quinta-feira, 21 de maio de 2015

Personalidade Negra – Maria Firmina dos Reis

Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista. Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
Fonte: FCP

Confederação Brasileira de Ginástica afasta ginastas envolvidos em escândalo de racismo

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A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) anunciou oficialmente, nesta quarta-feira, que os atletas Arthur Nory Mariano, Fellipe Arakawa e Henrique Flores serão afastados da Seleção masculina, após brincadeira racista que fizeram com Ângelo Assumpção em um vídeo. O afastamento preventivo estará em vigência a partir da quinta-feira, pelo período de 30 dias ou até a decisão final da entidade.


No polêmico vídeo publicado na rede social Snapchat de Arthur Nory na última semana, ele, Fellipe e Henrique faziam comentários supostamente racistas sobre Ângelo Assumpção, que aparece na gravação, parecendo estar constrangido com as ofensas dos colegas de equipe.

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Na mesma gravação, os ginastas tentam fazer as pazes com Ângelo, que não parece querer conversar com os companheiros Arthur, Fellipe e Henrique. Só depois Ângelo apareceu em um vídeo de pedido de desculpas, parecendo estar mais tranquilo.

Com o afastamento, Arthur, Fellipe e Henrique estão fora de qualquer evento nacional ou internacional, além de terem os incentivos financeiros e bolsas suspensos. A decisão final caberá ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) da Ginástica.

Em seu Instagram, Nory disse que passou dos limites: “Aqui é uma equipe e está tudo bem. Exageramos e passamos dos limites. Aqui todo mundo gosta de todo mundo. Por favor, não nos entendam mal”.

Confira o comunicado da CBG:
Na tarde desta quarta-feira (20), a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) anunciou oficialmente que os atletas Arthur Nory Mariano, Fellipe Arakawa e Henrique Flores serão afastados da Seleção de Ginástica Artística Masculina. O afastamento preventivo se dará a partir desta quinta-feira (21), pelo período de 30 dias ou até a decisão final a respeito do vídeo publicado em uma rede social na última semana, conforme resolução 001/2015.
“A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), considerando (i) análise preliminar de fatos e relatórios e publicações em mídias e redes sociais envolvendo atletas da seleção nacional por questões disciplinares; (ii) encaminhamento do feito ao STJD da Ginástica, instância desportiva competente que funciona junto à entidade, na forma do art. 50 e ss da Lei 9615/98; (iii) o disposto nos arts. 48 e seguintes da Lei 9615/98, arts. 30, parágrafo 2°., alíneas “j” e “u”, 47 a 59 do Estatuto da CBG.
RESOLVE
Afastar preventivamente da seleção nacional e eventos nacionais e internacionais, e suspender a concessão de bolsas e incentivos financeiros pelo prazo de 30 (trinta) dias, ou até decisão final sobre o caso pela CBG e STJD da Ginástica, os atletas da seleção de Ginástica Artística Masculina, Srs. Arthur Nory Oyakawa Mariano, Fellipe Arakawa Ferreira e Henrique Flores.”


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terça-feira, 19 de maio de 2015

Convite: Lançamento do Livro 19/05


África Contemporânea em cena: perspectivas interdisciplinares



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Projeto ajuda alunos a valorizar papel da mulher e evitar exposição na internet -

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No Centro de Ensino Fundamental 12 em Ceilândia, no Distrito Federal, os alunos do 9º ano aprendem por meio da valorização do papel da mulher a evitar práticas como sexting, o compartilhamento de imagens ou gravações íntimas por meio de aplicativos ou rede sociais.

Por Ana Lúcia Caldas – Repórter do Radiojornalismo, no Agência Brasil 

O projeto teve início quando a professora de português Gina Vieira Ponte de Albuquerque decidiu criar uma página em uma rede social como ferramenta pedagógica e para conhecer melhor os alunos. A educadora ficou surpresa quando uma das alunas postou um vídeo dançando com pouca roupa e com um forte apelo sensual. ”Me incomodou que ela se sentisse valorizada com os comentários grosseiros deixados na postagem”, disse Gina.

