisa, jornalista e militante política) Noémia de Sousa (1926-2002). Ela foi ousada em desafiar o sistema naquela altura da história. Eu gosto muito dela. Na literatura portuguesa, pela sua beleza, pela estética, influencia-me muito a Florbela Espanca.

OP - A senhora destaca alguma autora brasileira?

PAULINA - A brasileira que, sem dúvida, nos últimos tempos tem estado a me influenciar é Clarice Lispector. Pela sua loucura. (risos). Eu admiro muito aquela forma inusitada de descrever o tempo-espaço. Gosto muito, muito, do trabalho dela.
 
OP - A senhora declarou em entrevistas recentes que deseja parar de escrever. Esse sentimento mudou?
PAULINA - Estou cansada. E às vezes é preciso controlar a opinião pública. Sabe por quê? Há pessoas que me julgam como se eu estivesse a tomar o lugar de alguém. E não percebem que estou no meu lugar, a trabalhar. E algumas vezes a minha presença se torna incômoda. E quando é assim eu digo: “Com licença, fique com o lugar. Bom trabalho”. Mas além disso estou cansada também, não há dúvida. 

OP - Esse cansaço sinaliza o fim da produção da senhora?

PAULINA - Não é propriamente o fim da produção. Mas é uma mudança que preciso imprimir a mim mesma. Já não consigo ficar tanto tempo no computador, canso muito depressa, a coluna já reclama. Então vou tentar descobrir qual a melhor maneira de continuar. Mas posso te afirmar que já não estou mais naquela luta de fazer grandes coisas. Vou fazendo agora o que me apetece fazer. E aos poucos. Eu quero sair dessa corrida de produção em grande escala. E também porque eu entendo que há gente nova que precisa desse espaço para se autoafirmar. Mas se me der na cabeça de que tem algo que precisa ser dito eu escrevo. Mas se não me der também não há cobrança. Quero ficar livre disso.

OP - Como é a rotina de escrita da senhora? Produz textos todos os dias?
PAULINA - Não. Já fiz isso de escrever todos os dias, mas há muito tempo. Agora sou uma preguiçosa. Gosto de me sentar, ver a paisagem, conversar. E então, se me der de escrever alguma coisa, tomo umas notas, deixo por aí e pego outro dia. Já não faço guerra nem faço esforços. Vou fazendo o quanto posso. 

OP - A senhora estará presente na programação da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará para debates sobre o feminino. O que trará para esse evento?

PAULINA - Pra mim o Brasil representa uma escola. Uma escola de luta, de pensamento, de crescimento. Vocês no Brasil têm os problemas que têm e têm a vossa maneira de fazer a luta. Então eu venho mais pro Brasil pra buscar a força. Porque vocês me dão força e eu tenho que me abastecer disso. Eu vivo com a hostilidade no meu país. Já os europeus, mais especificamente em Portugal, sempre me receberam e me deram força. Mas no Brasil teve muito mais. O Brasil devolve-me a história de ser mulher e ser negra. A partir das vossas lutas comecei a perceber que mesmo estando na África, que sofreu escravidão e colonialismo, eu poderia fazer todo esse trabalho de desconstrução do modelo colonial feminino. E nesse aspecto vocês são muito fortes. Então eu vou levar a minha experiência, mas espero também aprender da mulher brasileira outras maneiras de fazer a luta, de fazer a escrita. Eu sinto a minha escrita muito mais próxima do povo brasileiro por causa das nossas ligações ancestrais.
Perfil
Moçambicana de Manjacaze, Paulina Chiziane iniciou sua carreira na literatura em 1984, quando começou a publicar contos na imprensa local. Durante a juventude foi militante da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), principal movimento de luta pela independência do país do domínio colonial de Portugal. Desligou-se da política para dedicar-se inteiramente à literatura, espaço onde coloca a mulher em evidência e reconstrói o contexto social moçambicano. Polêmica, é continuamente alvo de crítica dos setores sociais conservadores de Moçambique.
Fonte: Jornal O Povo de 17/04/2017 - Marina Solon

Carolina de Jesus, força e inspiração 105 anos após seu nascimento

A escritora negra e pobre, um dos principais nomes da literatura no Brasil, é homenageada pelo Google nesta quinta-feira