Esse episódio deu surgimento ao projeto de valorização da mulher e incentivo à leitura Mulheres Inspiradoras. Os alunos leram livros como Eu sou Malala, o Diário de Anne Frank eQuarto de Despejo, que mostram exemplos de mulheres fortes, de diferentes classes sociais, cor da pele, nível de alfabetização e nacionalidade. Os estudantes também conheceram biografias de mulheres que lutaram por uma causa e que fugiam do estereótipo de objeto sexual.

Para finalizar o projeto, os alunos foram convidados a escrever a história de mulheres de sua convivência que os inspirassem, como mães e avós.
Segundo ela, muitos alunos conheceram suas origens e a luta pela qual passaram mulheres de sua própria família. “Nós ficamos surpresos com a beleza das histórias, foram mais de cem, e que são o retrato daquela comunidade. Histórias de mulheres que foram abandonas por parceiros, que viviam situação de violência ou que saíram da zona rural, contadas por filhos e netos.”

Além de refletir sobre os casos de exposição como o sexting e sobre o conteúdo seguro para internet, a professora também aplicou um questionário para saber o que eles acessam na rede e o motivo de utilizarem as redes sociais. Na opinião dela, ao decidir postar um selfie com conotação sexual os alunos não tem consciência dos riscos envolvidos.

Mateus Lucas de Araujo, 15 anos, diz que os meninos que espalham fotos das namoradas “querem aparecer” o que, para ele, é uma forma de machismo. “Ele só quer crescer entre os amigos”, avalia. Já a aluna Larissa Dantas, 13 anos, diz que o conceito de privacidade mudou. “Hoje em dia, com esse avanço da tecnologia, Whatsapp, Facebook, a nossa vida se tornou um livro aberto porque você posta fotos com seu namorado e acaba mostrando para todo mundo.”

Para a professora, é missão da escola ajudar a refletir sobre os problemas cotidianos. “A escola fechada em si mesma, voltada apenas para o conteúdo dos livros, não serve para a complexidade do que estamos vivendo. A escola deve  ter mais do que um compromisso para aprovação no vestibular. Ela não pode se furtar da responsabilidade de trazer esses temas para a sala de aula.”
O projeto Mulheres Inspiradoras recebeu, do Ministério da Educação, o Prêmio Nacional de Educação de Direitos Humanos e o Prêmio Professores do Brasil.


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Ao menos mil israelenses de origem etíope e militantes que apoiam seu movimento protestaram na tarde desta segunda-feira em Tel Aviv para denunciar o “racismo” e a discriminação contra este grupo, constatou a AFP.
Do Em
Alguns incidentes esporádicos ocorreram no centro de Tel Aviv entre manifestantes e a polícia durante a passeata, que foi acompanhada por um importante dispositivo policial.
No início do mês, em Jerusalém e Tel Aviv, ocorreram confrontos violentos entre israelenses etíopes e a polícia, com mais de 60 pessoas – entre policiais e manifestantes – ficando feridas na última cidade.
Nesta segunda-feira, os manifestantes gritaram para exigir “justiça social” e “a prisão dos policiais racistas”.
Um vídeo na Internet onde se vê um soldado de origem etíope sendo agredido por policiais provocou a ira da comunidade judia etíope.
Mais de 135 mil judeus israelenses são de origem etíope, descendentes de comunidades que ficaram isoladas dos demais judeus durante séculos e que as autoridades religiosas de Israel reconheceram tardiamente como membros do judaísmo.
Esta decisão provocou a criação de duas pontes aéreas, em 1984 e 1991, para trazer cerca de 80 mil judeus a Israel.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente israelense, Reuven Rivlin, denunciaram mais uma vez no domingo o racismo contra os judeus negros.


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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Cultura negra inspira escritores brasileiros em diversos estilos

Livros de Nei Lopes, PJ Pereira e Claudio Fragata tratam de questões como racismo, cultura, religiosidade e resistência negra

O Rio de Janeiro da década de 1950 de Nei Lopes não é aquele da bossa nova nas praias de Copacabana e de Ipanema. No livro mais recente, Rio Negro, 50, o escritor e sambista vai além desse cenário e apresenta ao leitor o cotidiano de intelectuais, artistas e jogadores de futebol, majoritariamente negros, nos bares do centro da então capital federal. O romance, que mistura realidade e ficção, mostra esses personagens debatendo sobre acontecimentos da época.

Bruno Veiga/Divulgação


A ascensão da Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura e do Teatro Experimental do Negro; a fundação do primeiro clube social da classe média negra carioca (Renascença Clube) e a assinatura da Lei Afonso Arinos eram alguns assuntos das mesas do Café e Bar Rio Negro. Porém, a pauta mais comentada foi o assassinato de um jovem negro, confundido com Bigode, lateral da Seleção Brasileira derrotada pelo Uruguai na Copa do Mundo de 1950.

Infelizmente, mais de seis décadas depois, algumas questões do livro continuam atuais, como os problemas da falta d’água, a especulação imobiliária e a repressão ao candomblé. “A grande diferença é que as práticas de discriminação explícita são hoje tipificadas como crime. Então, na hora da ofensa, o racismo faz pensar um pouquinho antes de se manifestar. Além disso, hoje existe em vigor um Estatuto da Igualdade Racial, mesmo que esvaziado e enfraquecido em seus propósitos iniciais”, diz Nei Lopes sobre as semelhanças do cenário de exclusão dos anos 1950 com os dias de hoje.

Na obra, Nei também observa e critica a profissionalização das escolas de samba. “O samba, hoje, já não ameaça nem mete medo em ninguém. Já foi convenientemente desafricanizado — tanto que já tem até uma vertente sofisticada, de elite, batizada como ‘afro-samba’”, dispara. “A religiosidade, sim, ainda merece algum respeito; mesmo porque a semente do neopentecostalismo moderno surgiu com gente egressa da ‘macumba’. Mas os verdadeiros detentores dos saberes herdados da tradição africana, estes já se foram ou estão desaparecendo”.
Protagonistas

Rio Negro, 50 é uma obra-prima por mostrar personagens negros como protagonistas da história e da cultura do Brasil e por relembrar a consolidação do movimento negro no país. O livro encerra uma trilogia “involuntária”, que retratou três momentos importantes da história afro-brasileira. “Mandingas da mulata velha aborda o período do estabelecimento da comunidade baiana no Rio, que vai da virada do século até o início da década de 1930. E A lua triste descamba engloba do surgimento das escolas de samba à morte de Paulo da Portela (décadas de 1920 a 1940)”, relembra Nei.

Depois de recordar a década do protagonismo negro no Rio, o escritor carioca pretende voltar aos anos 1920 e 1930 para discutir a polemica questão da mestiçagem no Brasil e nos EUA. “Sem pensar em nenhuma ‘quatrilogia’”, avisa.

Cinco perguntas// PJ Pereira

Como suas histórias são criadas? Há uma inspiração específica para cada livro ou as histórias seguem o fluxo da sua pesquisa?


PJ Pereira: Eu tenho um processo bem rígido. Primeiro escolho o tema, o universo da história, e começo a pesquisar. Enquanto isso, faço minhas anotações e tento encontrar um ângulo diferente naquilo tudo, uma perspectiva ou um jeito de olhar que possa gerar uma boa trama. Nesse caso, foi a pergunta do que aconteceria se os búzios não dessem resposta nenhuma. Tudo nasceu daí. O próximo passo é escrever e reescrever o arco da história em linhas gerais e ir refinando até eu ter um resumo de cada capítulo, só então eu começo “escrever” propriamente — e isso também segue uma disciplina bem forte, que dura entre três e quatro meses: eu acordo e a primeira coisa que faço é ler o resumo do capítulo daquele dia. Nada antes nem depois. Depois disso, uso todas as horas em que estou sozinho, sem a distração do celular, para pensar a respeito. Não tomo notas para deixar minha memória servir como um filtro. À noite, quando a família toda foi dormir, eu sento e escrevo por duas a três horas. Não mais que isso para não cansar demais e acabar num “writers block”.