Se estivesse viva, Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras e mais importantes escritoras brasileiras, completaria 105 anos nesta quinta-feira, 14 de março. Seu livro de estreia, Quarto de Despejo, quando lançado em 1960, vendeu 10 mil cópias em uma semana. Moradora da favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, por boa parte de sua vida, Carolina teve fama, foi traduzida em mais de duas dezenas de línguas, chegou a Europa, Ásia e América Latina, mas morreu em relativo esquecimento em 1977. Ainda hoje, a vida dela inspira escritores, jornalistas e até ilustradores à altura de grandes prêmios.
A história mais conhecida sobre a escritora é de que no final da década de 1950, o jornalista Audálio Dantas topou com ela na favela do Canindé e ficou sabendo que aquela mulher negra, que trabalhava na maior parte do tempo como catadora de papel, e que criava sozinha três filhos pequenos, era autora de dezenas de cadernos. Entre eles, um diário extensíssimo, que, editado por Dantas, virou o livro Quarto de Despejo, o primeiro documento que mostrou em primeira pessoa a desagradável realidade de ser mulher, negra e pobre neste país, e, ao mesmo tempo, com quanta dignidade era possível suportar tanta discriminação.
O cotidiano da vida no Canindé – o verdadeiro quarto de despejo do título do livro – narrado por Carolina de Jesus é esquálido, violento, permeado por doenças, alcoolismo e fome, a fome que, logo de início, é definida como a escravidão dos tempos modernos. Mas também é cheio de suas reflexões sobre o Brasil e a vida da mulher negra. O relato literário recebeu críticas e comentários de escritores e intelectuais como Sérgio Milliet, Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira. No exterior, Carolina foi recebida com entusiasmo por Pablo Neruda e Octavio Paz
No ano passado, o jornalista Tom Farias lançou o livro Carolina: uma biografia, editado pela Malê, com o objetivo de humanizar a figura de Carolina de Jesus, tentando desvinculá-la do mito. Para ele, a escritora, ao contrário do que se pensa, não nasceu intelectualmente em 1960, com a publicação de seu livro. A biografia revela textos e matérias de jornais em que Carolina de Jesus já aparecia em 1940. “Ela fazia uma ronda pelas redações e rádios, apresentava-se como 'Carolina Maria, a poetisa negra', e ia oferecendo seus textos para publicação. Muitas vezes, era olhada de forma enviesada, tratada com desdém, mas teve alguns sucessos", conta.

Quadrinhos


Carolina de Jesus


Também em 2018, a vida da autora virou uma biografia em quadrinhos produzida por João Pinheiro e Sirlene Barbosa e publicado pela editora Veneta. O livro, que narra a infância pobre de Carolina de Jesus em Minas Gerais, sua vida sofrida em São Paulo, a fama, as ilusões, as decepções e o esquecimento, venceu o prêmio especial do Festival de Quadrinhos de Angoulême, o mais importante do mundo do gênero, uma espécie de Cannes do HQ.
Para o ilustrador e roteirista João Pinheiro, a palavra que define bem a obra é superação. “A história dela é muito triste, muito pesada muito para baixo. Mas ao mesmo tempo ela tem muita força. Então, apesar de ter essa miséria, fome, a situação degradante que ela vivia, por outro lado ela tem muita força e persistência. E supera tudo, mesmo diante daquelas dificuldades, ela consegue seguir em frente, levantar todos os dias e não desistir. Isso é o principal”, disse.
fonte: El País - Brasil

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Países da África buscam restituir tesouros coloniais roubados


Apesar da resistência dos países da Europa, países africanos querem seus bens de volta