Para você, há diferença na forma de escrita se compararmos o primeiro com o terceiro livro?

PJ Pereira: Sim. No primeiro eu estava um pouco mais inseguro, então coloquei mais foco nas lendas originais dos orixás e mantive o texto mais seco e dinâmico, quase como se o leitor estivesse vendo um filme. No segundo, me permiti algumas pausas maiores, mas mantive o ritmo acelerado e o foco nas lendas. Para esse terceiro eu assumi muito mais riscos na forma de escrever, nas cenas. Ele é mais sombrio, até para combinar com o título (“O Livro da Morte”) mas acho que fiquei mais solto. A maior dessas ousadias, e confesso que várias vezes quase me arrependi, é que um dos dois mundos referenciados no título eu resolvi contar de trás para frente, de uma forma que o leitor não fica curioso para saber o que vai acontecer, mas por que algo que aconteceu.

A que se deve o sucesso de Deuses de dois mundos?

PJ Pereira: Acho que à coragem de todo mundo envolvido no projeto. Quando eu tentei publicar o livro pela primeira vez, ouvi que não havia mercado. Que esse era um livro para um público que não lê. Fiquei furioso com o preconceito e não desisti enquanto não consegui provar que esse povo estava errado. Consegui. O livro vende muito bem, tanto entre gente que lê um livro por semana quanto entre gente que nunca mais leu um livro desde que saiu da escola. Isso é a magia de uma história forte — não exatamente da que eu escrevi, mas de todos os mitos de que eu me apropriei para contar o que eu queria escrever. É muito bom ver preconceitos aos cacos, no chão, aliás. Acho que foi uma das partes mais divertidas de tudo, logo depois de sentir meu ego quase explodir quando vi uma fila gigantesca de gente que eu nunca havia visto na vida no lançamento do segundo volume da trilogia.

O público pediu para que você colocasse a bibliografia de suas pesquisas no “O livro da morte”. A curiosidade sobre a religiosidade africana está aumentando nos brasileiros?

PJ Pereira: As pessoas me pediam muitas indicações do que ler na página do Facebook do livro. Foi daí que veio a ideia. Acho que parte disso é um crescimento desse interesse que sempre vem junto com o aumento da repressão. Quando a polícia reprimia no passado, os artistas ficaram mais interessados em saber e falar do assunto. Agora com a pressão neo-pentecostal, vejo esse interesse crescendo de novo. A outra parte disso é que esse universo das tradições africanas sempre foi muito oral. Quando eu comecei a escrever, 15 anos atrás, havia poucos livros sobre o assunto, e muitos dos que haviam eram considerados grandes traições ao segredo. Hoje há mais abertura para isso. Mais títulos publicados, tanto na esfera religiosa quanto acadêmica (sociologia e antropologia, especialmente). Na ficção é que eu acho que ainda há pouco. Precisamos que essa geração de escritores que estão ativos por aí tenham mais interesse pelas raízes negras do Brasil, não só para que o interesse aumente, mas também porque existe uma crise de representatividade no nosso entretenimento. Simplesmente não há heróis negros. E não digo que heróis negros precisam vir diretamente de personagens mitológicos ou folclóricos. Eles devem aparecer também como executivos, médicos, advogados... gente que não tem nenhum motivo para ser “núcleo negro” da história. Mas até que isso aconteça, acho que há um passo intermediário que é a criação desses negros que são heróis exatamente por causa da sua origem.

Por que os capítulos dedicados ao Aiê são de trás para frente?

PJ Pereira: Há várias explicações. A primeira, e mais simples, é que no outro lado, no Orum, houve um problema no lago onde se enxerga o futuro e ele passou a enxergar o passado, como se o tempo andasse para trás. Isso fez com que a história do outro lado ficasse interessante se seguisse o mesmo sentido. A segunda é que eu queria manter o toque tecnológico, mas queria quebrar a estrutura de e-mails dos livros anteriores, então resolvi escrever sob a forma de blogs ou como posts no Facebook (embora muito mais longos do que se faz normalmente, essa licença eu tomei). Blogs e posts são lidos de trás para frente, os mais recentes no alto. São escritos na ordem cronológicas mas lidos ao contrário. Achei um desafio interessante e que combinava com a questão do rio que corria para trás e tudo combinou. Finalmente, o arco do mundo contemporâneo era mais surpreendente no início do que no fim. O fim tinha um choque, uma grande surpresa, mas era o início que me encantava mais. Então quanto veio a ideia de contar tudo do fim para o início, tudo funcionou tão bem que eu resolvi que era aquilo mesmo. Lembro bem do dia em que decidi isso. Estava no chuveiro, minha mulher se maquiava e naquele estalo eu disse para ela: “acabei de resolver “O Livro da Morte”.

Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2015/05/18/interna_diversao_arte,483479/cultura-negra-inspira-escritores-brasileiros.shtml

"Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso", Mario Sergio Cortella -

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Violência urbana, desconfiança no outro, terrorismo. As ameaças do cotidiano que minam nossas forças são o tema desta conversa com o filósofo Mario Sergio Cortella. E ele sugere como agir diante das aflições sem perder a alegria de viver.


filósofo e doutor em educação Mario Sergio Cortella, 61 anos, começa a entrevista dizendo: “Hoje, o Boko Haram matou cem pessoas no norte de Camarões… Todo dia há notícias assim”. O grupo fanático que ele menciona tenta fazer da Nigéria, vizinha de Camarões, uma república islâmica. E usa a barbárie para suplantar a marginalização política, econômica e social a que fora relegado pelos últimos governos. Essa facção sanguinária se tornou conhecida do público ao sequestrar 200 meninas nigerianas numa escola, em 2014. Muitas foram estupradas. Disputam o noticiário, as degolas de civis por outro bando de radicais, o Estado Islâmico e, ainda, os rescaldos do atentado ao semanário francês Charlie Hebdo, com a rejeição generalizada aos que professam o islamismo, a religião maometana que não prega o ódio muito menos a matança.

Dialogamos com o mestre que fez carreira na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre esses eventos mundiais e sobre os problemas locais que causam angústia. Entre eles, a escassez de água e a falta de luz em São Paulo e outros estados, as balas perdidas no Rio de Janeiro – que, só no primeiro mês deste ano, fizeram 30 vítimas. Em um rápido olhar sobre o quadro atual, nota-se um mundo mais rabugento, intolerante, racista e dando mostras de falência de recursos naturais. Assim, a conversa é sobre nossa impotência diante dos fatos que nos oprimem e deixam a sensação de que não podemos fazer nada para mudá-los. “Mas não é para ficar deprimido com as coisas que nos perturbam”, provoca o paranaense em seu escritório, na capital paulista. “É preciso lembrar que todas essas coisas são criações nossas, da humanidade. E devemos refletir sobre elas se quisermos um futuro mais equilibrado e saudável.” Cortella lança neste mês Educação, Convivência e Ética: Audácia e Esperança! (Cortez), livro que, como suas palavras aqui, ajuda na travessia destes tempos difíceis.

Como o seu livro entra nesse panorama de inquietação e incerteza?
Ele fala em audácia e esperança, sobre a formação de valores e a recusa à fatalidade. Nosso tempo se caracteriza por coisas bem perturbadoras. Uma delas é o tsunami informacional. Há uma torrente cotidiana de eventos, que chegam de diferentes fontes e veículos, e nos preocupam para além das nossas possibilidades de agir. Temos ciência das coisas e nada podemos fazer, o que gera angústia e impotência. Até pouco tempo atrás, uma notícia ruim envolvia somente a sua comunidade imediata. Você ia lá prestar solidariedade ou saciar a curiosidade. Não é mais assim. No entanto, do ponto de vista da violência, é preciso lembrar que o mundo está muito menos violento que no século 20 e em toda história. Dados epidemiológicos e estudos sociais provam isso. O que ocorre é que somos mais notificados hoje, além de haver uma rejeição maior à violência.

Há episódios mais veiculados na mídia, e de uma forma que leva à comoção. O ataque aos chargistas do Charlie Hebdo, na França, impactou mais os brasileiros do que as notícias sobre as polícias militares terem matado 1,7 mil jovens negros no nosso país em 2013 ou sobre 30 feridos por balas perdidas no Rio só em janeiro. Por que a dor do vizinho não nos mobiliza tanto?
Ela me obrigaria a agir e tomar uma decisão ética. Torna-se fácil prestar solidariedade a um movimento social no Sudão ou ficar com pena de uma vítima de explosão no Iraque. É bem mais simples do que lidar com o menino acampado na porta do meu prédio.

Isso exigiria mais do que consciência tranquila por devotar compaixão ao povo do Sudão. Não é?
Exato. A realidade à minha porta me impeliria a uma ação. Não é qualquer adesão meramente virtual. Tem sido comum alguém postar, nas plataformas digitais, um convite para uma passeata. As pessoas dão um like, mas não vão lá. Pensam que participaram. Assim como se sentem engajadas ao assinar um manifesto qualquer ou comprar a camiseta escrita Je Suis Charlie. A transformação de atos em bits, a virtualização das coisas ocupa várias circunstâncias da vida. É importante, mas não resolve tudo. Madre Tereza de Calcutá tem esta frase imbatível, que captura o conteúdo da sua pergunta: “Difícil é amar o próximo. Amar quem está longe é muito fácil”. A ideia do que seja o próximo é complexa. Temos a notícia sobre o que acontece no entorno de casa, mas não nos envolvemos. No fundo, isso também provoca certo desconforto. Embora esse mal-estar não afete a todos. Muitos, neste momento, estão mais preocupados com quem ficará na casa do Big Brother Brasil.

A sensação de desconforto atinge do mesmo modo os jovens e os mais velhos?
A minha geração tinha uma causa: acabar com a opressão. Dos 20 anos aos 30, sob a ditadura, queríamos democracia, liberdade de expressão e de culto, desejávamos escolher os próprios caminhos, uma sexualidade nada amarrada, uma conduta feminina que não fosse secundarizada. A geração atual não vive esses bloqueios nem tem grandes batalhas. A maior das batalhas hoje é a ambiental. Mas não interessa tanto aos novos, porque a minha geração não erotizou a ecologia. Conseguimos erotizar um jeans, um carro, uma balada, uma cerveja… Mas não a causa do meio ambiente. Ela não se tornou um desejo.

Por que a juventude não se preocupa com o fim dos recursos naturais?
Eles deveriam pensar nisso. Mas é uma causa abstrata. Ninguém via o problema da água até poucos meses atrás. Agora temos que tomar providências. A ecologia fala de algo que ao jovem não interessa, que é o futuro. Essa não é uma má geração, ao contrário, tem censo de urgência, é criativa e disponível para uma série de interfaces. Mas vive o dia como se fosse o único. Por quê? Os mais velhos disseram a eles: “Vocês não terão futuro, não haverá emprego, ar puro, segurança”. Os pais também vivem repetindo que os filhos não tiveram infância, não souberam brincar e subir em árvores, como eles. Ora, quem acredita que não tem futuro nem teve passado só enxerga a alternativa de viver o presente até o esgotamento. “Aproveite o dia”, é o lema atual. Grandes causas, como o fim da homofobia e da violência doméstica, demoram. Leva-se tempo para conquistá-las.

Em um bairro paulistano, moradores fizeram refém um funcionário da Eletropaulo. Disseram que ele só sairia dali se a luz voltasse. Em um condomínio, também da capital paulista, moradores andam pondo o ouvido na parede para fiscalizar quanto tempo demora o banho do vizinho, quantas vezes ele dá descarga ou lava a roupa. Isso pode gerar truculência? Acirra os ânimos e cria um clima de desconfiança? Ou é aceitável?
No caso do refém, é um esgotamento de paciência. O usuário diz à empresa, ali representada pelo funcionário: “Não aguento mais ficar no escuro. Não posso ouvir a mensagem gravada informando que o serviço será prestado em seis horas, depois em oito e, mais tarde, em dez horas”. O cidadão já foi enganado demais. A atitude é perfeitamente compreensível, embora possa caracterizar até cárcere privado. Quanto ao controle do banho, penso que a escassez deve se tornar um tema coletivo. Falta de água é grave. Isso é que acirra os ânimos. Num transatlântico, se a terceira classe afundar, a primeira afunda junto. Tomar conta do vizinho é o primeiro passo para organizar uma reação conjunta à falta de água. Se um denuncia o outro por desperdício – e deve haver multa para isso -, não está sendo dedo-duro, mas cuidando do bem de todos. A medida não pode, porém, se tornar uma atividade persecutória, na qual alguém assume uma autoridade que não tem e passa a fazer daquilo uma cruzada. Seria perigoso.