Karlos Yukio
Três Tótens de Benin, pais da África Ocidental, são exemplos de tesouros roubados
Foto: Olivier Laban-Mattei
Numerosas coleções europeias têm em seu conteúdo vários objetos de arte nomeados como “coloniais”, mas adquiridos em condições muitas vezes discutíveis e não claras. O British Museum de Londres e o Museu Tervuren da Bélgica são exemplos desse tipo de prática.
Na época colonial, militares, antropólogos, etnógrafos e missionários que percorriam os países conquistados voltavam para seus países de origem com recordações compradas ou trocadas, e às vezes até roubadas.
Os três totens expostos no Museu Quai Branly de Paris, por exemplo, são detidos com a justificativa de serem uma “doação”. Seu país de origem, o Benim pede a restituição dizendo que os bens são tesouros roubados durante a época colonial.
Na verdade, as imponentes estátuas foram pegas em 1892 pelas tropas francesas do general Alfred Amédée Dodds durante o roubo do Palácio de Abomey, a capital histórica do atual Benim, país vizinho da Nigéria.
Segundo o Benim, na França existem entre 4.500 e 6.000 objetos que pertencem ao país, incluindo tronos, portas de madeira gravada e cetros reais.
A controvérsia não é nova e não concerne unicamente à África. Há décadas a Grécia exige ao Reino Unido, em vão, a restituição dos frisos do Partenon.
Mas o continente africano foi especialmente afetado, como lamenta El Hadji Malick Ndiaye, conservador do museu de arte africana de Dakar, capital do Senegal. “A África sofreu uma hemorragia de seu patrimônio durante a colonização e inclusive depois, com o tráfico ilegal”.
Mais de 90% das peças importantes da África subsaariana estão fora do território do continente, segundo os especialistas. A Unesco apoia há mais de 40 anos a luta dessas nações para que lhes restituam seus bens culturais desaparecidos durante a época colonial.
Para Crusoe Osagie, porta-voz do governador do estado de Edo, na Nigéria, não é normal que seus filhos tenham que ir ao exterior para admirar o patrimônio de seu país. “Esses objetos pertencem a nós e nos tiraram à força”, destaca.
Os dirigentes africanos esperam agora uma mudança de atitude da França, depois que o presidente Emmanuel Macron disse em novembro em Burkina Faso que dará “as condições para uma devolução do patrimônio africano à África” em um prazo de cinco anos.
“Macron se comprometeu com os africanos a mudar o que tem sido as cinco últimas décadas da política de nossos museus: encontrar as artimanhas jurídicas necessárias para evitar a devolução” das peças, observa o historiador Pascal Blanchard, especialista na época colonial.
O British Museum propôs empréstimos à Nigéria e à Etiópia, saqueadas durante uma expedição britânica em 1868, mas resiste a restituir os bens.
Para se negar a devolver as obras, os especialistas argumentaram durante anos que os museus africanos não têm as condições adequadas de segurança e conservação.
Mas de acordo com o conservador do museu de Dakar, El Hadji Malick Ndiaye, se trata de um velho debate. Na África “existem muitas instituições de museus, na África do Sul, no Quênia, no Mali, em Zimbábue”, assegura.
Entretanto, vários museus estão trabalhando para identificar a origem de milhares de obras da época colonial, quando a Alemanha controlava Camarões, Togo e Tanzânia. É o caso do Museu Humboldt Forum, que abrirá em breve em Berlim e especificará a procedência dos objetos.
Fonte: Midiamax

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A raposa e o camelo. Lenda do Sudão para as crianças

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Fonte: https://www.megacurioso.com.br/proxima-parada/68352-proxima-parada-sudao-conheca-melhor-este-pais-repleto-de-piramides.htm

Awan era uma raposa muito esperta que adorava as lagartixas. Já tinha comido todas de um lado do rio, mas ela sabia que do outro lado tinha muitas mais. O problema é que Awan não sabia nadar. Depois de pensar muito ela encontrou a solução. Foi ao seu amigo Zorol, que era um camelo e lhe disse: 

- Olá Zorol, eu sei aonde tem um campo enorme, e como eu sei que a cevada te deixa louco, eu gostaria de te ensinar o caminho se você me levar em cima. 

- Vamos, suba! – Disse Zorol sem pensar duas vezes. 

Awan subiu em cima de Zorol e começaram a caminhada. Awan lhe indicou que cruzasse o rio para chegar ao campo cheio de cevada. Logo que cruzaram para o outro lado, Awan mostrou o campo ao seu amigo e foi correndo buscar mais lagartixas. Como o corpo de Awan era pequeno, em pouco tempo já estava satisfeita de comer lagartixas. Foi correndo ao campo onde Zorol estava e começou a gritar e a correr como uma louca. 

Os donos do campo, que tinham uma casa próxima dali ouviram os gritos da raposa. Alarmados, eles pegaram pedras e paus e foram em busca da raposa. Ao chegar ao campo, eles descobriram Zorol, o camelo, que desfrutava tranquilamente da cevada. Deram uma paulada fortíssima em Zorol e pensando que já estivesse morto eles se foram. 

Awan regressou e quando viu a Zorol no chão disse: 

- Zorol, já está anoitecendo. Vamos voltar pra casa! 

Zorol respondeu: Por que você fez isso? Por que gritou como uma louca? Quase me mataram por sua culpa. 

- É que eu tenho o costume de corre e gritar depois de comer lagartixas, respondeu Awan. 

- É isso? Muito bem, vamos pra casa – Disse Zorol. 

Awan subiu de novo ao dolorido corpo do camelo. Zorol entrou no rio e começou a cruzá-lo. Quando estava no meio do rio, Zorol começou a dançar. Awan morrendo de medo gritou:

- O que você está fazendo Zorol? Não faça isso, eu não sei nadar! 

- É que tenho o costume de dançar depois de comer cevada – respondeu Zorol. 

Awan caiu na água e a corrente a levou. Zorol cruzou o rio sem problemas. Dessa forma a raposa recebeu uma boa lição.
Fonte: https://br.guiainfantil.com

A Dinastia dos Faraós Negros


Vindos da Núbia, no atual Sudão, eles conquistaram o Egito antigo e reinaram absolutos por décadas. Mas foram vítimas de preconceito arqueológico
Por Iuri Ramos, do Superinteressante





As pirâmides de Meroë e o faraó Taharqa: história ignorada por muito tempo. (Alexandre Jubran/Superinteressante)


A cena deve ter sido incrível e assustadora. Imagine dezenas de embarcações lotadas de guerreiros descendo o rio Nilo por volta de 730 a.C. O exército havia partido do reino de Kush, na Núbia, território que hoje pertence ao Sudão. Objetivo: conquistar o Egito, já em franca decadência àquela altura.