Os autores das ações radicais, no terrorismo, têm entre 20 e 30 anos. Eram crianças no atentado às Torres Gêmeas, em 2001, e, de lá para cá, enfrentaram preconceito e islamofobia. Viram os muçulmanos se tornarem mal recebidos no mundo, com dificuldade de entrar em diferentes países e as mulheres serem proibidas de usar o véu nas escolas. Outro dado: na França, 70% dos presos são muçulmanos. A maioria morava na periferia e, sem estudo e trabalho, cometeu pequenos ou médios delitos. O Estado falhou com eles. Qual é a sua análise sobre as duas coisas?
Não estão presos por serem muçulmanos, e sim porque são estrangeiros pobres, de uma minoria excluída, encostados nas bordas das grandes cidades da Europa. A cadeia deve estar cheia de indígenas, em Dourados (MS); de mexicanos, na fronteira com a Califórnia, nos Estados Unidos; e de sem-terra em áreas de conflito agrário no Brasil. O problema é a exclusão. O jovem muçulmano na França é muito assemelhado ao da periferia das nossas grandes cidades. A arma na mão, no nosso país, é respeito e dinheiro imediato. Na França, é o terror que oferece reconhecimento a esses meninos. Alguns islâmicos entendem o suicídio (caso do homem-bomba) como martírio. Esses jovens se dão importância desse jeito. O propósito dá sentido à vida. De certo modo, eles se ressentem do preconceito no mundo todo, não só na Europa. O véu é problema aqui também. Em Foz do Iguaçu (PR), quem estiver com ele não tira carteira de motorista. A rejeição, porém, não é de natureza religiosa. Uma muçulmana da elite usa o véu onde quiser e é até imitada. Outra coisa é a falta de trabalho para os garotos. Na Arábia Saudita, por exemplo, a economia é restrita ao petróleo, não tem indústria, comércio. Eles vão para o Exército ou cedem ao apelo de psicopatas que recrutam para o terrorismo. Mas eu não tenho uma visão catastrófica do mundo atual. Há muito mais estados com democracia do que antes. Na ausência dela, coloca-se um nível de vitamina mais elevado no terror, caso do Irã e do Iraque, em comparação com a França.

Na democracia, a liberdade de imprensa é imprescindível. Debates após o atentado ao Charlie se deram em torno do limite do direito de expressão. Pode-se ser livre e causar dor no outro?
Não deve haver limite para a liberdade de expressão. E ela não causa dor. Ali ocorreu um excesso de sensibilidade. Quando eu era menino, meu pai dizia: “Se te xingarem na rua e você for aquilo, então não é xingamento, é verdade. E, se você não for, não é contigo”. Logo, se tenho uma religião e alguém tripudia com meus símbolos, não levo em conta. Não tem a ver comigo, mas com quem fez a piada. Pena dele. A grande encrenca do fanatismo é tomar como ofensa a postura do outro. Se quer ser imbecil, seja. Eu não assinaria o Charlie Hebdo. Aquela escatologia não interessa mais. O humor inteligente está na base da recusa ao preconceito. Algo como: “Não ria de mim, ria comigo”.

As pessoas estão agressivas na internet. Ali, há todo tipo de insulto, o que abala os ofendidos. Reagir ao preconceito, dessa forma, não parece tão simples.
Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso. O preconceito tem duas fontes: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa. É um fraco que teme aquele que não é igual e se sente ameaçado por ele. Além disso, ser preconceituoso é ser burro e tonto.

Hoje, há passeata para tudo. O psicanalista Contardo Calligaris escreveu que levar crianças a uma manifestação de rua parece perigoso. Mas não levar o filho é mais perigoso para o seu futuro e o seu espírito. Eles devem participar?
O omisso é cúmplice. Os pais que escondem do filho temas importantes estão furtando dele a completude na formação – e tendem a fazer da criança uma vítima de um sistema que pode ser maléfico. A família deve discutir temas sociais, sim. Se ela decide não ir à rua, deve explicar o porquê. Há pais que dizem: “Não me meto em política”. Ao agir assim, já se meteram. Isso é nocivo.

Quando símbolos fortes, que serviam de balizadores para a sociedade, se enfraquecem, aumenta a sensação de impotência. Exemplos: a Universidade de São Paulo (USP) vive uma crise financeira e científica e também moral, por ter abrigado o estupro de alunas por colegas sem que isso fosse apurado. A maior empresa pública, a Petrobras, está envolvida em escândalos e corrupção. Por que isso mina nossas forças?
Mexe com a gente porque são nossos símbolos de poder. Mas estão surgindo outros ícones, como comunidades que se conectam em blogs para cooperar; dentistas que se juntam para atender sem cobrar; instituições como Doutores da Alegria, que vão brincar com crianças em hospitais. Conheço desembargadores, em São Paulo, que saem do tribunal, colocam o nariz de palhaço e vão entreter doentes. São novos marcadores.

O que é preciso fazer para entender este momento da humanidade que vivemos?
Os chineses acham que devemos lidar com a história e não com o momento. Você só compreende o hoje se olha a história no seu desenvolvimento. É bom recordar o que falavam as avós: “Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe”. Portanto, nada de desespero. Problemas agudos se dissolvem no tempo. Os efeitos colaterais não são insuperáveis; podemos lidar com eles. É bom lembrar que devemos ter cuidado num mundo multifacetado, multicultural e multidiverso. Por isso, não podemos nos fechar em grupos exclusivos – só católicos, só gays, só muçulmanos -, o que leva à política do gueto e dilui a ideia de humanidade. Acabar com hinos nacionais também seria bom. Em geral, dizem: “Pega, esfola, estripa, arranca, mete a espada”. Temos de enxergar uma sociedade global e interconectada. Não pelo digital e pelo econômico somente, mas pela antropologia. Ou seja, pela convivência humana. E que cada um seja capaz de olhar o outro como o outro, não como o estranho. Homens e mulheres são diferentes, não desiguais. Brancos e negros são diferentes, mas devem ter os mesmos direitos.

O papa Francisco tem opinado em conflitos entre judeus e árabes, entre nações fortes e sociedades pobres, sempre na defesa da paz e da autonomia política dos povos. Repudia o terrorismo, mas critica o insulto à fé. Denuncia que o mundo é machista com as mulheres e prega respeito aos gays. Até provocou com a frase: “Sejamos revolucionários”. Muitos dizem que é o maior estadista do momento. Concorda?
Ele cumpre uma grande tarefa. Traz à tona questões difíceis. Não mexerá na doutrina, mas no campo da moral. Ele prega o acolhimento dos excluídos. Diz “Seja revolucionário” no limite que o cristianismo romano entende como revolução. A inspiração em Jesus ou São Francisco de Assis é boa para os jovens. O papa é uma expressão de alegria. Trata temas sérios de modo leve, não é carrancudo, não olha de cima. Assumiu o papel de defesa da paz onde há conflito. Ele me faz lembrar Benedito Spinoza, filósofo judeu que propõe a ética da alegria. É algo que precisa entrar na nossa rotina. Não quer dizer que a sociedade deva seguir no vício do hedonismo, buscar o prazer em tudo o que faz, seguir na lógica de que a vida é uma festa e não requer esforço. Isso degrada nossa capacidade, que deixa de construir algo um pouco mais forte.nstituto da Mulher Negra

Leia a matéria completa em: "Todo preconceituoso é covarde. O ofendido precisa compreender isso", Mario Sergio Cortella - Geledés 
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Mulheres Pretas

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