Quem liderava o ataque era o próprio rei, Piye. No decorrer de um ano inteiro, ele e seus homens derrotaram todos os chefes egípcios que lhes apareceram pela frente. Alguns combates foram especialmente encarniçados. Mesmo assim, as tropas do governante núbio chegaram inteiras até o delta do Nilo. Ao final da campanha, Piye era o senhor absoluto de um império que ia do norte sudanês ao Mediterrâneo. Tornou-se, assim, o primeiro faraó negro da história, representante de uma casta de núbios que controlaria o Egito antigo por décadas durante o que os historiadores hoje chamam de 25ª Dinastia.

Tudo em família

Com a vitória sacramentada, Piye regressou a Napata, na Núbia, trazendo os tesouros  que haviam sido pilhados pelo caminho. Daquela cidade, ele governaria o Egito por 35 anos sem jamais ter seu poder ameaçado. Ao morrer, em 721 a.C., foi sepultado no melhor estilo faraônico: numa pirâmide que havia mandado construir em El-Kurru, no Sudão, junto com seus cavalos favoritos.

Depois dele, vieram Shabaka e Taharqa, integrantes da mesma família. O primeiro, irmão de Piye, decidiu transferir o centro do poder para a cidade de Mênfis, em território egípcio. Ordenou a construção de vários monumentos em Tebas e Luxor, que estão lá até hoje. Em Karnak, Shabaka eternizou sua imagem numa estátua de granito rosa na qual ele aparece com uma coroa formada por duas serpentes – simbolizando a unificação do Alto e do Baixo Egito. Taharqa, por sua vez, era filho de Piye e assumiu o trono em 690 a.C., após a morte do tio Shabaka. Notabilizou-se como guerreiro e chefe militar antes mesmo de virar faraó. E encontraria nos poderosos assírios os seus maiores inimigos.

Hipótese racista

Além de serem personagens historicamente importantes, os faraós negros do Egito deixaram para a posteridade monumentos fantásticos – como as pirâmides de Nuri ou Meroë, bem menos conhecidas e visitadas que as egípcias. Mesmo assim, foram solenemente ignorados ou subestimados por muito tempo. Só nas últimas 5 décadas os arqueólogos passaram a creditar-lhes a devida relevância. O motivo? Preconceito de boa parte dos arqueólogos que monopolizaram as pesquisas sobre o Egito do final do século 19 até a década de 1950.



Os núbios foram reis do Egito por 60 anos. (Pedro Henrique/Superinteressante)

Até o famoso egiptólogo americano George Reisner, da Universidade de Harvard, embarcou no racismo. Entre 1916 e 1919, ele descobriu no Sudão as primeiras evidências de que reis núbios haviam conquistado o Egito. Recusava-se, no entanto, a acreditar que pudessem ter sido negros. Preferia a tese de que, embora controlassem um reino de africanos negros e “primitivos”, eles  teriam a pele mais clara – herança de antepassados egípcios e líbios.

A partir da década de 1960, essa hipótese começou a ser desmontada. Até ser definitivamente arquivada em 2003, quando o arqueólogo suíço Charles Bonnet encontrou em território sudanês 7 grandes estátuas dos faraós negros. Hoje, ninguém mais questiona que o controle dos núbios sobre o Egito foi total. Seu reinado só chegaria ao fim em 670 a.C., com uma ocupação assíria que duraria 8 anos. Ao final desse período, os egípcios passariam a ser governados por Psamtik I, que nada tinha a ver com a dinastia núbia. O Egito ingressaria numa fase de recuperação econômica conhecida como renascença saíta, assim chamada por ter sido liderada pelos soberanos da cidade de Sais.

Citação bíblica

Taharqa, filho de Piye e 3º faraó negro da 25ª dinastia egípcia, é personagem da Bíblia. Ele aparece no Livro dos Reis, do Antigo Testamento. A citação se refere ao avanço do imperador assírio Senaqueribe sobre a região da Judeia por volta de 701 a.C. Taharqa, grafado Tiraca no texto bíblico, ainda não era faraó. Liderava um exército que enfrentou os assírios em Eltekeh, na costa mediterrânea da Palestina – uma batalha sangrenta e que acabou sem vencedores. Quando se preparava para um segundo round, dessa vez nos arredores de Jerusalém, aconteceu o “milagre”: Senaqueribe suspendeu o ataque, levantou o cerco que havia imposto à cidade e misteriosamente foi embora.

Fonte: Gelèdes

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